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Morreu um dos maiores génios da cerâmica caldense

António Marques (foto José Nascimento)

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Ferreira da Silva faleceu aos 87 anos com uma longa vida de artista multifacetado e onde sobressaía a cerâmica em todas as suas dimensões.
Eduardo Constantino com Ferreira da Silva

Cedo começou a contactar com as diversas formas de expressão artística porque o seu pai, que dominava bem o desenho gráfico e a litografia, trazia para casa os esboços dos trabalhos que haveria de aperfeiçoar noite dentro numa azáfama que muito impressionava o garoto Ferreira da Silva.

Claro que os primeiros passos na educação e formação após a escola primária, feita no Porto, foram dados na Escola Brotero de Coimbra. Foi parar à aula de Mestre José Contente, respeitado pintor e sobretudo gravador de méritos reconhecidos, mas também quis o destino que frequentasse no mesmo estabelecimento de ensino a aula do aguarelista caldense António Vitorino, que lecionava o curso de pintura cerâmica.

Foi paixão à primeira vista e Ferreira da Silva, jovem curioso, desde logo começou a dar nas vistas, pela irreverência que o haveria de acompanhar toda a vida e também pelo interesse acerca da matéria, querendo sempre ultrapassar-se a ele próprio na busca de “coisas novas”.

Em Coimbra começa a sua vida profissional na pintura do atelier Frutuoso, mas de forma breve, já que pelos 16 anos vamos encontrá-lo numa verdadeira fábrica de cerâmica no Bombarral, onde de imediato se faz notar, a ponto do diretor da Cerâmica Bombarralense o selecionar para trabalhos de relevo na área da gravação.

É nesta fase que contacta pela primeira vez com mestre Júlio Pomar, um dos grandes pintores portugueses da 3ª geração dos modernistas e empenhado contra a ditadura, que também gostava da arte cerâmica. A empatia foi imediata e neste ambiente contactou a partir de Pomar com um núcleo intelectual dos mais importantes nas artes plásticas do nosso país.

Dizia muitas vezes que Júlio Pomar foi o seu “guru” e a ele devia o salto para o mundo da arte e sobretudo da qualidade artística, valores que sempre enfatizou no seu mestre de referência para a vida.

Assumiu assim uma corrente neorrealista que respirava no seu círculo de artistas e foram na verdade a sua grande escola de vida, de arte e de civilização.

Foi o próprio Júlio Pomar que lhe organizou a primeira exposição e logo na catedral das artes, o Salão da Escola Nacional de Belas Artes, que recebeu os primeiros trabalhos em gravura do jovem Ferreira da Silva.

O mundo das artes plásticas começava a olhar aquele rapaz magro, olhar penetrante, dedos de pianista enormes e sempre curioso com a mania de fazer perguntas, algumas fora do contexto e, por isso, irreverentes.

Após o serviço militar não se atardou no Bombarral, primeiro porque Cerâmica Bombarralense sofreu um incêndio que devastou toda a fábrica, depois, porque queria frequentar o ambiente que se vivia no concelho de Alcobaça, onde ouvira falar da arte da porcelana e queria ver de perto de que se tratava afinal.

Trabalhou episodicamente em duas ou três fábricas e depois ingressou na famosa Olaria de Alcobaça onde contactou diretamente com o professor Vieira da Natividade, que se de cerâmica pouco sabia, era um cientista na fruticultura. Uma vez mais tinha a honra de privar com um dos grandes vultos intelectuais de Portugal, um homem de qualidades morais e cívicas de referência.

Foi Vieira da Natividade que o apresentou a Pinto Ribeiro, o fundador e diretor da Fábrica de Faianças Secla em Caldas da Rainha. Pinto Ribeiro, homem avisado e a precisar de talentos, logo o contratou para dirigir a secção de pintura da grande empresa que não parava de crescer, até ser a maior fábrica de faianças da Europa, chegando a dar trabalho a mais de 1000 profissionais.

Agora Ferreira da Silva evoluía num ambiente diferente no seio de uma imensa empresa, moderna e tecnologicamente muito avançada, por onde passaram grandes vultos internacionais, entre eles a famosa artista húngara, Hansi Stael, que está na origem da evolução da Secla, para outros horizontes internacionais, mais além da cerâmica tradicional caldense.

Ferreira da Silva fica fascinado por Madame Stael, que conheceu em 1954. Segue de perto o seu percurso artístico, gaba-lhe o gesto nobre, o porte esbelto, o traço único, a forma moderna e agarra-se ao sonho criador que nunca mais o largou.

Fora da Secla, Ferreira da Silva continuava a sua busca em torno de novos conceitos para a cerâmica, privando uma vez mais com Pomar, Hernâni Lopes, da escola de Abel Manta.

Pomar, que veio a Caldas da Rainha produzir o belo painel do Café Central, uma vez mais contactou com o seu aluno dileto e levou-o a concorrer à exposição da Fundação Gulbenkian, salto de gigante que lhe outorgou notoriedade e visibilidade neste mundo fechado das artes plásticas.

Sentia que tinha que levantar voo para além da produção em série. Deixa a casa mãe, procura o seu caminho, mas regressa ao berço com um estatuto diferente, trabalha agora numa oficina exclusiva, dedicada à criação e tem um oleiro consigo para os ensaios que faz no “Curral”, nome pelo qual Ferreira da Silva batizou o seu primeiro e verdadeiro Atelier Criativo.

Foi a partir do “Curral” que Ferreira da Silva se afirmou como “um dos maiores artistas cerâmicos de Portugal”, dotado de uma exuberância no conceito, na forma, no rigor técnico e na plasticidade que caracterizam toda a sua obra.

A partir de agora Ferreira da Silva vai figurar em constantes exposições, em Portugal ou no estrangeiro, numa correria que não tem explicação.

Em 1961 expõe na Gulbenkian e recebe um prémio da crítica. Em 1964 está patente na Galeria 111 em Lisboa e recebe logo a seguir o Prémio Soares dos Reis em Escultura, galardão tão cobiçado na época.

Em 1967 a sua notoriedade leva-o a Paris como bolseiro da Fundação Gulbenkian, mas curiosamente não abraça o ambiente demasiado cosmopolita e até elitista da capital francesa, onde contacta com a expressão cerâmica de Picasso, que o viria a marcar profundamente.

Volta à Pátria, procura constantemente novas vias e em 1970 busca no Grés uma alternativa, mas trata-se de uma experiência efémera, porque haveria de regressar ainda uma vez mais aos seus amores de sempre no seio da Secla, que sempre lhe escancarou as portas cada vez que era seu desejo.

A partir da Secla, começa a colaborar com o Cencal pela influência de outro grande vulto caldense por adoção, que foi o engenheiro Pessoa de Carvalho, seu amigo dileto, que sempre o protegeu como um filho.

Da janela do Cencal e poder-se-ia dizer com o apoio do dr. José Luís, colabora com meio mundo, fábricas, ateliers, instituições e escolas.

Não para de expor e de criar painéis de azulejos para entrada da Câmara Municipal de Caldas da Rainha, para a EDP, para a Câmara de Reguengos, por exemplo.

Nunca conseguiu terminar o seu Jardim de Água, encomendado pelo administrador Vasco Trancoso e patente junto da entrada Oeste do Hospital Distrital, obra monumental, cuja dimensão ultrapassou a sua própria expectativa.

Tenho de Mestre Ferreira da Silva tantas histórias para contar e que com ele cultivei ao longo de 40 anos, que um livro inteiro não seria suficiente.

Deixo apenas uma, daquele momento único em que o convenci a obter o número de contribuinte que não possuía e era absolutamente necessário para que a Câmara Municipal lhe pudesse abonar a verba acordada pelo pagamento do painel alegórico à Rainha e às Termas.

No regresso de Óbidos dizia-me muito preocupado: “Mano foste meter-me na boca do lobo, agora vão-me comer o coiro com os impostos”.

Morre um artista maior do universo caldense mas ficará a sua obra que muito orgulha a cidade e o concelho e muito nos orgulha a todos nós que imaginávamos Ferreira da Silva eterno, apesar dos seus 87anos.

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