Mais Conversas – Como começou esta sua vida e paixão pelas corridas?
Jorge Serrazina – Foi sem esperar, há 11 anos, quando um vizinho me convidou para dinamizarmos uma secção de atletismo em Óbidos, para tirar partido da pista de tartan do complexo municipal. Porque entendi que não devia fazer parte de uma secção sem que, também eu próprio corresse, comecei a fazer uns treinos. Daí por três semanas havia uma prova na Serra dos Candeeiros e decidi inscrever-me. Comecei logo por fazer 17km com meia dúzia de treinos. Claro que não correu bem, mas era o princípio.
MC – E nunca tinha corrido?
JS – Pouco! Já tinha feito a Meia-Maratona da Nazaré nos anos 80, mas depois disso, nada.
MC – E daí até às Ultra-Maratonas?
JS – Depois da Serra do Candeeiros as coisas começaram a acontecer. Corrida do Tejo, Meia-Maratona da Nazaré e por aí fora. No ano seguinte começou o bichinho das corridas na natureza. Participávamos em corridas de pequenas distâncias. Depois tenta-se a maratona e depois disso é que se começa a ganhar vontade de aumentar as distâncias e é quando começamos no Alpino Madrileno, que fiz durante 7 anos, considerada, na altura, a corrida mais difícil do Mundo.
MC – Isto de aumentar distâncias, na sua cabeça, tem um limite?
JS – (risos) Não sei se tem…a minha maior distância foram os 330km do Tour des Géants com um desnível acumulado positivo de 24km. Estamos a falar em cerca de 110 horas de corrida e que é uma prova com trilhos muito técnicos e muito difíceis e com um tempo de descanso acumulado de cerca de 9 horas nestes mais de 4 dias. É, talvez, a prova mais difícil do mundo.
MC – Como funciona uma prova destas de 110 horas? Como é que se gere o tempo, a corrida e o descanso?
JS – Uma prova destas não se prepara…nós quando participamos pela primeira vez, vamos andando e vamos vendo como se reage. Não há obrigatoriedades nenhumas, cada um faz a gestão do seu tempo. Eu, pessoalmente, aproveitei os pontos de comida e os abrigos de montanha para me ir alimentando e para ir descansando. Por exemplo, nestas passagens tomei 6 banhos e mudei de roupa para me sentir “novo”. A partir daí fiz gestão destes 4 dias. Quando começava a subir as montanhas mais complicadas, descansava nos abrigos e depois então continuava.
MC –Há muitos riscos nestas corridas?
JS – Não há nada sem risco! Mas se formos bem preparados, minimiza-se a maior parte deles. Mas também a organização tenta acompanhar o esforço dos atletas. Por exemplo, na minha segunda participação no Tour des Géants, depois de passados 200km, com o corpo a rejeitar a alimentação, fui impedido de continuar pelo médico da prova.
MC – E vai continuar a fazer estas provas?
JS – Eu gosto muito de diversificar. Já fiz três vezes o Monte Branco (NR – Prova de 100 milhas = 166km). Mas pelo meu gosto de ir variando e, como há tantas coisas novas a aparecer, quero experimentar outras regiões e outros trilhos.
MC – É nessa diversificação que entra o Everest?
JS – Sim, é verdade. Este ano, em novembro vou para o Nepal para fazer uma prova no Everest (ver caixa), organizada por gente de Espanha mas onde “só” vamos subir até aos 4.200m de altitude. É mais uma experiência.
Jaime Feijão
CAIXA
7º da Geral e 1º do Escalão no Everest
Jorge Serrazina terminou na passada quarta-feira a Everest Trail Race no 7º lugar da classificação geral, tendo sido o melhor dos quatro portugueses participantes e o 1º do escalão de mais de 50 anos.
Mais uma participação de excelência do atleta que vem dinamizando as corridas da natureza na Região Oeste e que tantos seguidores já leva. Certamente, a curto prazo, outros nomes se começarão a falar neste género de desporto.






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