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O Plano Nacional de Leitura

Francisco Martins da Silva

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A decisão de há alguns anos se passar a vender livros nos hipermercados e estações de correio baseou-se em estudos de mercado que revelaram que mais de 90% dos portugueses nunca entra numa livraria durante toda a vida.

Concluiu-se, portanto, que seria uma boa ideia tirar alguns livros das livrarias e colocá-los onde esses portugueses pudessem tropeçar neles. Mas já se viu que os tais portugueses que não reconhecem as livrarias também não reconhecem os livros nos hipermercados e estações de correio. Apenas os detectam no seu ângulo de visão periférica, como aos pilares ou à fruta esborrachada no chão, e evitam-nos preventivamente. Nas estações de correio ainda se vê alguns desses portugueses quebrar o tédio das longas esperas pegando desconfiadamente num livro, folheá-lo às avessas, para o largar logo de seguida, e limpar as mãos aos fundilhos.

Os livros nos escaparates dos hipermercados e estações de correio só dão jeito à minoria que frequenta as livrarias e que acaba por matar dois coelhos duma cajadada quando tem de ir comprar cebolas ou levantar uma encomenda, deixando também dessa vez de ir à livraria.

No meio disto, há em Portugal onze especialistas que se reúnem periodicamente para avaliar propostas de editoras para as listas do Plano Nacional de Leitura — PNL, em escolês. Estes especialistas distribuem os livros seleccionados por 53 listas que os agrupam por ano de escolaridade, desde o pré-escolar até à formação de adultos, num total que em 2016 já somava 5.434 livros.

Seria fascinante perceber o fino critério que leva estes especialistas a distinguir, por exemplo, os 109 livros por eles destinados à leitura orientada na sala de aula dos 245 livros que eles indicam para leitura autónoma só para o 3º ano, ou perceber porque é que estes são diferentes dos 214 que são destinados ao 4º ano, e estes últimos dos 254 propostos para o 5º ano e assim sucessivamente. 5.434 livros. Não é propriamente a biblioteca de Alexandria, mas se considerarmos que só para os alunos do 3º ciclo — onde militam os tais anjinhos de treze ou catorze anos — estão propostos 921 livros, os conselhos de turma deparam-se com listas absolutamente ingeríveis.

Mas eis que há um encarregado de educação — EE, em escolês — que topa com um livro na mochila do seu “educando” de treze ou catorze anos, por acaso O Nosso Reino de Valter Hugo Mãe. Escaldado com a experiência do escaparate dos Correios, dispõe-se a investigar. Ao folhear mais uma vez um livro, e logo um dos tais 5.434 propostos pelo PNL, dá com os olhos, por um inacreditável acaso, no meio de uma das 208 páginas, nos únicos vocábulos que ele conhece bem e que o proibiram na sua já remota infância de dizer à mesa. Eu bem sabia!, terá exultado o EE com a inegável confirmação das suas profundas razões para ter sempre desconfiado dos livros. Eu bem sabia! Vai daí, o EE juntou-se a outros EEs como ele e foram fazer um chinfrim para a porta da TVI. E o resto é o que se sabe, os onze sábios do PNL enroscaram-se, dispondo-se a concordar que os jovens de treze ou catorze anos não sabem nada de nada de sexo e que o termo mais rude que usam nas suas discussões é apre, e admitindo logo que se tinham enganado e que o maldito livro seria chutado para qualquer outra das 53 listas que estivesse fora do alcance de jovens tão inocentes.

Perdeu-se com isto uma oportunidade de, num dos doze tempos anuais que todas as turmas do ensino básico e secundário têm de leccionar no âmbito do Projecto de Educação para a Saúde — PES, em escolês —, e que são essencialmente sobre sexualidade, se usar essas frases para, por exemplo, passar do plano da mera mecânica genital para o plano dos afectos e dos valores. E seguir adiante.

E agora? Perante este retumbante sucesso censório, irão estes EEs passar a pente fino os outros 5.433 livros do PNL, criar um index librorum prohibitorum, formar com eles uma gigantesca pirâmide e queimá-los junto a um pelourinho?

Vem isto tudo a propósito da falta que sempre faz a inteligência.

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