A cutelaria artesanal, que é a arte de fazer facas e navalhas esteve em destaque nas Caldas da Rainha, na primeira edição da feira internacional da Cutelaria que decorreu no passado fim de semana, de 1 a 3 de julho no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.
O evento divulgou a arte da confeção de facas, instrumentos de corte, gravação manual e fornecedoras de matéria-prima.
A primeira realização desta mostra, única em Portugal, foi da responsabilidade do Lombo do Ferreiro, uma oficina de cutelaria artesanal de Relvas, na freguesia de Santa Catarina, onde existe uma longa tradição desta arte.
A organização faz um balanço muito positivo da feira. “O sucesso do evento excedeu todas as nossas expectativas, quer ao nível de adesão dos expositores, quer em relação ao número de visitantes”, comentou Filipa Norte, do Lombo do Ferreira.
No total, passaram pela feira mais de dois mil visitantes, a maior parte dos quais no sábado e domingo. A grande maioria dos expositores (99%) responderam a um inquérito em que disseram que irão voltar para a próxima edição.
A iniciativa, apoiada pela Câmara das Caldas e pelo CCC, teve por base “o peso económico” do setor que só nas freguesias de Santa Catarina no concelho das Caldas da Rainha e na Benedita concelho de Alcobaça, concentra as maiores fábricas de cutelaria do país.
Centenas de visitantes quiseram conhecer a arte da fabricação artesanal de facas para as mais diversas finalidades. Logo na entrada para o CCC, as pessoas concentravam-se em grupos para ver os cutileiros, que trabalhavam ao vivo. Com o alicate numa das mãos, o cuteleiro girava a peça ardente de um lado para o outro, enquanto a martelava contra a bigorna, de forma alternada, de um lado de cada vez.
José Manuel dos Santos de 46 anos, de Rio Maior que é colecionador de facas, gostou de ver os mestres a trabalharem ao vivo. “Todo este processo que resulta na transformação de uma peça de aço em uma faca artesanal é espetacular”, disse, José dos Santos que aproveitou o certame para comprar mais umas facas para a sua coleção.
No foyer do CCC estiveram cerca de 40 expositores, oriundos de seis países (Portugal, Espanha, França, Paquistão, Estados Unidos da América e Rússia).
Os artesãos franceses, Eric Depeyre e Hervé Maunoury também destacaram a iniciativa e achando que “estava muito bem organizado”. No entanto acham que o certame podia ter-se concentrado em apenas dois dias.
Hervé Maunoury disse que foi a primeira vem em Portugal e que aproveitou a feira para trazer a família. Depois do certame terminar vão passear pela região, Lisboa e no fim pretendem visitar o Porto.
Paulo Correia, filho do artista caldense Armando Correia, enriqueceu o certame, com uma mostra ao vivo de gravação manual a buril, em facas de caça e armas.
Ao JORNAL DAS CALDAS, o mestre explicou o processo do seu trabalho que inicia com uma de planificação, seguido do desenho original que faz em papel que depois é transferido para a peça.
Paulo Correia que foi fundador do Fórum Cutelaria artesanal do Brasil também elogiou esta iniciativa nas Caldas considerando que poderá ser “a semente para se conseguir uma associação de cuteleiros da região”.
Os expositores estrangeiros ficaram surpreendidos, para além da adesão, com o nível de conhecimento dos visitantes, que se mostraram conhecedores quer dos materiais quer das técnicas de fabrico”, referiu a organizadora.
Os workshops “Monta a tua navalha” tiveram também uma adesão inesperada. “Foram montados cerca de 100 navalhas durante o fim de semana, participaram muitos adultos e crianças, e até um grupo de 26 escuteiros. Houve pessoas que vieram propositadamente de longe, como de Lisboa e do Porto, para participarem nesta atividade”, contou Filipa Norte.
No sábado à tarde, dois agentes da PSP promoveram uma sessão de esclarecimento sobre a legislação de armas brancas, uma vez que algumas destas peças são consideradas como tal pela legislação.
Importância do setor na freguesia de Santa Catarina
As fábricas da região (Benedita e Santa Catarina) participaram num núcleo de exposições para mostrar o que se faz ao nível industrial.
Recorde-se que Santa Catarina e Benedita reúnem um dos maiores núcleos de fabrico de cutelaria do mundo. Em Santa Catarina, o setor emprega cerca de 500 pessoas, e se juntarmos a Benedita são, no total, mil postos de trabalho diretos e o fabrico anual de muitos milhões de facas exportadas para mais de 70 países.
A NICUL – Nova Indústria Cutelarias, LDA, localizada em Relvas –na freguesia de Santa Catarina foi uma das empresas que participou no núcleo de exposições. João Ramalho, responsável pela empresa destacou a primeira feira internacional, uma vez que “dá uma visibilidade muito grande ao setor que não é conhecido a nível nacional”. Defende a ligação da indústria de cutelaria às facas artesanais. Quanto, aos visitantes, disse que excedeu as expetativas, e que pode ser “um grande passo para a criação de uma associação de cuteleiros da região”.
Sustenta também a criação de uma Rota da Cutelaria em Santa Catarina e Benedita, com o objetivo de promover uma das indústrias mais importantes das localidades. Defende a criação de visitas às fábricas, e que seja um dos seus principais cartões de visita, importante fator de desenvolvimento da região.
Segundo o empresário, a NICUL tem crescido e atualmente produz cerca de 700 mil facas por ano onde 60% são exportadas para mais de 40 países. O empresário que emprega 40 pessoas diz que “as facas portuguesas são conhecidas mundialmente pela sua qualidade”.
O JORNAL DAS CALDAS falou com Diogo Lopes da Sico Oeste sediada na Benedita recordando que aquela empresa foi fundada em meados da década de 60 e tinha como atividade principal o fabrico de canivetes e produtos artesanais.
Desde então tem modernizado e ampliado continuamente os processos produtivos com a introdução permanente da mais moderna tecnologia. Atualmente tem como atividade principal o fabrico de cutelarias profissionais, como facas de cozinha; facas profissionais; cutelos; canivetes; lâminas para a indústria alimentar, entre outros. Produzem cerca de um milhão de facas por ano.
Também elogiou o certame que promove a cutelaria da região que “ainda é desconhecida em Portugal”.
Devido ao sucesso do workshop de montar navalhas, a organização irá repetir a atividade na Festa da Fruta, num espaço cedido pelo município.
A organização faz questão de agradecer todo o apoio, “que foi essencial”, por parte da Câmara das Caldas, da equipa do CCC, da Junta de Freguesia de Santa Catarina e da União Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, Couto e São Gregório.




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