Viviana Dionísio, de 29 anos, prestava serviço como operadora de comunicações do Centro Distrital de Operações de Socorro de Leiria, na madrugada de 11 de agosto de 2006. Lavrava um incêndio na Serra de Aire e Candeeiros, em Santa Teresa, no concelho de Porto de Mós. A dada altura foi descansar algumas horas, porque já estava há quase dois dias sem dormir, e deitou-se no banco da frente do Veículo de Comando e Comunicações (VCOC) em que estava a trabalhar. Um colega encontrou-a inanimada.
“Às quatro da manhã fizemos a rendição de funções e ela foi descansar para os bancos da frente do veículo. Por volta das sete horas, fui chamá-la para colocar gasolina no gerador e encontrei-a caída no chão da viatura. Detetei que já estava em paragem cardiorrespiratória, tirei-a para fora e pedi ajuda, ao mesmo tempo que iniciei as manobras de reanimação até ser levada para o hospital de Leiria”, recordou Ricardo Soares, o outro operador de comunicações que estava no terreno e que também tinha descansado momentos antes, mas com o vidro do carro ligeiramente aberto, o que permitiu o arejamento e pode ter levado a que não fosse vítima do gás tóxico que entrou na cabina.
Segundo o tribunal, a situação deveu-se ao indevido funcionamento de um gerador, que contaminou de fumo o interior da viatura, que tinha sido dividida em três compartimentos: A traseira servia para o planeamento, a parte do meio para o comando (onde estava o na altura segundo comandante distrital de operações de socorro, Carlos Guerra, e a frente, a cabina de condução. Foi colocado um gerador de corrente elétrica que tinha uma saída orientada para a frente da carrinha. A bombeira inalou o monóxido de carbono e isso foi fatal.
O incêndio em que a bombeira se encontrava lavrava desde o dia anterior e mobilizou 347 operacionais e 89 veículos, tendo destruído uma vasta área da Serra de Aire e Candeeiros. Muitos animais como porcos, leitões, patos e perus morreram carbonizados. Aldeias estiveram cercadas e casas ameaçadas. Um bombeiro sofreu queimaduras num braço e outro uma alergia devido às altas temperaturas
O valor de indemnização pedido pela família da bombeira foi de 500 mil euros, mas o Tribunal Administrativo de Leiria fixou em 200 mil pela morte e pelo desgosto causado aos pais da jovem.
Mas o Ministério Público não só não concorda com o valor da indemnização como até com o grau de culpabilidade do Estado, sustentando que a viatura de comunicações apresentava um defeito da responsabilidade de terceiros, nomeadamente das empresas a quem o então Serviço Nacional de Bombeiros e Proteção Civil (SNBPC) contratou a instalação do gerador.
A responsabilidade da instalação do gerador no VCOC está na base da divergência. O tribunal aponta ser do antigo SNBPC. O ministério público indica ser da empresa Electrosis, a quem foi contratada a instalação, e da Fapoagri, a quem foi subcontratado o serviço.
Viviana era bombeira desde os quinze anos sem que houvesse tradição na família. Passou para os voluntários das Caldas da Rainha e daí para o Centro Distrital de Operações de Socorro de Leiria. Bastante aplicada nas suas funções, não se negava ao trabalho, recordam antigos colegas que ainda choram a sua morte.
No cemitério da Roliça, no Bombarral, onde Viviana Dionísio está sepultada, a campa é diariamente visitada pela mãe.
Há onze anos, quando se realizaram as cerimónias fúnebres, o na altura pároco do Bombarral, José Traquina, deixou uma mensagem de alento aos bombeiros: “O lema vida por vida é de grande elevação. Os bombeiros socorrem os problemas dos outros seres humanos, colocam-se em risco por uma causa humanitária. Mantenham-se unidos”.



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