Trazemos em nós a sensação de que quanto mais tempo estivéssemos no Irão, mais pormenores iríamos descobrir e conhecer, mais fundo na cultura iríamos conseguir chegar. Parece óbvio, mas há países onde podemos passar muito tempo, conhecer muitas cidades, muitas pessoas, mas onde os hábitos e as tradições se ficam pelo que vemos no início. Aqui não.
Nas últimas três semanas fizemos quase três mil quilómetros, estivemos em Tabriz, Kandovan, Zanjan, Teerão, Kashan, Esfahan, Shiraz, Yazd e Chalus. No Irão, entre cidades, é possível fazer mais de 400 quilómetros em deserto. E as cidades, embora todas muito parecidas, com lugares históricos e religiosos de cortar a respiração, fizeram os nossos encantos. Tal como as pessoas, às quais não nos cansamos de tecer elogios: de tão boas, tão generosas. Mas essas, tal como já havíamos partilhado, vivem oprimidas: nomeadamente as mulheres.
Sempre de mão dada com a religião, a vida gira em torno do Corão. É ainda na escola primária que começam a estudá-lo: a aprender árabe e a rezar. É obrigatório e tem tamanha importância. Presenciámos também quase duas semanas de ramadão: período durante o qual as pessoas passam fome e sede, do nascer ao pôr-do-sol, em nome da religião. Cerca de 16 duras horas, obrigatórias por lei. Contam-nos, por entre dentes, que é o primeiro ano que as ruas não estão intensamente patrulhadas, ainda assim, ninguém se atreve a comer. Fingem cumprir, mas conhecemos apenas duas pessoas em jejum – todas as outras, é por entre as suas quatro paredes que levam a vida. Ou por entre ruelas estreitas, onde se atrevem a beber água, escondidas dos olhares alheios. Nós, enquanto viajantes, reconhecemos mais alguma liberdade.
Ainda assim, liberdade é algo desconhecido. Mesmo de sorriso no rosto e sempre amáveis, às pessoas não é permitido cantar, dançar ou beber álcool – no fundo, das coisas boas da vida dizem que só lhes é permitido comer. Até para amar, a história é longa: é proibido aos homens olhar para as mulheres (nem tão pouco as podem cumprimentar) e é proibido namorar. Então como se casam? Os casamentos são arranjados e é permitido casar com primos. Por exemplo, a família do rapaz contata a família da rapariga, dizendo que o filho está solteiro e que acredita poder ser um bom pretendente. A rapariga é informada e mal os pais concordem segue-se o primeiro encontro dos dois: o rapaz deve chegar acompanhado da família, com alguns presentes. Depois, a rapariga apresenta-se pela primeira vez servindo chá. É então permitido que ambos se afastem e conversem, de forma a ver se se identificam. Mais tarde, as famílias devem comunicar se o casamento é então para avançar ou não. Caso sim, cabe aos pais do noivo fazer uma generosa oferta aos pais da noiva! E em caso de divórcio (se consentido pelo marido ou se provado que é um mau homem), a mulher deve receber a quantia de ouro que deixou escrita no momento da união; tudo o resto é propriedade de homem. Não obstante, é permitido aos homens, legalmente, ter quatro esposas (o que atualmente não é tão comum).
E por entre tantas histórias, o mais interessante é mesmo a forma como as pessoas se tratam. Como dão a mão a troco de nada, abrem as janelas das suas vidas e nos deixam entrar. Porque apesar das diferenças culturais e religiosas, respira-se segurança. E hospitalidade. Viajar pelo mundo é assim, é perceber que o mundo está errado sobre o que pensa de cada país.




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