Celebrou-se meio século desde que um grande movimento académico teve palco em França para lutar por reformas no setor da educação. A 2 de maio estudantes da Universidade de Paris entraram em confronto com a polícia enquanto se manifestavam pelo encerramento da escola e pelo facto de a administração da universidade ter ameaçado expulsar os reacionários. Passados 50 anos desde a maior greve geral da Europa, que contou com a participação dos operários fabris, a concelhia do PS caldense decidiu convidar pessoas com experiências próprias.
Um dos convidados foi o antigo jornalista e correspondente em Portugal do “Le Monde”, José Rebelo, que começou por referir que “não assisti, nem participei no maio de 68”. Contudo, quando chegou a França ainda “lá estavam os fumos do acontecimento”.
Para o antigo jornalista, o “maio de 68 teve dimensões utópicas, ninguém pode negar mas não implica reduzi-lo a uma mera utopia”. Nesse sentido, considerou que o acontecimento foi sobretudo uma ”rejeição/denúncia”, às rotinas e hierarquias no plano da sociedade em geral.
Igualmente contestava-se o estado e as suas instituições, a igreja, a educação com os seus moldes clássicos mas “sem nenhuma alternativa visível nas expressões e nos slogans que se gritam nas manifestações”. Ao mesmo tempo proclamava-se a “libertação de si mesmo, sem se explicar um modo de atingir o tal desígnio”.
Em termos sociológicos, o “movimento surge quando ninguém espera e ganha uma dinâmica absolutamente alucinante”. José Rebelo também considerou que o movimento foi um “clamor coletivo mas com um toque de classe”, ou seja, foram os filhos dos diferentes extratos de uma burguesia, em fase de expansão económica, que exigiram “uma outra forma de viver”. Além disso foi um “revelador da fragilidade do poder político”.
Para o jornalista, “muitos dos valores exaltados em maio de 68, como o conceito de flexibilidade, autossustentável e criatividade foram recuperados mais tarde pelo sistema”. Aliás, exemplo disso foi o movimento “Que se lixe a troika”, que também “foi buscar a sua inspiração a maio de 68”.
Considerou ainda que “o maio de 68 foi um virar de página e um epílogo da modernidade, que marcou o advento do pós-modernismo e da modernidade avançada”.
“O maio de 68 não aconteceu por acaso”
Outro dos oradores foi o artista plástico José Aurélio, que esteve em França entre os finais de 1967 e princípios de 1968. Para o artista, “o maio de 68 não aconteceu por acaso, havendo sempre razões que levaram a que acontecessem as coisas”.
Na sua opinião, o movimento foi um “momento especial para humanidade, em que houve uma série de descobertas, que transformaram uma educação clássica na ambição de uma nova realidade aos jovens”.
Já a deputada na Assembleia da República e vice-presidente da Comissão de Assuntos Europeus, Margarida Marques, considerou que o acontecimento, independentemente da racionalidade, teve um “impacto enorme na sociedade”. Esse impacto, segundo a deputada, “não se limitou às eleições políticas que ocorreram a seguir, mas sim ao nível dos comportamentos e valores sociais”.
Para Margarida Nunes, “o maio de 68 foi uma forma de contestação da sociedade francesa às instituições e aos partidos políticos tradicionais, e hoje em dia também assistimos a uma contestação às instituições por parte dos cidadãos que não se sentem representados nelas, bem como aos partidos políticos tradicionais”.
A editora e dirigente da Alêtheia Editores, Zita Seabra afirmou que o movimento promoveu “profundas alterações, não tanto ao nível das políticas partidárias, mas sim ao nível do quotidiano”.
“O maio de 68 mudou todo o sentido da vida e daquilo que era a França e Europa continental dessa época”, referiu Zita Seabra, adiantando que “pela primeira vez foi permitido separar a questão da sexualidade de a procriação”.
Para a editora, o acontecimento foi uma “inspiração para tudo o que aconteceu a seguir, não só em Portugal, como um pouco por todo lado”, mas com a particular incidência nos jovens estudantes e mulheres.
Além de provocar profundas alterações no quotidiano, também teve “repercussões junto do Partido Comunista”, que deixou de ser um partido virado para a União Soviética.
Este movimento estudantil também teve reflexo em Portugal, provocando alterações no pensamento dos estudantes na Universidade de Coimbra, em 1969.




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