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Carlos Sá

“Melhorámos atendimento dos doentes e condições de trabalho dos profissionais de saúde”

Francisco Gomes

EXCLUSIVO

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Carlos Sá, administrador do Centro Hospitalar do Oeste (CHO), fez ao JORNAL DAS CALDAS o balanço do primeiro ano de atividade após a fusão das unidades hospitalares das Caldas da Rainha, Peniche e Torres Vedras. Os políticos já pediram a sua demissão, considerando que tem vindo a desmantelar os serviços e o património hospitalares, mas o gestor responde que focou o seu trabalho na prestação de cuidados de saúde aos utentes e que há agora melhores condições do que existiam, quer em equipamentos e valências, o que se reflete, assegura, na melhoria do atendimento dos doentes.
Carlos Sá fez ao JORNAL DAS CALDAS o balanço do primeiro ano do Centro Hospitalar do Oeste

JORNAL DAS CALDAS: O seu nome tem sido constantemente alvo de contestação por parte de autarcas e políticos das Caldas da Rainha. É acusado de estar a desmantelar o centro hospitalar. Como responde a esta acusação?

Carlos Sá: Há muita gente a falar sobre tudo mas muito pouca gente a saber do que fala. Se quisesse desmantelar o hospital não investia um milhão de euros em equipamentos de radiologia, em equipamentos de oftalmologia, não alargava a consulta externa e a atividade cirúrgica do bloco ao período da tarde.

Entendemos que nos devemos concentrar na prestação de cuidados de saúde agudos aos doentes e não no património, porque o centro hospitalar, quando cheguei há três anos, já não tinha capacidade financeira para gerir o Hospital Termal. A situação que tínhamos era de sistemático fecho e a solução encontrada foi entregar a gestão a quem tem capacidade para gerir e recuperar o património.

E não se pode defender que há uma prevalência de Torres Vedras sobre Caldas da Rainha, até porque os fatos dizem exatamente o contrário. Este ano só houve investimento nas Caldas.

Alargámos valências que não tínhamos, instalámos equipamentos que não existiam, como TAC, fizemos obras no hospital, na ginecologia, na cirurgia de ambulatório, na área de radiologia, de imuno-hemoterapia, melhorámos os espaços para a pediatria, fizemos a retoma da área de oftalmologia, adquirimos equipamentos para o bloco, tudo isto numa situação orçamental muito complexa.

Esquecendo as questões de política e focando no essencial, que é a prestação de cuidados de saúde aos utentes, respondo com números, e nesse âmbito, o balanço do primeiro ano de atividade do CHO é extremamente positivo. Criámos melhores condições para atender os doentes e isso é visível.

Neste primeiro ano temos ganhos em saúde para as populações, ou seja, as pessoas são tratadas mais depressa.

Conseguimos reduzir a lista de espera para consulta em 16,7% em relação a novembro de 2012, o que significa que há menos 2145 doentes à espera de consulta, no total das especialidades. Na cirurgia programada houve mais 355 doentes operados do que no ano anterior e mais 570 doentes operados no ambulatório (mais 19,8%). Na lista de inscritos para cirurgia há menos 857 doentes (menos 34,2%)

As listas de espera ainda são grandes e concentradas em duas áreas, cirurgia e ortopedia, e em especialidades em que só temos um médico, como dermatologia. O CHO fez aumentar o número de médicos por especialidade. Em 2012 admitiu 7 e este ano 17. É nosso objetivo em 2015 chegar a três ou quatro médicos por especialidade.

“Há um pequeno grupo de profissionais que quer criar a ideia de que há muita contestação”

JC: Porque é que há então tanta conturbação em seu redor?

CS: Não sei explicar porque é que surge conturbação. Terá de ser perguntado às pessoas que a levantam. Fizemos para que não aconteça, organizámos grupos de trabalho com quem temos discutido a reorganização, com Câmaras, organizações de utentes e profissionais.

Já agora, acusam-nos de falta de diálogo e colaboração, mas convidámos a Câmara para vir visitar o hospital no dia 12 e ver o que foi feito este ano e fazer o ponto de situação relativamente à nossa atividade. Até agora não obtivemos resposta.

Também nos disponibilizámos para prestar esclarecimentos na Câmara sobre a questão dos médicos na urgência, mas não fomos ouvidos.

Sinto que há um pequeno grupo de profissionais que quer criar a ideia de que há muita contestação, por razões que temos dificuldade em entender.

Pode haver luta por alguns interesses individuais. Pessoas que trabalham no hospital e simultaneamente têm em atividades fora do hospital e noutros grupos.

Eu gostaria era de ver essas pessoas a convocar a população e as forças vivas da sociedade para em conjunto nos ajudarem a adquirir equipamentos.

JC: Quando foi nomeado, da primeira vez, para o então Centro Hospitalar do Oeste Norte, pelo Governo socialista, o PS das Caldas mostrou-se contra. E depois de reconduzido pelo Governo PSD, mantém-se a oposição do PS…

CS: Estou cá como gestor profissional. Há 28 anos que trabalho no setor da saúde. Aceitei em 2010 vir reerguer o centro hospitalar, que estava numa situação degradada e o conselho de administração não funcionava. Não havia dinheiro para medicamentos, consumíveis e salários. Hoje há dinheiro para pagar.

Conseguimos reequilibrar o centro hospitalar em termos orçamentais.

O prazo médio de dívidas a fornecedores há três anos era de 322 dias. No final do mês passado foi de 85 dias. O valor era de 43 milhões de euros e projetamos terminar o ano com 5 milhões.

Os meus colegas andam num carro de gama mais baixa e eu não tenho motorista. Na administração não há ar condicionado. Não é posto enquanto não houver em todos os internamentos,

Também há uma ideia peregrina de que no conselho de administração não há ninguém das Caldas da Rainha, mas não terá havido interesse da parte de médicos das Caldas em fazer parte. De qualquer forma, os conselhos de administração devem ser constituídos por pessoas dedicadas e com vontade de fazer coisas, independentemente da origem.

Já disse que estamos melhores do que estávamos, com melhoria de condições de trabalho dos profissionais e atendimento dos doentes.

JC: Os últimos protestos tiveram a ver com os médicos na urgência à noite e com a dispensa de enfermeiros…

CS: Desde 2007 até março deste ano, houve sempre dois médicos na urgência no período da meia-noite às oito da manhã. Em abril, com a junção de vários serviços, entendemos experimentar aumentar para três, mas passado o período de seis meses concluímos que não houve aumento de atividade.

Esta atividade nunca foi contestada pelo diretor do serviço de cirurgia de 2011 até março de 2013, o atual representante da Ordem dos Médicos. Se nunca contestou que esse número colocava em risco a segurança dos doentes, então porque é que agora há?

O valor a pagar ao terceiro médico durante a noite é necessário para contratar outros médicos, como oftalmologista, oncologista ou médicos de urgência de outras especialidades. Estamos a gerir os recursos, sem penalizar a prestação de cuidados de saúde.

Quanto aos enfermeiros, a lei obriga a que todos os funcionários públicos passem a ter 40 em vez de 35 horas semanais de trabalho. Como há 550 enfermeiros, passámos a ter mais 550 horas de enfermagem por dia. Das 62 pessoas que estavam contratadas por uma empresa decidimos manter praticamente metade, sem penalizar a qualidade da prestação de cuidados. Até passámos a ter mais horas do que tínhamos antes da lei, mesmo dispensando estas pessoas. Herdámos uma situação de folgas acumuladas, que vinham de 2005, mas as horas a mais vão ser recuperadas até ao primeiro trimestre de 2014.

“Hospital Termal está nas mãos da Câmara e da Direção Geral do Tesouro e Finanças”

JC: Quando é que o Hospital Termal passa a ser gerido pela Câmara?

CS: O Hospital Termal está nas mãos da Câmara e da Direção Geral do Tesouro e Finanças. O CHO está a colaborar no sentido de conseguir o mais rapidamente a solução, mas neste momento a responsabilidade na gestão desse processo está na mão dessas duas entidades. A gestão do Parque e da Mata também. Ainda somos nós que fazemos, com o apoio da sociedade civil e não tem faltado nada.

JC: E vai ficar resolvido o impasse na reformulação das obras realizadas pela Câmara junto do Hospital Termal?

CS: Temos total disponibilidade para resolver a questão. Não faz sentido ter o estacionamento como está. Tem de ser melhorado. Não sei se a Câmara apresentou alguma proposta ao gabinete de planeamento do CHO.

JC: O CHO já autorizou a transferência provisória do Mercado da Fruta para a zona que lhe pertence nas traseiras do Chafariz das 5 Bicas, enquanto decorrerem obras na Praça da República?

CS: A Câmara fez chegar uma proposta que não nos parecia viável, porque é nessa zona que é feita a carga e descarga de tudo o que vai para o hospital, já que é onde está o armazém. A contraproposta é para ocupar metade da área mais próxima do chafariz.

JC: Um ex-administrador alertou para o risco de contaminação do aquífero termal por causa de obras de alcatroamento nas traseiras do Hospital…

CS: Antes de fazer as obras, pedi um parecer ao diretor técnico da estância termal, que disse que não há qualquer risco de infiltração. Melhorámos o espaço à volta do hospital, mas há pessoas que têm dificuldade em dizer bem.

JC: Quais são as prioridades para 2014?

CS: Vamos aumentar a atividade cirúrgica do bloco à tarde, alargar a atividade da consulta externa à tarde, fazer obras na urgência nas Caldas e implementar sistemas de gestão interna para monitorização dos consumos. Queremos reduzir as listas de espera de consulta e de atividade cirúrgica.

Em Torres Vedras vamos fazer as obras necessárias para transferir a atividade que está no Hospital do Barro para o Hospital de Torres e no que diz respeito à maternidade vamos desenvolver um plano de marketing para atrair mais grávidas para Caldas da Rainha, de forma a não reduzir os partos.

Em Peniche, temos defendido junto da tutela a criação de uma unidade de cuidados continuados.

Francisco Gomes

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