A iniciativa pretendeu fazer uma reflexão a partir de uma questão inicial: “Que memória para a Secla?”. A organização justificou o tema pela “incerteza quanto ao futuro do património cerâmico da Secla que ainda subsiste e o recente projecto de transformação da área da Fábrica 1” (para supermercado, hotel e fast food).
A Secla foi uma das principais produtoras e exportadoras da cerâmica caldense, a partir de meados de século XX, perfazendo agora dez anos sobre o seu encerramento.
Como moderador, Jorge Mangorrinha começou por referir que o que está em causa são dois aspetos correlacionados: “A valorização do património cerâmico e o projeto de investimento previsto para a área da fábrica, prevendo a total demolição desta”. E adiantou que este problema decorre de três pontos essenciais à escala da cidade.
Mangorrinha referiu que “o primeiro ponto se prende com o planeamento e a gestão urbanística que, a existirem em termos mais alargados, teriam permitido uma abordagem não discricionária, como aparentemente se passou na aprovação deste projecto. Lembro que a cidade apenas tem o PDM como instrumento de pensamento e regulação do uso do solo”.
Referiu que o segundo ponto a reter se prende com “o planeamento e a gestão sectorial da cultura”, adiantando que o que foi feito nestas últimas décadas “mais parece uma aposta de construção de espaços do que uma ideia integrada de cultura e sem a devida salvaguarda de diversos patrimónios, como o azulejar, por parte da autarquia e até de alguns cidadãos”, propondo que o conceito de centro histórico seja alargado de conteúdos patrimoniais e a uma área que “incorpore o perímetro de ligação ESAD.CR-Secla-Silos-CCC, tendo continuidade num outro que una CCC, Bordalo Pinheiro, Museus e ESAD.CR. Essa linha contínua seria o perímetro de uma área com valor histórico e de potencial criativo”. É neste contexto que o problema da SECLA deveria ser “integrado e resolvido”.
O terceiro ponto destacado por Jorge Mangorrinha questionou “como é que em projetos simbólicos para a cidade não há uma convergência, ou mesmo consenso, entre diferentes forças políticas. Ter a legitimidade do voto não chega, lembrando que o mesmo problema se passa com o projecto das termas, porque apenas a maioria social-democrata concorda com o mesmo em termos da sua abordagem funcional e expressão física”. Mangorrinha está convicto de que “um presidente da Câmara deve alcançar a convergência de opiniões válidas e fazer condicionar os projectos novos a essas opiniões.”. E adiantou que lamenta que “a política não seja mais nobre e os actos mais transparentes e dignificantes”.
“No caso do projecto termal, quem promove um estacionamento subterrâneo junto ao Hospital Termal e a privatização de espaços consolidados de fruição pública ou no caso do projecto Secla aprova este atentado sem dar ouvidos a quem é sensível a estes temas ou mesmo lá trabalhou dá razões para se pensar que, mesmo que o não sejam, com as suas atitudes políticas esses agentes mais pareçam burros ou corruptos”, manifestou.
A ex-diretora do Museu da Cerâmica, Cristina Horta, realçou a necessidade do alargamento da exposição das colecções de cerâmica das Caldas para um novo museu construído de raiz, podendo este problema da Secla ser integrado e até recebê-lo, nas suas antigas instalações, devendo promover a reunião de artistas e de produção nova, ideia também referida por intervenientes do público, nomeadamente o ex-presidente da Câmara Fernando Costa.
O arquiteto e ex-vereador Rui Gonçalves, durante muitos anos funcionário da Secla, colocou dúvidas quanto à falta de transparência e conhecimento prévio deste projecto, tal como à anormal celeridade na sua aprovação, aspecto corroborado por outro arquiteto e atual vereador da oposição, Jaime Neto, que testemunhou as dificuldades da oposição para sensibilizar a maioria para o “atentado” que se prevê. O vereador apelou aos presentes para se organizarem e, em conjunto, atuarem no sentido de fazer recuar a decisão.
Fernando Costa lembrou que já foi aprovada a demolição das instalações da Secla e que os mesmos autarcas que aprovam agora este projecto [Tinta Ferreira, Hugo Oliveira e Maria da Conceição Pereira] aprovaram em 2003 um outro projecto de investimento, mas para habitação e com a preservação do corpo central da Secla para espaço de memória, lamentando Fernando Costa que, “por razões que se desconhecem, tenham tido agora uma posição contrária”. Os restantes autarcas da maioria que, nesse ano, também aprovaram a salvaguarda da memória, foram Fernando Costa e Jorge Mangorrinha.
No abaixo-assinado que entretanto está a circular é pedido à Câmara que “reveja o projeto de investimento privado para a área do edifício principal da Secla, tendo em vista a salvaguarda da memória física da fábrica, como herança patrimonial da cidade e dos caldenses e recurso cultural e turístico”.
“Importa preservar uma parte do edifício original, para nele se instalar um espaço de memória e aberto à criatividade, numa cidade que se pretende da cerâmica”, lê-se no documento.





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