Jornal das Caldas – Engenharia aeroespacial é um curso considerado difícil. Como lhe deu a ideia de seguir esta área?
Nuno Filipe – Para ser sincero, eu nem sabia que havia esta área. Quando andava no 12º ano a pensar para onde devia seguir os meus estudos deparei-me com este curso que me interessou desde logo. Como, felizmente, tinha notas que me permitiam ingressar, graças ao facto de ter 20 a matemática e 20 a física, tomei a minha decisão.
JdC – Logo de seguida um salto para a Holanda…
NF – Sim, primeiro com um projeto Erasmus fui para Delft depois, porque a universidade me proporcionou esta oportunidade, fiz aí o meu mestrado em engenharia aeroespacial.
JdC – Como são considerados os alunos do Técnico no estrangeiro?
NF – Na América, não há grandes referências, mas na Europa os alunos do Técnico estão bem vistos. E devo dizer que bem preparados. A formação que nos é dada em Portugal permite-nos, em qualquer outra universidade, estar confortáveis e, muitas vezes, um bom bocado para além daquilo que é feito noutros países.
JdC – A primeira experiência profissional foi na Agência Espacial Europeia. A fazer exatamente o quê?
NF – Estive cerca de dois anos ligado à área dos satélites e participando no trabalho de elaboração de um satélite que está em órbita neste momento e que monitoriza e mede todas as áreas florestais do planeta, de forma a podermos saber qual a área verde que “ainda” temos.
Basicamente o meu trabalho é, de forma simples, elaborar um género de um piloto automático para o satélite. Dar-lhe toda a informação necessária para que ele tenha sempre a sua localização em relação ao sol e à terra e à rota que tem que cumprir. Trabalho com software mas também com hardware, sobretudo ao nível dos sensores que permitem que a localização esteja sempre atualizada.
JdC – E a passagem para os Estados Unidos, é inevitável para quem quer trabalhar nesta área?
NF – Diria que sim. É lá que estão as melhores condições para se poder evoluir. Estou neste momento naquela que é considerada a segunda maior universidade do ramo aeroespacial, apenas atrás do MIT. Ali tenho a possibilidade de desenvolver o meu trabalho da melhor maneira, inclusive de forma prática, pois no nosso laboratório temos uma réplica de um satélite no qual trabalhamos diariamente, onde implementamos os nossos desenvolvimentos e onde podemos testar tudo de uma forma muito real.
JdC – Está a terminar um doutoramento numa área onde imaginamos não existam muitos técnicos habilitados. E agora, quais as saídas?
NF – Felizmente já tenho alguns convites que estou a estudar de momento. Na realidade há muito interesse pelo meu trabalho e agora é uma questão que tem que ser ponderada a vários níveis, pesando a parte profissional, pessoal e familiar. Neste momento tenho a parte familiar a puxar-me para mais perto, mas tenho também a minha namorada que é americana e duas propostas nos Estados Unidos. Sinceramente, neste momento ainda não decidi onde vai ser o futuro, apenas que irei trabalhar nesta área.
JdC – Quando pensamos em espaço, pensamos, obviamente, na NASA. É um sonho ou nem por isso?
NF – Sim, poder trabalhar na NASA é um objetivo pois é um local que nos dá todas as condições para podermos desenvolver projetos que, noutros locais talvez não sejam tão fáceis. No entanto, há empresas comerciais que também são muito interessantes. Desde logo a europeia Airbus, ou as americanas Lockheed e Boeing, onde são construídos a maior parte dos satélites comerciais. O único lugar que me está vedado e isso já me foi dito, é na área da defesa norte-americana, simplesmente pelo facto de ser estrangeiro.
JdC – O doutoramento baseia-se em quê?
NF – Na área dos satélites há uma coisa que ainda é muito limitativa que é a duração de permanência em órbita. Uma coisa que seria importante conseguir era como que um reabastecimento de forma a que possa continuar o seu trabalho e não ter que o desativar. Daí que há uma base de estudo que nos leve a conseguir prolongar a esperança de vida do satélite.
JdC – Por tudo isto, Portugal não é uma opção de futuro, certo?
NF – Bem, Portugal a mim, honestamente, interessa-me por quem tenho cá. E claro que me sabe bem regressar aos meus locais de infância, mas pouco mais. Por isso, claro que continuarei a vir cá, mas sim, o meu futuro passa por ficar no estrangeiro, como aliás vem sendo há 7 anos.
Jaime Feijão





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