O estudo efetuado entre 2009 e 2012, no concelho das Caldas da Rainha, sobre a realidade comunitária com referência à Saúde Mental, revelou que um em cada três participantes tinha “mal-estar significativo, sugestivo de patologia psiquiátrica”. As dimensões “disfunção social”, ansiedade e insónia” e “sintomas somáticos” foram as que obtiveram pontuações médias mais elevadas. Constatou-se existir uma relação entre Saúde Mental e acontecimentos de vida (perante a conjuntura económica desfavorável, o desemprego e a pobreza).
Reconhecendo a necessidade de incluir a saúde mental entre as prioridades dos cuidados primários, Ana Maria Pisco disse que o ACES Oeste Norte tem falta de psicólogos. “Mais recentemente, em 2015 e 2016, o ACES Oeste Norte incluiu nos seus quadros da unidades de recursos assistenciais partilhados dois psicólogos que são “manifestamente insuficientes para as necessidades, dados o rácio definido ser de um psicólogo para 5000 utentes”. A diretora espera aumentar a equipa a curto prazo com o recurso a uma mobilidade. “Nós temos uma psicóloga que é funcionária da Câmara da Nazaré que fez um pedido de mobilidade para o ACES Norte e vamos tentar que seja aprovada para que ela fique com a área de Alcobaça”, explicou Ana Maria Pisco.
No entanto, esta responsável sublinha que claramente são precisos mais psicólogos, não só para as consultas com os utentes mas para poderem trabalhar em áreas de prevenção. “Se tivesse quatro ou cinco psicólogos já nos dava uma boa ajuda”, adiantou.
Revelou ainda que há cerca de um mês assinaram um protocolo com a unidade de psiquiatria da infância e adolescência do Centro Hospitalar Lisboa Norte, que tem por objetivo a criação de equipas comunitárias de saúde mental na área da infância e do adolescente. O objetivo é uma equipa do Hospital de Santa Maria deslocar-se ao ACES Oeste Norte para fazer as consultas aos utentes encaminhados, para que as crianças e jovens não tenham que ir a Lisboa.
Durante mais de quinze anos houve um protocolo com o Centro Hospitalar Oeste Norte no âmbito da saúde mental, que lhes permitiu, apesar da carência de recursos médicos hospitalares, conseguir “cuidar” da saúde mental da população desta região, recorrendo precisamente a um trabalho em rede, “com instituições como a segurança social, os tribunais, as escolas, entre outros”. “Este protocolo terminou ou pelo menos estará um pouco enfermo, com a criação do Centro Hospitalar do Oeste”, sublinhou.
Segundo Ana Maria Pisco, o papel central do médico de família, que trabalha com uma população ao longo de muitas fases do ciclo de vida, está aberto às possibilidades de fazer prevenção e promoção de saúde em qualquer consulta. “Pode ter uma atitude não estigmatizante e ajudar as pessoas a aceitar e trabalhar com os aspetos psicológicos de uma doença”, referiu.
O Dia Mundial da Saúde, que se assinalou a 10 de outubro, foi celebrado pelo ACES Oeste Norte sob o lema “O Amor só é Eterno enquanto dura: Contributos da psicologia e do direito”. Cerca de 150 pessoas, entre médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, autarcas, entre outros, assistiram ao encontro, que deu a reconhecida importância à saúde mental para o bem-estar dos indivíduos e para o desenvolvimento das sociedades.
Luís Pisco, vice-presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, que esteve presente na sessão de abertura, fez notar que os cuidados de saúde primários “são a maneira mais viável de assegurar que as pessoas tenham acesso a cuidados de saúde mental mais perto da sua casa, continuando desta forma junto das suas famílias e mantendo as suas atividades quotidianas”. No entanto, vincou que nunca são “suficientes para satisfazer toda a variedade de necessidades relativamente à saúde mental da população”.
Revelou que Portugal tem, em conjunto com a Irlanda do Norte, a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas na Europa, mostrando um padrão muito diferente do encontrado nos outros países do sul da Europa. “Onde Portugal mais se destaca dos outros países europeus é no grupo das perturbações de ansiedade pois apresenta uma prevalência muito elevada (16,5%) seguido do grupo das perturbações do humor, com uma prevalência de 7.9%”, revelou.
Segundo os alertas do coordenador nacional do programa de saúde mental, Álvaro de Carvalho, Portugal é um dos países europeus com maior consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos e onde as pessoas com perturbações do humor consomem mais ansiolíticos do que antidepressivos, quando deveria ser ao contrário.
Outra importante chamada de atenção foi para a existência de “crianças e adolescentes medicadas com metanfetaminas para supostas hiperatividades, levantando-se a dúvida sobre se “esta fúria farmacoterapêutica estará isenta de decisões tão pouco prudentes”.
RitaCadima, vice-presidente do Instituto Politécnico de Leiria, também participou na sessão de abertura, onde destacou a parceria com a ACES Oeste Norte na promoção de um encontro com um tema importante para o bem estar da comunidade.
Juiz faz conferências com os pais para resolver conflitos de custódiados filhos
No primeiro painel, “O amor no casal, na paternalidade e na família”, moderado por Nuno Cotralha, psicólogo clínico e psicoterapeuta no ACES Oeste Norte, foram várias questões relacionadas com o casal e a relação com os filhos.
Isabel Mesquita, psicóloga clínica, psicoterapeuta e professora na Universidade de Évora, disse que o amor alimenta e estima. “É a força propulsora de mudança com a expetativa de ser correspondido”, ressalvou.
Conceição Teixeira, psicóloga clínica, psicoterapeuta e diretora clínica da Territórios Internos, empresa que presta serviços em várias subáreas da Psicologia Clínica, falou do vínculo e relação entre pais e filhos, sublinhando que “um filho nasce antes de mais na mente dos seus pais”.
“O que é hoje a verdade do amor?”, questionou Manuela Porto, psicóloga clínica, psicoterapeuta e presidente da Associação Portuguesa de Psicoterapia Psicanalítica de Casal e Família, que considera que “não existem relações perfeitas como não existe amor perfeito”.
A segunda mesa, com o tema “O Amor nos Direitos e no Tribunal”, moderado pelo presidente da Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens em Risco, Armando Leandro, iniciou com a intervenção de Ana Perdigão, coordenadora do Serviço Jurídico de Apoio à Criança, que relatou alguns casos de batalhas judicias pelacustódiados filhos, defendendo “mais justiça para alguns pais”.
O juiz de Família e Menores no tribunal de Sintra, Joaquim Silva, cativou o público com a sua intervenção, onde explicou como “tem alcançado uma alta taxa de acordos de pacificação, que à partida seriam impossíveis entre casais inimigos, em processo de divórcio, que usam os filhos como vingança”.
A sua experiência levou-o a acreditar “na guarda compartilhada” e faz conferências com os pais, porque apercebeu-se “que há um profundo desconhecimento nos pais das consequências dos seus comportamentos e sentimentos no desenvolvimento dos filhos”. Defendeu que os juízes têm que ser mais informais. Não quer relatórios mas sim conversas, e se for necessário, ele mesmo telefona e recorre ao Facebook para comunicar com as pessoas.
A sessão de encerramento contou com a participação de Marta Félix, presidente do Conselho Clínico e de Saúde do ACES Oeste Norte, e João dos Santos, diretor da ESAD.CR.
Marlene Sousa






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