Carlos Guerreiro começou por falar do dossiê que a sua estação emissora preparou sobre “Portugal, migrantes e refugiados”, onde engloba um conjunto de reportagens e documentários ligados ao tema.
“A história revela diversos momentos em que por imposição legal, conflitos ou razões sociais, Portugal se viu envolvido em questões relacionadas com migrações ou com refugiados”, esclareceu o jornalista, adiantando que todos os documentários retratam episódios em que portugueses estão envolvidos. Focou a escravatura como o primeiro exemplo de tráfico de seres humanos, que “existe desde o início da humanidade”.
Outro tema focado pelo convidado foi a expulsão dos judeus, em que D.Manuel expulsou os não cristãos (judeus e muçulmanos) ou obrigou-os à conversão, o que significou “uma perda de capital humano e económico, muito grande em Portugal”. Também destacou a vinda de 600 mil portugueses que regressaram a Portugal, após a revolução de 1974, na sequência da descolonização. “Ficaram conhecidos como retornados, mas acabaram por ser refugiados dentro do próprio país”, recordou o jornalista, adiantando que esta população teve dificuldades em encontrar trabalho, sujeitando-se a diversos tipos de discriminação.
O jornalista sublinhou alguns casos de refugiados em Portugal, como a vinda dos bósnios em 1992. “Portugal recebeu cerca de 150 destas pessoas em fuga, mas nem tudo correu bem “, disse Carlos Guerreiro, pois apesar das esperanças e da mobilização de particulares e de instituições, foram vários os refugiados da ex-Jugoslávia que não conseguiam integrar-se na sociedade. Chegaram em 1992, mas várias dezenas abandonaram o país nos anos seguintes por razões diversas. No entanto, deu como exemplo um caso de sucesso, Sabina Godinho Karamehmedovic, arquiteta que “há 23 anos adotou Portugal como casa”.
Carlos Guerreiro sublinhou que “temos de estar abertos para receber estas pessoas, pois a situação na Síria é verdadeiramente dramática”. Como tal, “devemos abrir as portas, mas com atenção”, pois por vezes, “o excesso de boa vontade pode ser o maior inimigo”.
Posição da Amnistia Internacional
Susana Gaspar fez uma breve reflexão sobre as diferenças entre o estatuto de imigrantes, refugiados e requerentes de asilo. Também salientou que a “escravatura está longe de ter acabado no presente, provocando um elevado número de tráfico de seres humanos para diversos fins (exploração sexual, laboral e órgãos)”.
“A história é cíclica e neste momento, estamos novamente num dos momentos mais trágicos da história mundial”, disse Susana Gaspar, apontando a grande crise económica e de valores. Frisou que as respostas aos problemas estão demoradas, devido aos decisores políticos, que demoram tempo a criar rotas seguras e que leva as pessoas a fugir clandestinamente.
A integração e inclusão destas pessoas nos países de acolhimento foi outro dos temas focados pela responsável, que deu como exemplo a ilha de Lampedusa, situada no Mar Mediterrâneo. “A Lampedusa é a porta da Europa e a primeira impressão que os refugiados têm quando chegam, onde são recebidos como criminosos”, afirmou Susana Gaspar, referindo que a Amnistia Internacional, neste momento, encontra-se nas principais fronteiras para evitar que ocorram mais atropelos aos direitos humanos. Também criticou a falta de informação por parte dos cidadãos.
“Se não ignorarmos, podemos fazer a diferença, como Aristides de Sousa Mendes fez”, alertou.
A responsável ainda aproveitou a conferência para esclarecer sobre alguns mitos de pessoas em movimento, como por exemplo: ”Eles vêm para usufruir dos nossos benefícios e para roubar os nossos empregos! Falso”. Segundo a mesma, os requerentes de asilo têm direitos sociais mínimos – 419,22 euros e ocupam frequentemente os empregos menos qualificados e mais pesados.
”A imigração destrói as finanças públicas! Falso”. Susana Gaspar salientou que ao trabalharem, consumirem e pagarem impostos, os migrantes contribuem para a atividade económica e para as finanças públicas que, de outro modo, sofreriam perdas”. No total são 10 mitos respondidos que encontram disponíveis no site da organização.
No próximo sábado será a ultima conferência do ciclo, com a eurodeputada Ana Gomes, que não pôde estar presente nesta.



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