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Quis um determinado livro para levar para férias e fui à livraria do centro comercial mais próximo. Uma livraria de franchise com duas grandes montras enfeitadas com vistosas capas com os autores e os títulos em relevo.

Ao meio das duas montras, a porta. Apesar de a manhã já ir a mais de meio, a porta estava obstruída pela grade metálica de segurança. Dentro da livraria, os dois funcionários habituais e um indivíduo em fato-macaco aparentavam estar a resolver o problema da grade.

Estas livrarias são como as secções de peças dos concessionários de automóveis: nunca têm o que é preciso, pelo que temos sempre que encomendar. Este modo de fazer negócio acabará por extinguir a maioria das lojas físicas, pois, encomendar por encomendar, é mais cómodo fazê-lo em casa através da internet. No entanto, como sou do tempo de antes da internet, continuo a ter a esperança de adquirir o que preciso diretamente na loja.

Esperei os minutos suficientes até concluir que os esforços do presumível técnico não dariam resultado tão depressa e, através da grade, consegui chamar a atenção de um dos funcionários e perguntei-lhe se havia ali o tal livro.

— Como vê, temos aqui um problema. Só posso atendê-lo quando a livraria abrir — a resposta pronta do funcionário.

— Claro — disse-lhe eu em modo paciente —, mas o que lhe estou a pedir é que me informe se tem o livro para eu decidir se vale a pena ficar aqui à espera que o problema da grade se resolva.

— Ah… sim… bom, então vou ver — o funcionário afastando-se com ar contrariado.

Depois de outro tanto à espera, o funcionário, mantendo-se agora a uma distância prudente da grade, informou-me que sim, em princípio havia o livro, mas, de certeza, só mesmo quando a livraria abrisse. É claro que me ocorreu dizer-lhe que aquela resposta era completamente estúpida, pois só podia haver duas hipóteses, ou tinha ou não tinha. Havia o livro em princípio? Mas como me respondeu à distância e com ar de estar em trânsito, apenas lhe virei as costas e fui à procura de outra livraria.

Lembrei-me de uma antiga livraria de rua que ficava ali perto. A porta aberta dava para um pequeno espaço pejado de um sortido indescritível de livros empilhados, quase submergindo o pequeno balcão presidido por uma solitária senhora idosa.

— Acho que tenho esse livro. Prefere a edição de bolso? — responde a dona da pequena livraria, despertando da modorra e começando a esquadrinhar as caóticas pilhas de livros mais próximas.

Não foi preciso esperar muito até me certificar de que a senhora não fazia ideia que livros ali tinha. Seria idiota ficar à espera que ela encontrasse por puro acaso, no meio daquela imensa desorganização, a obra que eu queria.

— Deixe estar, minha senhora, obrigado.

— Pois, olhe, desculpe. há de estar por aqui… mas não o vejo.

Muito se fala no país bipolar que nós somos, da oscilação fácil e contraproducente entre extremos de euforia motivada por qualquer frivolidade e a mais profunda melancolia pessimista perante a recorrente austeridade e consequente privação. Mas o pior é a ineficácia, que é permanente, ubíqua, e está sempre em alta, que resulta da indiferença lerda de uns, e do amadorismo pasmado de outros.

Francisco Martins da Silva

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