Esta obra, que foi apresentada no passado sábado durante o jantar de comemoração dos 25 anos da Associação AVC, em Barcelos, e que conta com ilustrações de Vera Ximenes, revela um “segredo que tinha guardado há 14 anos e que só os mais próximos sabiam do que me tinha acontecido. Agora a maioria das pessoas já sabe”.
Aos 19, Inês Moreira dos Santos, era estudante de psicologia quando inesperadamente sofreu um AVC, cujas causas “nunca chegaram a ser conhecidas”. O AVC deixou a jovem em em estado de choque, pois “percebi aos 19 anos que ninguém é imortal”.
De acordo com a autora, “tive o AVC em casa e depois fui para a unidade hospitalar de Santarém, onde deixaram-me 14 horas à espera de um neurologista”, acabando por ser encaminhada para um hospital em Lisboa. “Estou cá por sorte”, considerou a autora, tendo ficado com o lado direito paralisado e deixado de falar. A recuperação demorou cerca de dois anos.
Passados 14 anos, Inês Moreira dos Santos é licenciada em psicologia clínica e exerce funções de técnica superior na Fundação Inatel, fazendo “tudo o que era esperado para uma pessoa normal”. “Mostrei a todos, incluindo a mim, que o AVC quase mortal não me impossibilitava de nada. Nunca impossibilitou”, apontou. Contudo, o “percurso até aqui foi duro”, pois “tive muitos medos e dúvidas daquilo que era capaz de fazer”.
Atualmente grávida do terceiro filho, a psicóloga sublinhou que “ser mãe era um desejo muito forte”, pois considera “ser mãe a tarefa da minha vida”. No entanto, devido ao AVC alguns médicos aconselharam-na a não arriscar, mas Inês resolveu “continuar”.
Não teve problemas em engravidar, apesar de todas as gestações serem consideradas de risco. Além disso, explicou que ao longo das gestações teve de ministrar a si própria injeções diárias de heparina, para evitar a formação de coágulos no sangue.
Após ter sido mãe pela primeira vez, a autora teve necessidade de mais tarde poder explicar à Leonor, o que lhe “tinha acontecido”. Nesse sentido, teve a ideia de escrever o livro “Leonor e a Girafa Quieta”, durante a maternidade. “Elas ainda não perguntam nada, mas é uma antecipação do que elas poderão vir a perguntar acerca do AVC”, frisou a autora, adiantando que “ eu própria aos 33 anos ainda não percebo bem o que é um AVC”.
Em 48 páginas, Inês procurou explicar a doença através da história de uma girafa. “Era um dia de festa para a Leonor, que visitava com os pais o Jardim Zoológico. Percorria fascinada os recintos dos animais quando uma girafa lhe chamou a atenção por estar muito quieta. Dado o alerta e chamados os veterinários, a Leonor ficou primeiro a saber o que era um acidente vascular cerebral para depois aprender a real importância da amizade e da ajuda solidária”, descreveu a autora. Ou seja, “a história tem um final feliz como a minha”.
A ideia inicial “não era publicar” mas depois de falar com um responsável da Associação AVC surgiu a oportunidade de editar mais um instrumento pedagógico, que procura sensibilizar e prevenir as pessoas sobre o problema, começando pelos mais novos. Como psicóloga, dá muito valor à educação e acha que não se consegue mudar mentalidades, sem começar a educar que existem hábitos que é preciso alterar.
Inês sublinhou que “só quero que as pessoas que não passaram pelo mesmo percebam que pode acontecer a qualquer um, em qualquer altura. Todos querem viver, mas ninguém quer os hábitos saudáveis”. Aliás, frisou que “o AVC é principal causa da morte em Portugal mas as pessoas não querem saber”.
Nesse sentido, a autora apelou à mudança de hábitos e de estilos de vida, de forma a prevenir o AVC. Ao mesmo tempo, procura fazer a diferença no que diz respeito ao “derrube do estigma” que existe em redor da doença. Recordou que ao início as “pessoas olhavam para mim como se fosse uma aleijadinha, porque ainda há muito o estigma e quando eu digo a alguém que eu tive um AVC, mudam logo de atitude. O AVC é supostamente uma doença da terceira idade”.
Agora Inês frisou que está bem devido à “força de vontade e apoio da família e do hospital”.
A edição da editora Afrontamento custa nove euros.





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