Ratos e morcegos moviam-se entre as suas próprias obscuridades, por diversas vezes o susto foi irmão do trágico.
A fria gota de suor que pairara durante longos minutos, teimosamente, acabou, por fim, por abrir uma minúscula clareira no solo, umedecendo a antiga tábua, que outrora sonhou em servir a comunidade da Rainha. Foi apenas utopia.
Os ruídos, leves e toscos, iam e vinham, como se o movimento daquela sombra fosse indizível entre o espaço-tempo.
O corpo do investigador, frio, assustado, percorria aquelas torres de pedra com cautela, as pernas não davam mostras de querer obedecer aos desígnios da mente, porém, acabrunhadas, lá iam, em busca do seu sinistro destino: Fotografar aquela criatura que, todas as madrugadas de lua cheia vagava lentamente pelos entrefolhos daquelas ruínas.
Cansado, sentou-se no canto escuro de um salão fronteiriço. Os seus ouvidos captavam pequenos grasnares, das aves, que, em candente rotina, pernoitavam no lago, no mais, era tudo espasmo da verde paisagem.
De repente, um sibilo corta o ambiente e um somatório de jovens vozes entoa com doçura: “D. Rodrigo, D. Rodrigo, D. Rodrigo…”. E, como se fosse ordem vinda do além, eis que entra no vasto salão, com toda a sua fluidez e diafaneidade, um ser de média estatura, cujos pés não tocavam o solo, com alva barba, bigode cerrado e alentada calvície… O dono da sombra grotesca que vagara entre escombros de paredes tristes.
Enquanto os olhos do investigador cintilavam da negrura, aquele ser eflúvio, encaminhava-se para a alta janela. Ao chegar, põe-se a observar o entorno, mirando, com saudade, um parque que fora seu.
Era um ente gentil, pois, só uma criatura cortês – percebendo, com o canto do olho, a presença de um homem estranho, acocorado à sua esquerda – poderia deixar-se estar em piedosa tranquilidade.
O medo e o respeito amparavam o bater do coração do nato investigador. Estava em padecimento psicológico. As suas ocultas mãos não tinham força para manejar a máquina fotográfica, a sua mente, obscurecida pelo pavor, pressentia a possível chegada de uma penumbra isquémica.
Dias depois, acorda numa cama qualquer. Não sabe se o seu encontro, com aquele ser, foi sonho, ou realmente aconteceu, porém, em todas as noites de lua cheia, vai ao parque D. Carlos I. Não entra em nenhum dos edifícios, cuidadoso, fica a observar, de longe. Nunca mais viu ninguém naquelas janelas, mas, em inúmeras ocasiões, ouviu um pequeno coro entoar um nome seu conhecido: “D. Rodrigo, D. Rodrigo, D. Rodrigo…”.
Rui Calisto



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