Mas para se chegar à realização desse sonho é necessário cumprir um intenso estudo durante cinco anos que abarca matérias básicas como física, matemática, probabilidades e estatística, estática, resistência de materiais, geotecnia e fundações; ciências aplicadas como análise do comportamento estrutural, concepção e dimensionamento de estruturas e materiais de construção; e técnicas como construção tradicional, física das construções, tecnologia da construção, edificações, redes e instalações, gestão da construção e conservação e restauro. Depois, há a parte verdadeiramente interessante do curso, no âmbito das ciências sociais e humanas, em que se estuda história das ideias e das técnicas, história da arte, história da arquitectura, direito e economia. Na componente de ambiente e urbanismo, o estudante tem de vencer cadeiras de geografia física, geografia humana, planeamento regional e urbano, infra-estruturas urbanas, paisagismo, ambiente e impactes, e ambiente urbano e do espaço construído. Tudo isto conflui para as cadeiras de projecto, que são anuais, ao longo de todo o curso. E para que o projecto tenha uma linguagem que possa exprimir o jogo sábio, correcto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz, o sonho enfim, através das convenções do desenho técnico, que os clientes, os engenheiros e os empreiteiros possam entender sem margem para dúvidas, o estudante de arquitectura tem de saber muito de desenho, geometria descritiva, levantamento de construções, comunicação visual, topografia, informática, desenho assistido por computador, e de sistemas de informação geográfica.
Depois desta longa e diversa formação, ao cabo de cinco anos, na melhor das hipóteses, o sonho do jovem arquitecto está pronto para enfrentar a realidade.
Acontece que a realidade da profissão de arquitecto, em Portugal, é o pesadelo do desemprego. A realidade é que, afinal, para alguns, que serão sempre demasiados, nem é necessário nenhum curso de arquitectura para ter acesso ao exíguo mercado dos projectos de arquitectura em Portugal. “Agora era arquitecto” é uma forma verbal onírica que pode voltar a ser conjugada, sem nenhum esforço de formação, pelos engenheiros civis. A realidade é que, para alguns, demasiados, basta ser engenheiro civil e ter políticos amigos em alguns partidos. Esses políticos amigos conseguem a anuência ou a abstenção pusilânime do Parlamento e fazem aprovar uma lei que retira a última oportunidade ao jovem arquitecto e a dá ao velho engenheiro civil.
Como é possível — perguntam alguns, apenas alguns, perante a vergonhosa aprovação, no passado 19 de Julho, do Projecto de Lei n.º 495/XIII/2ª — mais esta inacreditável manifestação de baixo nível cultural, desonestidade e falta de responsabilidade da nossa classe política? E para que serve, afinal, o curso de arquitectura? Acresce que a simples existência de uma ordem profissional impõe que só os profissionais inscritos nessa ordem possam exercer os actos próprios da profissão. Para que serve então a Ordem dos Arquitectos? Como é tudo isto possível num Estado de direito?
Em 1973 foi aprovado o infame decreto 73/73 que legalizou, pela primeira vez, a assinatura de projectos de arquitectura por engenheiros civis e outros, com a justificação de haver poucos arquitectos. Em vez de se promover a formação de arquitectos em número suficiente, optou-se, já então, por ceder ao lóbi dos engenheiros. Tal decreto só foi revogado em 2009, ao cabo de 36 anos de aberrações construtivas de Norte a Sul do país. Agora que há milhares de jovens arquitectos sem trabalho, que justificação pode haver para se devolver aos engenheiros civis o direito de fazerem projectos de arquitectura? A sua experiência do passado? A experiência obtida com uma má prática, por continuada que tenha sido, deve ser validada? Dever-se-á também certificar os velhos barbeiros-dentistas? E as parteiras? E os curandeiros em geral?



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