Também houve mais casos de absentismo escolar, o que a preocupa, revelando que são necessárias estruturas para fazer face a esta situação, que pode levar “ao desconforto em casa”. “Tudo isto depois vai despoletar na adolescência uma situação de crise e colocá-los em situações de perigo”, sublinhou.
Segundo Patrícia Miranda, as forças policiais, escolas e os próprios pais são quem mais denuncia os casos de perigo às comissões. Também há telefonemas anónimos ou pessoas que se dirigem à comissão mas pedem anonimato. “Tem havido um número crescente de pais que nos contataram porque sentem que os filhos não estão bem, que estão em risco, que não cumprem regras e normas e não conseguem fazer com que eles tenham uma vida estável e integrada no quotidiano”, apontou a presidente da CPCJ. Revelou ainda que a comissão tem uma colaboração muito boa com as forças de segurança que estão muito mais sensibilizadas e preparadas para lidar com estes casos.
A necessidade de sensibilização e alerta para os maus-tratos contra crianças e jovens e a importância crucial da sua deteção precoce levou a CPCJ a realizar na passada quinta-feira, no auditório da Câmara Municipal, uma sessão de formação em que participou mais de uma centena de pessoas que trabalham com crianças e jovens, como polícias (PSP/GNR), professores, psicólogos, membros da comissão, técnicos, enfermeiros, médicos, assistentes sociais, entre outros.
Patrícia Miranda achou importante trazer esta formação às Caldas porque considera que há necessidade de dotar os técnicos de saberes e de competências para terem padrões e instrumentos de avaliação e diagnosticarem diferentes formas de maus-tratos e de agirem assertiva e atempadamente na promoção e proteção das crianças e jovens. “Muitas vezes somos confrontados com situações que não sabemos se a criança foi vítima de violência física ou se foi uma queda e às vezes ficamos sem saber muito bem como atuar ou podemos cair em erro, se foi realmente uma queda”, explicou a responsável. Os técnicos da CPCJ fazem visitas domiciliárias aos casos que têm assinalados e espera que com esta formação estas questões “possam ser tratadas ainda com maior rigor científico, e que nós tenhamos métodos e instrumentos para podermos ser mais eficazes no nosso trabalho”.
Desenvolver um olhar crítico sobre sinais de maus-tratos
Fátima Duarte, da CNPCJR – Comissão Nacional de Proteção das Crianças e Jovens em Risco foi a formadora que dinamizou a sessão de formação. Referiu que o principal objetivo da ação foi ajudar os participantes a “ter outro olhar sobre os maus-tratos e os abusos. Não como o problema de uma família, mas como o problema que é da comunidade”. “As nossas crianças e jovens são uma responsabilidade de toda a comunidade e portanto esta questão dos maus-tratos é gravíssima, deixa marca e cabe-nos a todos desenvolver competências para ajudar o mais cedo possível, para não deixar que elas continuem a ser maltratadas, porque o homem define-se pela sua infância, sendo maltratada pode tornar-se num adulto muito perturbado e agressor”, explicou a formadora.
Segundo apontou, as escolas, autarquias, comunicação social, profissionais de saúde, técnicos e policias têm feito um investimento gigante na formação porque todos “estes atores têm responsabilidades”.
Esta sessão de formação contemplou o abuso sexual, porque tem características que o distingue das outras formas de violência. “É a forma de abuso mais difícil de tratar e de abordar”, disse esta responsável, acrescentando que também abordaram a “avaliação e diagnóstico dos maus-tratos contra crianças e jovens”. “O intuito é saber ler indicadores, comportamentos e como se deve atuar”, apontou.
Fátima Duarte tem percorrido o país com ações de formação com o objetivo de desenvolver um olhar crítico, reflexivo e treinado sobre indicadores, marcas e sinais de maus-tratos contra crianças e jovens e suas causas eventuais e reais. Sustentou que é preciso ter um outro olhar porque os abusos são “escondidos, silenciados e calados nas famílias, sobretudo os sexuais. Faz parte da dinâmica do grupo que é o chamado secretismo, ou seja, há um pacto de silêncio que o abusador consegue garantir com a vítima”, explicou a formadora.






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