Da relação de forças entre estes três gigantes dependerá o equilíbrio político-militar do mundo nos próximos anos. Este equilíbrio a três gerará uma ordem internacional volátil e um mundo diferente do que temos conhecido desde o final do século XX. O factor gerador de maior incerteza é o crescente poder da China, dos três o maior competidor pelo prestígio e dominação mundiais, que afronta directamente a periclitante hegemonia norte-americana e melindra Putin.
O prócere russo, nostálgico do bloco soviético — de que a invasão da Ucrânia e a anexação da Crimeia são um claro sintoma — e do seu poder militar, que a vitória na Síria comprovou, apoiará o estatuto político da Rússia na velha ameaça nuclear. A Rússia procurará tirar vantagem do prejuízo da competição directa entre os EUA e a China, e será, dos três, o competidor mais susceptível e pernicioso. A propaganda da “democracia soberana”, conceito bizarro que procura conciliar os opostos democracia e ditadura, que Putin tem feito para legitimar o seu regime, tem-se revelado um verdadeiro canto da sereia para certos Orbáns, Salvinis e quejandos, contribuindo para o enfraquecimento da UE.
Depois da queda do muro de Berlim, do desabar da URSS e do fim da Guerra Fria, os EUA dispuseram momentaneamente de um domínio só comparável ao do império romano. Mas hoje, Donald Trump quer que os EUA sejam um “Estado normal”, declinando qualquer obrigação de proteger o mundo dos seus problemas, passando a tratar apenas dos seus interesses internos, desde logo os da segurança, tratando de reforçar maciçamente as suas capacidades militares.
A estratégia de “ascensão pacífica” do tempo de Deng Xiaoping cumpriu paulatinamente, ao longo dos últimos 40 anos, o seu objectivo: desde 2014, a economia chinesa é a que apresenta o maior indicador de Paridade de Poder de Compra e, segundo todas as previsões, tornar-se-á em breve a maior economia do mundo em qualquer indicador, suplantando os EUA. A ascensão chinesa, daqui em diante, será menos “pacífica” e mais musculada. Jinping está a construir a segunda maior força militar do mundo e pretende dominar o Mar do Sul da China; tem em curso um grande projecto geopolítico, conhecido por “Belt&Road Initiative”, que visa reconstruir as versões terrestre e marítima da Rota da Seda, que irá de África ao Médio Oriente e da Ásia do Leste (onde já é o principal parceiro comercial do Japão e da Coreia do Sul, relegando para segundo plano os EUA) à Ásia Central; tem estendido também os seus tentáculos à UE, comprando posições em sectores estratégicos como portos, energia, banca, seguros e telecomunicações.
Aos nacionalismos expansionistas de Jinping e de Putin opõe-se o nacionalismo proteccionista de Trump. A este tripé mutuamente exclusivo, desigual e conflituoso, falta um quarto apoio estabilizador, que só pode ser uma UE coesa.
É imperativo que estas eleições europeias, marcadas para final de Maio de 2019, dêem uma inequívoca vitória aos que defendem um federalismo horizontal na óptica de Hannah Arendt, em que os países federados controlam mutuamente os poderes; defendem a globalização num dualismo de diferenciação e integração; defendem a abertura aos outros e à novidade, a partir da defesa dos valores que estão na base da construção europeia — liberdade, tolerância, democracia e mercado comum. O próximo Parlamento Europeu deverá ser formado por uma nova aliança das forças democráticas que construíram a Europa e que vêem mais além da velha dicotomia direita-esquerda. Só uma Europa assim poderá precaver o desequilíbrio apocalíptico do grande tripé.



0 Comentários