No dia 7 decorreu uma mesa redonda sobre o tema “Combate ao desperdício alimentar”, na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste (EHTO).
No dia 14 decorreu um convívio aberto a toda a comunidade no Parque D. Carlos I. A celebração contou com várias atividades, terminando à tarde com o cantar dos parabéns.
Todos os anos, os portugueses deitam para o lixo um milhão de toneladas de alimentos, ou seja, cada um desperdiça em média 97 quilos de comida por ano. 10,9% da população portuguesa vive em condições de privação material (dados de 2013) e 27,5% da população em risco de pobreza (dados de 2014).
Dados revelados por Sofia Cardoso, vice-coordenadora do núcleo caldense do Refood, que foi a moderadora da mesa redonda sobre o tema “Combate ao desperdício alimentar”, que decorreu na EHTO. “É uma realidade cada vez mais significativa, com valores tão elevados que surpreendem e chocam qualquer pessoa”, disse a responsável, acrescentando que decidiram levar a cabo esta iniciativa uma vez que a Assembleia da República decretou 2016 como o “Ano do Combate ao Desperdício Alimentar”.
Para Sofia Cardoso, travar o desperdício alimentar é uma questão que tem impacto ambiental, económico e social. Daí que pretendam sensibilizar as pessoas desde as idades mais novas para uma mudança de atitudes, comportamentos e conhecimento, numa perspetiva de uso sustentável dos alimentos. “Queremos partilhar com os cidadãos o que está a ser feito e o que ainda há para fazer e as consequências que o desperdício alimentar traz para o nosso planeta”.
Como “uma grande fatia do desperdício alimentar está nas famílias”, Sofia Cardoso deixou algumas sugestões para o combate ao esbanjamento da comida: “Planeie as refeições e faça uma lista de compras apenas com os produtos de que vai precisar. Arrume sempre os alimentos com prazo de validade mais curto à frente dos que duram mais tempo. Guarde as sobras para outras refeições, porque podem sempre dar origem a novas receitas, servir para levar na marmita no dia seguinte ou ir para o congelador”. Aconselhou ainda a anotar o desperdício produzido durante uma semana “para perceber como evitá-lo”.
Em Portugal já há programas que têm por objetivo limitar as quantidades de comida no lixo.
Um deles é o projeto Refood (movimento para travar o desperdício alimentar) que foi criado pelo norte-americano Hunter Halder em 2011. Após cinco anos, existem de norte a sul do país mais de 30 núcleos, onde cerca de quatro mil voluntários resgatam 46 mil refeições por mês, a partir de cerca de mi parceiros.
O núcleo das Caldas do Refood tem contribuído para travar o desperdício alimentar e matar a fome aos mais carenciados nas Caldas da Rainha.
Hunter Halder esteve presente da mesa redonda, onde apresentou o projeto e deu mais explicações sobre o mesmo, que tem crescido de forma exponencial.
O presidente da Câmara das Caldas, Tinta Ferreira, juntou-se à luta contra o desperdício alimentar do Refood das Caldas e abriu a sessão, destacando a ideia que “tem um duplo mérito de criar condições para poder alimentar e ajudar algumas famílias e a vertente de recolher comida dos restaurantes e pastelarias que ia para o lixo”. Sublinhou que apesar de não ser um concelho identificado como problemático ao nível das dificuldades sociais, “temos alguns problemas”, assegurando que o “setor social” continuará na agenda do executivo da autarquia.
Artur Oliveira, diretor doAgrupamentodeEscolas Josefa deÓbidos, que foi um dos intervenientes nesta iniciativa, revelou que o agrupamento já implementou uma medida de combate ao desperdício alimentar que é a redução da quantidade de comida que é servida na cantina aos alunos. “Todos os alunos levam uma menor quantidade para que não fiquem sobras no prato que vai para o lixo”, explicou o responsável, sublinhando que os alunos que pretenderem podem sempre “repetir uma ou duas vezes”. Os alimentos que sobram dos almoços do agrupamento são depois entregues ao Centro de Intervenção Social de Óbidos que os distribui pelas pessoas mais carenciadas que têm identificadas e que apoiam.
Referiu ainda que têm havido várias ações de sensibilização para evitar que a comida vá para o lixo, convidando o Refood das Caldas a ir às escolas de Óbidos falar do seu projeto.
Daniel Pinto, diretor da EHTO, recordou que a escola de hotelaria é parceiro do núcleo do Refood das Caldas. Frisou que na cantina da escola todos os alunos “têm que se inscrever para os almoços para evitar o excesso de produção alimentar que origina o desperdício”.
Sublinhou ainda o novo conceito de cozinha contemporânea, com menos quantidade, que “acaba por adotar uma boa prática de quantidade alimentar no prato, porque muitas vezes comemos mais do que precisamos”.
Odesperdíciodeáguacom graves consequências para a humanidade,foi outra questão abordada na mesa redonda, onde Sofia Cardoso mostrou uma tabela com a água potável que é necessária para produzir itens que utilizamos diariamente. Por exemplo, para produzir um quilo de manteiga são necessários18mil litros de água e para um quilo de carne de vaca são preciso 17100 litros de água.
Sara Duarte, da EPAL – Empresa Portuguesa das Águas Livres, trabalha na área da sensibilização e educação ambiental. “Todos nós precisamos de água para viver”, sublinhou, acrescentando que odesperdício de águatem sido um fator gerador e determinante de alguns problemas ambientais. E por isso, a preservação bem como o uso racional da água é um assunto que tem vindo a trabalhar “visto os impactos ambientais que o planeta tem vindo a sofrer”. O objetivo do Plano de Educação Ambiental da EPAL é sensibilizar os diversos públicos com o objetivo de reduzir consumos. “Temos já equipamentos redutores do consumo da água e equipamentos elétricos que permitem a realpoupança de água,mas o simples gesto de fechar a torneira é fundamental”, afirmou Sara Duarte.
Como responsável pela ação social da Câmara das Caldas, a vereadora Maria da Conceição enalteceu todo o trabalho voluntário não só no concelho mas a nível nacional, alegando que Portugal ainda tem muito para fazer na mobilização do voluntariado.
Considerou que o desperdício alimentar está muito ligado aos países desenvolvidos, recordando que “antes do 25 de abril nas aldeias não se colocava comida no lixo, nem havia crianças obesas ou supermercados com a diversidade e tentação de produtos”.
Defendeu a criação de propostas para criação do plano estratégico para melhorar o aproveitamento de comida no país. Alegou que tem que haver um cruzamento de informação sobre os alimentos distribuídos às famílias carenciadas para que “haja uma utilização correta sem desperdício”, referindo que representantes da autarquia já foram buscar ao caixote de lixo cabazes alimentares que foram entregues a famílias necessitadas.
A vereadora frisou que nível das Caldas têm acordos nas cantinas sociais para 342 refeições diárias e neste momento estão a ser servidas 320, havendo 22 vagas, revelando que tanto a nível nacional como no concelho, o Governo vai substituir as cantinas sociais por um “modelo de apoio alimentar” já em 2017.
Paulo Monteiro, da Direção Regional de Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo, fez uma breve análise do que se espera na evolução da agricultura mundial para responder às necessidades dos nove bilhões de habitantes do planeta em 2050. Se o clima está a mudar e se o crescimento populacional se mantiver nos próximos 50 anos, a agricultura, tal como a conhecemos, deixará de existir. “São números que chocam, mas é a realidade em que nos vamos debater porque há produtos que hoje são banais e no futuro serão um bem de luxo como um bife de vaca”, disse Paulo Monteiro. “Os bovinos, sendo um alimento extremamente exigente em água, vai haver uma restrição em termos de bem essencial para produção”, apontou. Segundo Paulo Monteiro, o consumo de carne de aves crescerá 48%, suínos 31%, bovinos 17% e ovinos e caprinos terão um aumento de 3,6%.
De acordo com este responsável, os agricultores vão é ter de se adaptar e duplicar as suas produções, mas usando apenas dois terços da água que agora utilizam nas culturas, plantando em solos mais degradados e em menores áreas, sabendo que passarão a sofrer mais com as alterações climáticas e a destruição sistemática de culturas.
As intervenções de todos os convidados foram unânimes em apontar o desperdício alimentar como um grave problema que tem de ser resolvido, ainda mais quando ainda existem muitas pessoas no mundo com fome ou dificuldade em aceder aos alimentos.
Como evitar o desperdício alimentar
No âmbito do aniversário do núcleo caldense do Refood, decorreu no dia 14 decorreu um convívio aberto a toda a comunidade no Parque D. Carlos I.
A celebração iniciou com um passeio com o Ginásio Balance. Decorreu uma sessão de como apenas duas horas de trabalho voluntário por semana chegaram para “distribuir cerca de vinte mil refeições em 2016 e evitar que doze toneladas de alimentos confecionados fossem para o lixo”.
Para o almoço que decorreu no Céu de Vidro contaram com o apoio dos restaurantes Lisboa e Paraíso e dacentral fruteira Frutalvor.
Durante a tarde, JoanaMendes, engenheira alimentare docente da EHTO, deu algumas dicas de como evitar o desperdício alimentar. Antes de ir às compras fazer uma lista é fundamental “para reduzir ao essencial”.
Segundo a docente, o próprio armazenamento em casa é importante fazer uma boa gestão porque “muitas vezes deixamos embalagens no fundo do armário até estragar”.
“Há várias estratégias para o aproveitamento a nível de utilização dos vegetais como fazer caldos e congelar”, explicou Joana Mendes, aconselhando a aproveitar o tomate muito maduro para fazer molhos de tomate e depois colocar no congelador para utilizar quando necessitar.
Recomendou ainda congelar a fruta muito madura para fazer para fazer papas para crianças ou gelados naturais e nutritivos. Explicou também que “a casca da laranja desidrata no forno e depois moída cria um pó muito rico em vitamina C, que se pode “juntar a iogurtes e batidos”. Para Joana Mendes, “há inúmeras formas de combater o desperdício alimentar”, defendendo “mais sensibilização nas escolas”.
Rui Vieira, coordenador do projetoRefood Caldas da Rainha, destacou as iniciativas que assinalaram o primeiro ano. Em 2017 pretendem fazer obras de melhoramento do centro de operações, com bancadas novas e mais uma máquina de lavar a louça.
Atualmente o núcleo caldense da Refood tem parceria com cerca de 40 restaurantes e pastelarias e 50 voluntários ativos. Ajuda 25 famílias, o que se traduz num apoio direto a 80 pessoas. Para que esta ajuda chegue às famílias necessitam de mais voluntários. O ideal seria um grupo de 70 para que os que estão “consigam fazer duas horas por semana e não quatro ou seis como é o caso de alguns”.
O Refood das Caldas está a precisar de uma sede nova (gratuita) e ainda de sacos de plástico, tipo alimentar, vinagre e detergente para a máquina de loiça.







0 Comentários