Além de diretor da ETEO há 30 anos, Luís Sá Lopes foi também professor da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro durante 31 anos – estabelecimento onde desempenhou o cargo de Presidente do Conselho Diretivo por duas décadas – e, desde janeiro de 1986, e ao longo de oito anos, dedicou-se à vereação do pelouro da Educação na Câmara das Caldas. Ainda ligado à autarquia, foi vogal do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados.
Foi homenageado pelo Rotary Club das Caldas da Rainha com a distinção de profissional do ano de 2015. Uma pessoa de bem que promove consensos, um cidadão impoluto, o seu sucesso como professor e nas suas funções como dirigente pedagógico, o seu rigor e, sobretudo, a forma afetuosa e educada como fala com as pessoas, foram alguns dos atributos apontados a Sá Lopes.
JORNAL DAS CALDAS – Quantos anos foram dedicados ao ensino?
Sá Lopes – Nasci na
Meadela, uma freguesia rural de Viana do Castelo, 112 dias depois de começar a 2ª Guerra Mundial. Isto para dizer que completei 80 anos no dia 21 de dezembro último! Apresentei-me, por coincidência, juntamente com o dr. Mário Tavares, na então Escola Industrial e Comercial de Caldas da Rainha, no dia 2 de outubro de 1967, ao diretor escultor Eduardo Loureiro. Foi o início de uma boa amizade entre os dois.
J.C. – Porque é que decidiu sair da direção da ETEO?
S.L – A minha decisão de cessar funções na ETEO foi comunicada à Assembleia da APEPO – Associação Para o Ensino Profissional do Oeste em março de 2017, no inicio do mandato que terminaria em março de 2020. A pandemia provocou o prolongamento até ao final do ano letivo.
Na altura, achei que ter sido 30 anos diretor pedagógico e ter atingido os 80 anos de idade era uma forte razão para terminar.
Fui diretor pedagógico da ETEO desde o seu início, até 31de julho de 2020, mas, acho oportuno referir, que a escola tem mais responsáveis, como a Presidente da Direção, a Dra. Filomena Rodrigues, a Dra. Manuela Franco, Chefe dos serviços Administrativos, os Coordenadores de Curso, os Diretores de Turma e de uma forma geral todos os professores e restantes trabalhadores.
J.C. – O nascimento da ETEO foi muito importante para si. Porquê ?
S.L – Os então presidentes da ACCRO, João Davim e da AIRO , Dr. Colares Pereira convenceram-me com a legislação que criava as Escolas Profissionais. Na verdade, perspetivava-se um novo e atraente paradigma para o ensino profissionalizante. Achei que a própria ESRBP podia beneficiar com o projeto. Fiquei muito honrado com o convite dos então promotores da ETEO.
J.C. – É uma escola diferente que alia a liberdade à responsabilidade?
S.L – No início foi necessário criar um clima de muita responsabilidade e autonomia. Para isso, houve que recorrer a um grupo de professores de reconhecido mérito profissional cujas competências fizessem esquecer as deploráveis condições de trabalho nos Pavilhões do Parque D. Carlos I. Esse espírito instalou-se até agora, porque, a escola nasceu bem.
J.C. – O que é que o marcou mais nestes anos todos na ETEO ?
S.L. – Terei que fazer referência ao ambiente familiar que os próprios alunos reconhecem, proporcionado pela dimensão da escola, com apenas 15 turmas, e a tranquilidade que os professores e os inexcedíveis trabalhadores não-docentes garantem. .
J.C. – Nunca pensou viver esta pandemia?
S.L. – Creio que ninguém podia imaginar que viesse a acontecer uma situação destas. Muitas coisas vão mudar e sobretudo ficamos a pensar que o Homem todo poderoso , que vai à Lua, e imagina outros feitos, afinal é muito frágil.
J.C – Como é que a ETEO ultrapassou esta crise provocada pela Covid-19?
S.L. – Esta pandemia foi para todos uma situação inesperada, e na ETEO, tomaram-se todas as medidas necessárias a enfrentá-la, com ajuda dos profissionais de curso de Técnico Auxiliar de Saúde, em que destaco o respetivo coordenador, Enfermeiro Manuel António Ferreira, mas também toda a comunidade escolar.
Garantiu-se o ensino à distância com uma dedicação que ultrapassou tudo o que seria de esperar. Neste desafio, os professores foram uns verdadeiros heróis.
J.C. – Além de diretor da ETEO há mais de 25 anos, Sá Lopes foi também professor da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro durante 31 anos-estabelecimento onde desempenhou o cargo de presidente do Conselho Diretivo por duas décadas. O que acha do ensino de hoje? Na sua opinião melhorou ou piorou?
S.L. – Aos 31 anos na ESRBP acrescento um na Secção liceal , hoje Escola Secundária Raul Proença, e 4 anos de Serviço Militar Obrigatório, 2 dos quais em Timor, perfazendo os 36 anos necessários para a aposentação e correspondem à minha pensão de reforma.
No coração tenho também esses 31 anos na ESRBP com os 20 como presidente do Conselho Diretivo. Podemos dizer num cálculo grosseiro, que a ESRBP, tem uma dimensão no setor humano de, talvez, cerca de 5 vezes maior que a ETEO. Nestes 53 anos de docente, tenho assistido a constantes alterações no panorama educativo em que as mais notórias, resultam sobretudo de se ter passado do privilégio de ir à escola para, e bem, a obrigação, com consequências sobretudo no aumento do trabalho de todos. Ser professor hoje é incomparavelmente mais difícil que nos tempos atrás.
J.C. – Sempre procurou ir além dos conteúdos formais e tentou ser justo, responsável, inovador no ensino. Quais as medidas que defende para se poder ter um ensino de qualidade?
S.L. – A qualidade do ensino passa por existir uma boa qualidade de professores. Como disse atrás, em condições físicas como as do inicio da ETEO não se punha muito em causa as condições de trabalho. O ensino privado tem neste ponto, a vantagem de poder escolher os seus colaboradores
J.C. – O que é para si um bom professor?
S.L. – Um bom professor será aquele que consegue que os alunos tenham prazer em ir às suas aulas. Seja pelo relacionamento, pela competência profissional, compreensão e dedicação.
J.C. – É uma pessoa conhecida por promover consensos. Nas suas funções como dirigente pedagógico, o seu rigor e, sobretudo, a forma afetuosa e educada como fala com as pessoas, são alguns dos atributos que lhe são apontados. O fator humano é importante para si?
S.L. – Bem, acho excessivos alguns atributos que refere, mas acho que uma escola tem que ser um local de paz e de educação. Compete aos mais responsáveis criar o ambiente em que se respirem essas condições. O fator humano será essencial para se conseguir isso.
J.C. – Foi candidato à Câmara das Caldas pelo PS. Após as eleições autárquicas de 1985, integrou o executivo da Câmara Municipal das Caldas na qualidade de vereador da Educação, cargo que cumpriu durante dois mandatos. Também teve uma paixão pela política?
S.L. – Sempre acompanhei bem a atividade política mas nunca me passou pela cabeça ser um dia candidato a qualquer coisa. Em 1985, a poucos meses das eleições autárquicas, fui abordado por um dirigente local do PS, o Engenheiro Delfim Azevedo, que me convidou para ser o candidato do partido, como independente.
A minha surpresa foi total e não respondi logo prometendo fazê-lo no regresso das férias , a pouco mais de 3 meses das eleições. Avaliei a situação ponderando os factos em que o PS estava em queda, o aparecimento de um partido novo, o PRD, e um histórico de vitórias do PSD e CDS, mas achei que tinha uma obrigação cívica de aceitar e assim aconteceu. Mas não esperava ter grande votação . Felizmente o PS nas legislativas, nas Caldas, tinha sido o 3º partido mais votado e nas autárquicas foi o 2º. Mais tarde filiei-me no partido por uma questão de princípio e apoiei o Engenheiro Valente numa 2ª candidatura. Não fiquei com saudades da vida partidária, que muitas vezes é como caminhar num terreno lodoso, e , já o disse, no ensino ganhei uma imensidão de amigos e na política adversários.
J.C. – Era um sonho seu ser presidente da Câmara das Caldas da Rainha ?
S.L. – Obviamente que não. Fui vereador nos dois primeiros mandatos do Dr. Fernando Costa, com quem aprendi muito, e sempre pensava nas reuniões da Câmara : Que bom é ser professor…
J.C. – O que pensa da politica atual ? O que mudava?
S.L. – Garantir a democracia tem que ser um desígnio de todos. Por muito mal que se fale dos políticos e da política a verdade é que não se vê um outra forma de vivermos em conjunto. Também há maus juízes, maus médicos, maus professores… A nível autárquico penso que o executivo devia ser monocolor e deixar a fiscalização entreque à Assembleia Municipal.




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