Esta iniciativa, que teve lugar no passado dia 9, no auditório da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, decorreu no âmbito das comemorações dos 130 anos da Escola de Desenho das Caldas da Rainha/Escola Rainha D. Leonor.
Para a diretora da escola, estes eventos são muitos importantes para a cidade porque é uma oportunidade de “conhecer e gostar mais de Rafael Bordalo Pinheiro, uma importante personagem do meio cultural e artístico que merece ser recordado”. “O agrupamento de Escolas Rafael Bordalo Pinheiro está na dianteira da cultura ao propor esta iniciativa em interação com a população da cidade”, disse Maria do Céu Santos, revelando que foi lançado neste evento o repto para promover colóquios semelhantes com os alunos para ficarem a conhecer melhor o patrono da sua escola.
As dificuldades económicas que a Fábrica viveu
Rafael Bordalo Pinheiro (1846 -1905), artista polivalente, autor de uma vasta e exuberante obra, escrita, desenhada, pintada e modelada, atingiu um estatuto e um reconhecimento contemporâneos que o tornaram numa das personagens portuguesas mais conhecidas de fim do século”, disse Cristina Horta, ex-diretora do Museu de Cerâmica, que se tem dedicado à investigação deste artista.
Segundo a investigadora, mais do que uma mudança de parâmetros estéticos, “Bordalo Pinheiro assinala o novo paradigma do artista moderno, polivalente, que abre a sua arte às mais diversas manifestações e áreas artísticas, imbuído do espírito da renovação das artes decorativas em Portugal, através do ensino artístico, sem menosprezo pela tradição da arte popular, e no contexto ideológico encabeçado por Joaquim de Vasconcelos e Ramalho Ortigão”.
Referiu Cristina Horta que “Bordalo dedicou-se a todas as áreas da decoração, desde decorações cerâmicas para várias vivendas da alta burguesia, decoração cénica, ilustrações para caixas de fósforos, postais ilustrados, menus de refeições e a própria ourivesaria, sendo exemplo a realização do desenho para uma baixela de prata em estilo manuelino executada para o ourives Rosas do Porto, por encomenda do 3º visconde de S. João da Pesqueira”.
Quando a Fábrica de Faianças das Caldas encerrou as suas portas, Rafael Bordalo Pinheiro ficou com pouco mais de meia dúzia de operários. O artista “desdobrou-se a corresponder a trabalhos para conseguir proventos para a sua fábrica, e na carta que escreve em 1891 a Mariano Pina, evoca por um lado o enorme êxito obtido, mas não deixa de assinalar as dificuldades económicas que a Fábrica vivia”.
A oradora contou que apesar dos triunfos o artista viu-se “forçado a tomar conta de todos os trabalhos que apareceram para se sustentar a si e pagar os operários que tinham ainda ficado a seu lado na fábrica. Trabalhos menores como rótulos de vinho de conservas, de bolachas, de cigarros, cartazes, anúncios” e queixava-se que tudo somado “dava uma bagatela”. Recordou Cristina Horta que em 1905 “vai com o filho trabalhar na decoração do cortejo carnavalesco do Clube dos Fenianos, no Porto”. “A sua já débil saúde ressente-se do frio do Norte, sofre uma pneumonia, regressa a Lisboa sem se recompor e vem a falecer de ataque cardíaco na sua casa no Largo da Abegoaria a 23 de janeiro de 1905”, referiu a investigadora, acrescentando que “terminou uma vida de fantásticas realizações, mas ficou connosco uma obra imortal”.
Bordalo também foi censurado pela sua caricatura
João Paulo Cotrim e Isabel Castanheira ambos iniciaram a sua intervenção prestando homenagem à memória dos caricaturistas e demais vítimas que foram brutalmente assassinados na sede do jornal francês Charlie Hebdo, conhecido pelas caricaturas contundentes que publicava. Recordaram que também o autor da figura popular Zé Povinho era uma pessoa ligada à caricatura portuguesa e que na altura foi censurado pelo seu humor politico. “Tantos problemas teve com a censura e que era reconhecido pela coragem com que caricaturava personagens e fatos”, disse a ex-proprietária da Livraria 107.
Antes de dar início à sua apresentação, Isabel Castanheira proferiu umas breves palavras de saudação “à direção, professores, alunos e demais colaboradores – os atuais e antigos – da escola Rafael Bordalo Pinheiro”, sublinhando que “muito do que a cidade é, deve-o em parte aos antigos estudantes desta escola que na sua vida prática com dedicação aplicaram os conhecimentos aqui adquiridos, honrando o nome do patrono da sua escola”.
Seguiu-se a sua apresentação “Variações Caldenses” ou uma repórter em serviço nas Caldas da Rainha, que foi o tema da sua conversa. A oradora, que lançou recentemente o livro “As Caldas de Bordalo”, transformou-se em Maria Paciência e fez uma breve digressão pela obra gráfica de Bordalo Pinheiro que tem por enfoque as Caldas. Acompanhada por Bordalo percorreu os locais que o artista referiu nas suas publicações nos Pontos ii, n’O António e n’A Paródia. “Com um lápis bem aguçado, aliado a um espírito de fina crítica, lega-nos um precioso conjunto de croquis, em que a sociedade caldense é analisada à lupa, com graça, humor e ironia. Ainda hoje nós, caldenses, muito lhe agradecemos”, disse Isabel Castanheira.
João Paulo Cotrim, editor e investigador sobre a vida e obra de Bordalo e Isabel Castanheira também começou a intervenção recordando o ataque ao jornal francês Charlie Hebdo, recordando que considera que o artista não tem sido devidamente estudado, sublinhando que “deveria ser visto como um todo”. “Tem sido estudada a sua obra cerâmica, a sua caricatura e a sua banda desenhada, mas falta investigar Rafael Bordalo Pinheiro como artista total, muito moderno e contemporâneo no sentido que ele é a personagem principal do seu teatro”.
Ao longo da sua intervenção. João Paulo Cotrim foi mostrando vários trabalhos gráficos de Bordalo sobre a sua vida e sobre a sua intervenção política. Referiu ainda que Bordalo é um “artista atípico porque teve sucesso desde muito cedo, quando a sua obra começou a ser apreciada por colecionadores”.
Para o editor, o artista possuía um talento extraordinário que merecia “lugar no Panteão”.
O próximo colóquio terá lugar no dia 30 de janeiro e contará com as intervenções dos investigadores João Serra, Mário Tavares e Rui Lopes.







0 Comentários