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Em português é mais barato

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Chego a um restaurante em Lisboa com alguns colegas de trabalho. Sou o único português no grupo e os meus colegas cumprimentam o empregado de mesa com um saudoso Good Evening. O homem retribuiu com um simpático sorriso. Entro e digo “boa tarde” — em bom português — e vejo que ele me olha de forma diferente e acena com a cabeça. Como se estivesse a dar um sinal de que entendeu exatamente o que eu quis dizer com aquele “boa tarde”.

 

Sentamo-nos e o empregado de mesa distribui vários menus enquanto vai dizendo umas coisas em inglês. Deixa-me para último e enquanto me coloca o menu na mão, diz: “E para si um menu em português”. E pisca o olho. Por esta altura penso que talvez não vão a este restaurante muitos portugueses. Talvez esteja muito feliz por ter lá um português.

Um dos meus colegas pergunta-me uma coisa no seu menu e reparo — mesmo à português — que os preços no menu dele são diferentes. Mais elevados. Fiquei um tempo a processar o que seria aquilo. Será que é norma em restaurantes portugueses? Não teria como saber. Apenas nunca entrei num restaurante em Portugal e disse: “Hello, I’m not from here. English menu.”

Significa, portanto, que o estrangeiro, como deve ter mais dinheiro, paga uma taxa por não ser de cá. Faz-me lembrar aqueles letreiros em cafés que diziam que “um café” custava 1 euro. Se a pessoa pedisse “bom dia, um café”, já custava menos 20 cêntimos. Neste caso, um “good morning, one coffee” iria encarecer o café em mais 1 euro. Talvez só mais 50 cêntimos se souber dizer café.

Pode ser um bom incentivo para os estrangeiros aprenderem a nossa língua. Se souberem pelo menos dizer “bom dia”, talvez recebam um menu em português. E é aí que se apercebem do poder de um “bom dia”. O “bom dia” pode fazer o dia de outra pessoa melhor e, além disso, ainda lhe dá descontos em cafés e restaurantes. O good morning não traz vantagens. Só faz com que pague mais para comer e beber e ainda pode levar com um “vai para a tua terra.”

Esta taxa Good Morning pode até levar os donos dos restaurantes e cafés a fazerem mais algum dinheiro. Mas já pensaram como fazem sentir os portugueses? Para o empregado de mesa que me atendeu, ele estava a fazer-me um ‘jeitinho’. Meteu uma cunha na cozinha para dar uma atenção ao português. Temos de ser uns para os outros, não é verdade?

Sei que devem estar a querer ser simpáticos, mas parece que, na verdade, temos pena uns dos outros. “É português coitado, dá-lhe um desconto.” Certamente que Camões ficaria devastado se soubesse que salvou os Lusíadas no meio daquele naufrágio para que agora a gloriosa língua portuguesa dê desconto no bife à casa.

Estamos a discriminar os estrangeiros — porque nem todos têm mais dinheiro — e estamos a dar descontos a portugueses que até têm condições para pagar mais. Por isso, acho que se queremos ter menus diferentes, temos de perguntar a cada pessoa na mesa quanto dinheiro ganhou no último ano e só aí distribuir vários menus de acordo com cada escalão.

Por exemplo, fiz uma pesquisa e atualmente o país mais pobre do mundo é o Sudão do Sul. Se um turista do Sudão do Sul chegar a um café em Portugal, sabe em que língua vai pedir o café? Em inglês, que é a língua oficial do seu país. Merece esta pessoa pagar o menu em inglês?

Pode até existir quem não queira passar por todo esse processo e seja logo sincero na chegada ao restaurante. “Boa noite, dê-me dois menus de pobre.” E não tem de haver problema. Assim cada pessoa já sabe ao que vai sem ser preciso esconder nada de ninguém.

Acredito que isto seja praticado em vários países. Talvez quase todos. Mas esta espécie de discriminação vem denegrir o melhor da mesa portuguesa. Uma mesa com tradição de servir qualidade e quantidade farta. E onde todos têm lugar. Mas se soube bem pagar menos pelo mesmo prato só por ser português? Soube.

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