Rejeita os lábios que não beijam mais e dos quais escorre apenas amargura, fel e impropérios. Sim. Tranca a porta, os ouvidos, a sensatez e vira as costas sem remorsos para tudo o que te causa mal e tristezas. Pinta os teus dias com aquarelas leves e doces, mescladas a tons pastel.
As horas não devem ser transformadas inexoravelmente em cinzas, quem te disse isso? Embora saibamos que se trata de horas mortas, inertes em relógios de parede enferrujados pelo cansaço, relógios, cujos ponteiros foram derretidos pelos vastos incêndios que tomaram posse da tua alma atônita.
Sai, sai daqui! Despede-te rapidamente das águas turvas, habitadas apenas por sinuosas enguias. Não vais à procura de peixes dourados, nem vermelhos, pois não? Então o lodo não te serve, felizmente boa! Tão pouco a escuridão de um dia sem sóis nem estrelas. As árvores morreram alguns troncos ainda repousam no jardim abandonado que costumavas frequentar, mas, as raízes secas gemem por água… mas o jardineiro, já não está. Há esconderijos disponíveis para cultivar a paz, um sentimento que parece ter escorrido pelas vielas de tempos inexistentes. Olha, e isto surpreende-te? Pois há linhas de seda para tricotar novas promessas de amores leves, já nascidos com asas. E tu sabes disso…
Amores azuis que flertam com a presença suprema da liberdade.
Se por acaso entrares num bar escuro e sujo e perceberes que os frequentadores flertam somente com o álcool mantendo o rosto duro, impassível e macilento, olhos de pedra fosca cravados no fundo do copo, no qual as mágoas flutuam sobre escassas pedras de gelo, não te aproximes. Abandona o recinto. Pois aí não há amor, somente amarguras e nostalgias graves e empoeiradas…foge também de quem tiver o aperto de mão indiferente, mole e áspero, os sorrisos ausentes no rosto exausto de mentiras, o nariz empinado de arrogâncias vãs! Despreza indivíduos sem ouvidos, concentrados em lamber unicamente a própria fala. Alheia-te também de quem perdeu os braços e já não pode abraçar…
Do, que não regam as plantas, assim como não regam o amor… pais que esquecem crianças trancadas no carro, enquanto se deleitam em levianas compras nos shoppings. Não entres jamais em casas onde não se escuta música, aonde o fogão chore de desusos, e sem o cheiro vivo do comer fumegando delícias.
Não te acomodes nunca em mesas sem toalhas, copos, nem talheres, antes destinados a servir convidados sempre ausentes. Ninguém aparecerá para o almoço inexistente. Pois faltam os sentimentos…amor e acolhimento. Não te esqueças de fechar de seguida as cortinas do coração para os que desprezam a luz, as crianças e os animais. Os que chutam animais órfãos, perdidos nas ruas. Refuta com veemência as desculpas mornas e mecânicas exigidas pelo marido ou namorado, cujas ardorosas amantes tu intuis, certamente.
O bom sexo demanda uivos gloriosos, saudáveis e selvagens desatinos. Assim, aguarda paciente pela entrega plena e desarmada. Ela virá sem avisos prévios e te surpreenderá com danças e valsas. Recusa de imediato o namoro insípido, porque não há sal que dê jeito em afetos falidos, ou separações presentes. Outro alerta: desanda a correr da inveja, do escárnio, do ódio fantasiado de gentilezas feitas em ofertas. A maldade ronda a vizinhança, se intromete em eclipses, passeia com os pés descalços em imensos desertos brancos. Mas tu não irás lá pois não? Tenho a certeza, pois falta amor, ternura carinho e outros sentimentos em que tu acreditas —o teu coração já anunciou isso. Além disso, felizmente também contas com os afáveis sussurros da natureza, que entremeiam as tuas histórias e caminhos, sempre rodeados de ideais e de esperanças. Tu irradias amor por todos lados, e isso não interessa a muita gente…e já sabes, onde não puderes amar não te demores.
Cuida-te.



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