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Públicos em vez de cidadãos

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Yves Citton, professor de Literatura e Media, na Universidade Paris 8 Vincennes - Saint-Denis e co-director da revista Multitudes, acaba de publicar em França, pela AOC, “La Machine à Faire Gagner les Droites”, que explica a ascensão generalizada da extrema-direita e é uma proveitosa oportunidade de, ao longo de 228 páginas, desenferrujarmos a tão secundarizada língua francesa. Este livro desenvolve a ideia de que há uma complexa infra-estrutura mediática que favorece e promove a aceitação dos partidos hostis aos valores democráticos e que têm como missão o ataque ao Estado de direito e a promoção de sistemas autoritários.

 

Citton parte da nossa noção de que vivemos em democracia — achamos que os governos são eleitos pelo demos, o povo. Segundo Citton, esta noção de democracia é falsa, por haver um intermediário que são os media: assistimos a debates nos meios de comunicação e depois, ao votar, exprimimos o que pensamos ou o que queremos. Não nos encontramos na praça pública, apenas nos vemos através da televisão ou dos smartphones.

Os media geram públicos. Há públicos para as telenovelas, há públicos para o cinema francês, há públicos para determinado jornal ou determinado canal de televisão.

Segundo Citton, quem vota hoje não é o povo, são os públicos. É como membro de um público que se vota a favor ou contra. A democracia transmutou-se em públicocracia.

Ora, se são os públicos que fazem ganhar as eleições e se o que faz os públicos é a interacção das pessoas com os media, torna-se imprescindível analisar e compreender a infra-estrutura dos media, para perceber o que gera os públicos e por que razão um partido ganha eleições e outro perde.

Uma das teses subjacentes a esta última obra de Citton é a de que o poder actual, o poder dos media, que designa por mediarquia, é também o poder dos jornalistas. Citton constata que há muitos jornalistas que reproduzem discursos sem pensar no papel que desempenham. É o caso dos repórteres da televisão que vão para a rua e perguntam a quem encontram “O que acha?”. Os jornalistas deviam sentir a responsabilidade de não fazer isto, porque não dão tempo às pessoas de pensar e dizer algo inteligente. Estes entrevistados incautos dizem a primeira coisa que lhes vem à cabeça — sempre a atoarda mais instintiva e mais fácil, mais simplista e que, por isso, circula melhor. E são as ideias redutoras que a extrema-direita aproveita, porque são as que circulam melhor. Deste modo, os jornalistas, eventualmente sem intenção, põem em prática um sistema que favorece certos slogans, certas frustrações, certos ódios.

É evidente que esta máquina de fazer a extrema-direita ganhar é alimentada pelo sofrimento. Entre as pessoas que votam Le Pen ou Ventura, há quem só queira defender a seus privilégios. Mas a maioria está a votar por raiva ou frustração. Esta é a dificuldade dos partidos democráticos, porque não se pode desqualificar o que alimenta este voto. Não atacando as razões que levam determinados públicos a optar pela extrema-direita, este voto irá aumentar, vaticina Citton.

O discurso simplista da extrema-direita é o que se difunde e atrai hoje mais pessoas, porque o ritmo da comunicação, não permitindo a explicação, lhe é mais favorável. Pelo contrário, a expressão dos afectos é imediata — odeio-os, gosto dele, não gosto… A máquina que faz a extrema-direita ganhar não perde tempo com explicações, porque tem sempre soluções fáceis para todos os problemas. Há zonas da cidade onde o tráfico e o consumo da droga originam criminalidade? Logo alguém da extrema-direita aponta a solução: pôr toda essa gente na prisão ou recambiá-la. As prisões estão superlotadas, é igualmente simples: é preciso construir mais prisões.

É óbvio para Citton que a públicocracia, básica e sectária, sem tempo para explicações, destrói a democracia, porque o público hegemónico numa eleição, não sendo incentivado a compreender e aceitar os outros públicos, vê-los-á como inimigos a abater. E para esse silenciamento, três Salazares não serão demais.

Escrevo segundo a anterior grafia.

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