Perante uma plateia de 400 pessoas Fernanda Paulo retomou ao palco do CCC, desta vez como intérprete. Acompanhada por Pedro Pinhal na viola de fado, Ande Moreira no baixo e Eurico Machado, na guitarra portuguesa, deu início ao concerto com o tema “Foi Deus”, que depressa envolveu a plateia, fazendo soar as palmas bem alto até ao final.
Com mão na anca, a artista deu voz a dois poemas de David Mourão Ferreira e Alain Oulman, “Sombra” e “Nome de Rua”, dando também um pezinho de dança no tema mais mexido, “Além do Amor” do brasileiro Vinicius Moraes. Segundo a intérprete, ”a gravação deste tema surgiu no próprio dia em estúdio, quando estava a falar com o guitarrista, que sugeriu ir buscar a música popular brasileira e dar-lhe uma interpretação com a guitarra portuguesa”.
“Essa música dá-me muito gozo cantar, pois sinto-me em casa a cantar em português”, sublinhou Fernanda Paulo, adiantando que ” ao não ser um fado tradicional posso cantá-lo, sem qualquer limite ou padrão interpretativo”.
Definitivamente foi um concerto diferente, com muita interpretação e encenação nos temas tais como “Acho Inúteis as Palavras” de António Sousa Freitas, onde a artista fingiu que lia um poema de um caderno sentada numa mesa. Além deste, interpretou os temas “Uma Flor de Verde Pinho”, “La Vie en Rose”, “Cidade Garrida”, ” Dá-me um beijo”, ”Canto o Fado” e um especial que “é o favorito dos meus pais, “Filha das Ervas”.
A cantora caldense aproveitou o concerto para chamar ao palco os convidados, como o músico argentino Ramon Maschio, dando voz a um tango “Naranjo en Flor”, e especialmente o caldense Manuel Miguel, “com quem comecei a cantar e o compositor da primeira música que levei a um festival”. Também deixou que os três músicos tocassem a solo, sem a sua voz, proporcionando um momento cheio de ritmo e musicalidade.
Com um concerto a bater de perto da hora e meio de duração, Fernanda Paulo despediu-se com o tema “que toquei pela primeira vez na Feira dos Frutos, o Fado Caldense”, deixando o público rendido e aplaudindo de pé a chamar pela artista. Apesar de não utilizar a designação de “fadista”, a cantora vestiu-se como as tradicionais fadistas, com vestido preto e um xaile para continuar o espetáculo.
“Não é não gostar, gosto de salvaguardar o facto de ser uma intérprete, no sentido que não canto só fado”, explicou a cantora, admitindo que “o fado que canto não é dentro dos padrões mais puristas, tendo outras influências, como música popular brasileira, o canto lírico ou mesmo teatro”.
Para a cantora caldense, “cantar nas Caldas é sempre especial, especialmente porque é a primeira vez que estou apresentar este espetáculo, com este novo cd e com muitos convidados que queria juntar”. Além disso, “o espetáculo foi um grande momento de partilha com público, e ao mesmo tempo de gratidão por fazer tudo o que gostamos”.
Segundo a cantora, este novo trabalho lançado este ano baseia-se no “registo da minha passagem musical neste momento pelo fado”, saindo dos padrões convencionais. Apesar de estar sempre a adiar gravar um disco, pois “há sempre aquela sensação que não estou preparada e a técnica vocal não está no melhor ponto”, Fernanda Paulo decidiu que estava na altura do público que assiste aos concertos levar “algo para casa”.
A sua carreira tem vindo a evoluir em dois polos artísticos, o do teatro e o da música, que se cruzam constantemente na maioria dos trabalhos em que participa, “juntando agora os dois mundos, numa espécie de concerto encenado, com movimentação e apontamentos teatrais que tem muito haver comigo”. “Acho que é nessa linha de interpretação que eu gostaria de seguir, cantando com uma intenção e dramatologia a rodear todo o espetáculo”, sublinhou a cantora, que neste momento está a preparar um musical infantil, no auditório dos Oceanos.
Mariana Martinho





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