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Crónica

Casal caldense dá a volta ao mundo

Joana Oliveira e Tiago Fidalgo

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Mais duas semanas; o tempo vai passando, vai fluindo sem que nos faça pensar nisso. Vamo-nos sabendo felizes, mesmo quando nos vemos à espera de uma boleia, de um visto ou de guarida. Vamo-nos sabendo felizes.
Em Istambul, na Turquia

A Macedónia acabou por ficar para trás, depois de em Skopie passarmos seis noites, o que para nos foi um novorecord. Trocámos os euros pelos denares e a nossa cultura pela deles. Passeámos, deixámo-nos absorver por cada história, cada novidade, cada diferença. E quantas diferenças, como partilhamos anteriormente! Por lá, tivemos a sorte de ficar em casa de amigos de amigos, ao abrigo de um projeto europeu. Mas por lá, o nosso coração batia descontrolado: era tempo ou receio, era ansiedade. Era o nosso visto para o Irão.

Quando contatámos pela primeira vez a embaixada iraniana, ainda em Belgrado – na Sérvia, disseram-nos que lá seria impossível obtê-lo. Também em Skopie foi assim, mas fizemo-nos sortudos: em dois dias tínhamos os vistos colados nos nossos passaportes! Foi por isso que logo na manhã de 13 de abril, depois de saídos da embaixada, nos fizemos ao caminho.

Com vista à Grécia, queríamos ainda naquela tarde chegar a Thessaloniki. E, com o entusiasmo guardado nas nossas mãos, esticámos os dedos. Parecia magia. Apanhámos nessa tarde cinco boleias, três delas até à fronteira com a Grécia. Por entre cada boleia, deram-nos comida, bebida. Deram-nos partilhas, histórias de vida. Deram-nos sorrisos! E foram umas boleias atrás de outras. Víamos tudo passar por nós, rápido. Velozmente. E limitávamo-nos a saborear. Felizes. Porque a felicidade é assim; vive-se nela. De corpo e alma. E quando se partilha, com amor, são dois corpos e uma alma a viver nela. Na felicidade!

Já na fronteira, fizemo-nos ao caminho; mas a pé. Sabíamos que a podíamos atravessar assim, e assim o fizemos. Passámos três guardas fronteiriços, em diferentes postos. Todos nos deram um sorriso; todos nos deram o seu lado bom! Não que seja estranho, mas atravessar uma fronteira é sempre um momento tenso; de poucas palavras e poucos sorrisos. Limitam-se habitualmente a dizer “passaport”, “open your bag”, “where are you going”, “why”. E pouco mais. Mas a pé foi diferente. Pareciam entusiasmados; talvez os nossos olhos falassem por nós. Mesmo com as mãos suadas entre-nós, do nervoso miudinho de mais uma etapa. Concluída! Estávamos pois na Grécia! E até à cidade onde pernoitaríamos, faltavam poucos quilómetros – que acabámos por fazer com mais duas boleias.

Por entre estas duas boleias, os sentimentos divergiram, voaram, intensificaram-se. Doeu na alma, no pensamento. Até mesmo no corpo. Tendas. Fogueiras. Tendas. Mais tendas. Luzes perdidas. Gente. Mais gente. Crianças. Histórias de vida. Professores. Médicos. Mães. Pais. Mulheres grávidas. Recém-nascidos. Mais gente. E mais dor na alma. Um campo de refugiados – Idomeni. Se chorar por dentro conta, estávamos lavados em lagrimas. Chegámos a Thessaloniki ainda meio atordoados; mas chegámos bem. Já tarde, cansados e fora de horas. O peso das mochilas vincava já os nossos ombros,tínhamos pouco mais de três quilómetros pela frente, a pé, mas úteis para digerir tudo o que os nossos olhos tinham alcançado.

Pela Grécia ficámos três noites, em cidades diferentes e com couchsurfers diferentes (o Couchsurfing é uma plataforma de partilha de sofás, gratuita e mundial). Na Grécia tratámos do visto para a Turquia; mas esse nada exige, senão um pouco de paciência para o obter online. Seguimos com rumo a terras turcas, onde estamos agora. Em Istambul. Até aqui, o caminho não foi difícil, mas exigiu longas esperas. A troco, colocou os melhores no nosso caminho. Pessoas iluminadas, generosas. Humildes. E foram apenas duas boleias.

Entrar na Turquia levou tempo; na fronteira ultrapassámos cinco postos de controle, todos eles exigentes e minuciosos. E revistaram tudo, até mesmo as nossas mochilas. É por isso que atravessar uma fronteira não tem como não ser um momento tenso. Mais, quando a comunicação se faz rudimentar e onde o inglês deixa de ser um porto de abrigo. Mas como sempre, tudo termina em bem!

Na Turquia, vivem75 milhões de habitantes, a maioria muçulmanos – embora seja um país laico. Em Istambul, encontrámos uma imensidão. São 18 milhões de pessoas, uma área incansável e uma mistura apaixonante! Esta é a nossa última paragem na Europa, numa cidade linda, misteriosa. Nas ruas percebe-se a diferença, a cultura.

Embora a maioria da população seja muçulmana, percebe-se que a prática do Islamismo é bastante peculiar. A religião adaptou-se aos tempos modernos e as demais religiões são respeitadas. A burca, que cobre todo o corpo e o rosto das mulheres, foi proibida por lei, mesmo que não seja difícil encontrar algumas mulheres assim na rua.Istambul é um mundo.

Também um mundo repleto de hospitalidade e de tradições: o chá que por aqui bebemos e o som das mesquitas, cinco vezes ao dia, permanecerão decerto em nós. Por agora, por aqui permanecemos a aguardar pelo visto do Uzbequistão, enquanto nos vemos preenchidos, dia após dia.

Joana Oliveira e Tiago Fidalgo

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