A também professora universitária, que esteve no Café Concerto do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha numa apresentação do livro “Breve História de Portugal”, que escreveu em conjunto com Roberto Della Santa, considera que “votar de quatro em quatro anos não é suficiente, e as pessoas têm que ser chamadas a participar nos seus locais de trabalho e nas suas casas”, defendendo uma “democracia participativa”.
“O melhor gestor do mundo não vai resolver o problema dos hospitais, isso tem que ser feito com os médicos, enfermeiros e auxiliares”, salientou, acrescentando que “também os problemas das escolas não se vão resolver sem os professores serem mobilizados para dar ideias”.
“Nós temos hoje uma desigualdade social galopante que deveria envergonhar qualquer Governo”, afirmou Raquel Varela, que não acredita que o novo poder “vá ter qualquer efeito na diminuição dos problemas sociais”. “É preciso sair da propaganda e olhar para o país e começar a enfrentar os problemas”, declarou.
A historiadora disse que temos todos que “começar a pensar nos 19 meses da revolução portuguesa, que nos dão ótimas fichas, porque no 25 de Abril aconteceram coisas absolutamente extraordinárias, onde a população se juntou para discutir o país”.
A autora considera que vale a pena nestes “50 anos do 25 de Abril voltarmos a olhar para as pessoas que fizeram e que trouxeram o país da idade média para século XXI e foi isso que aconteceu na revolução dos cravos”.
Respondendo a uma observação da plateia que abordou a abolição do salário mínimo nacional, Raquel Varela disse concordar, mas com uma “visão menos otimista nas soluções”. Como está escrito no seu livro, “não existe hoje menos classe trabalhadora, pelo contrário. Nunca em Portugal, ou na humanidade, existiram tantos trabalhadores assalariados e explorados, nunca eles foram a proporção maior da sociedade, nem nunca tiveram tantos meios para comunicar entre si”.
“O salário mínimo adequado em Portugal está calculado em 2400 euros num casal com um filho”, revelou a autora, adiantando que é uma “intervenção do Estado na economia para garantir salários baixos”.
A historiadora recordou que o salário mínimo quando foi criado em 1974, estava no seu cálculo em Portugal e outros países da Europa o direito ao vício como para a compra de “maços de cigarro e idas ao cinema”. “Hoje ninguém vive com 800 euros”, afirmou. “O que temos é uma subida sistemática do salário mínimo, mas os outros salários estão todos congelados, ou seja, qualquer dia estamos todos a ganhar o salário mínimo, que é abaixo do mínimo necessário para viver”, sustentou, acrescentando que “60% da população portuguesa neste momento está com o salário mínimo ou abaixo dele e isto é a realidade do país”.
Raquel Varela recordou ainda que no século XIX os sindicatos abriram “escolas de música para todos os trabalhadores e seus filhos aprenderem a tocar um instrumento musical”. “Quantas crianças é que hoje em Portugal no século XXI tocam um instrumento musical?”, questionou.
A apresentação do livro “Breve história de Portugal: a era contemporânea (1807-2020)” foi organizada pela Associação Património Histórico PH – Grupo de Estudos e a Bertrand, que editou o livro.
A apresentação inicial foi feita por Isabel Xavier, presidente do PH e também professora de história no ensino secundário. Referiu que leu o livro nas férias de natal e que “é exatamente a matéria que tem dado nas aulas ultimamente”. Revelou que é o seu último ano como docente, uma vez que tenciona pedir a aposentação no final do ano letivo.
Vasco Trancoso, que conhece bem Raquel Varela, que o citou no seu livro “História do Serviço Nacional de Saúde em Portugal”, foi o moderador do evento.
A autora voltou a citar o Vasco Trancoso neste novo livro, onde o médico recorda ter feito o Serviço Médico à Periferia (criado em 1975, por luta dos estudantes por carreiras médicas).




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