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O Carnaval das Caldas da Rainha

Rui Calisto

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Lembro-me, com alguma saudade, dos carnavais organizados pela Corsolar (1968-2006), sob a batuta de Alberto Saramago, José Domingos e Manuel Serafim. Participei em alguns. Era uma festa cercada de alegria, boa disposição, bom humor e muita graça. Havia um cuidado extremo com as fantasias e os adereços.

Possuíamos um inacreditável espírito de entreajuda, que permitia que tudo fosse deslumbrante, jubilando os nossos corações e os daqueles que saíam de suas casas para assistir à folia.

Com o passar dos anos o carnaval das Caldas da Rainha transmutou-se em modesta sombra do passado, afugentando centenas de foliões. E, vários fatores são os responsáveis pela fraca qualidade apresentada ano após ano. Quem ganhou com isso foi a cidade de Torres Vedras.

O que se conhece como “Carnaval moderno” é fruto da sociedade vitoriana do século XX. Foi o burgo de Paris que remeteu essa festividade para diversas metrópoles, entre elas, claro, o Rio de Janeiro, considerada hoje a Capital mundial dessa manifestação popular. Foi esta cidade brasileira que criou e difundiu o carnaval com desfiles de grupos organizados para esse propósito, as famosas Escolas de Samba.

A base desse festival de alegria e boa disposição é a fusão de componentes circenses, com máscaras e uma enorme reinação em recinto público.

A crítica social e política sempre esteve agregada à folia carnavalesca, o que, tratando-se de uma atitude isenta, imparcial e inteligente, é, já se sabe, um fator muito positivo a considerar. Porém, nesta festa caldense, essa suposta crítica não passou de uma manifestação clara da existência de compadrio político entre a maioria das associações envolvidas e o poder instalado na autarquia, o que é péssimo para a imagem de um evento que se quer de todos e para todos.

Popularmente a palavra “Carnaval” advém da enunciação do latim tardio “carne vale”, cuja interpretação é despretensiosa, pois refere-se à quadra de abstinência alimentar que se avizinhava. Em matéria de antropologia, o Carnaval é um cerimonial de atavismo social, porém, com orgânicas de boa conduta. E é assim que deve ser e é assim que deve continuar, pelo bem da folia, da boa disposição e da alegria das centenas de pessoas que “por quatro dias, querem esquecer os problemas da vida”.

Como nota de grande destaque: No carnaval das Caldas da Rainha, fiquei profundamente agradado com o carro alegórico de “As Ceifeiras da Fanadia”, bem como com as “formigas” que o acompanhavam. Ficou claro que estavam ali “por amor à camisola”, sem cumprir obrigações políticas.

Quanto ao público: Portou-se lindamente. Vi muito respeito, muita alegria e também muita deceção, pois esperavam menos politização da festa.

Aproveitando a deixa, creio que ficará muito bem, para os próximos carnavais caldenses, uma completa neutralidade política. Ou, então, que seja ampla e irrestrita a crítica, abrangendo, também, o partido reinante no concelho, para o bem do pluralismo democrático.

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