Na entrevista que concedeu ao Jornal das Caldas, Rui Correia reiterou o clamor por uma câmara capaz de dotar a cidade de uma visão de futuro. O mito de que as três décadas da era Costa foram marcadas por um vácuo organizativo, porém, não constitui mas que isso mesmo: um mito. O drama que vivemos não brota da ausência de uma estratégia para a autarquia. Pelo contrário, aliás: durante os seus sucessivos mandatos em que liderou a câmara, Fernando Costa aplicou à cidade uma avalanche de projetos – ou propostas de desígnio, como prefeririam os socialistas. À ambição inicial de fazer das Caldas uma cidade cultural, seguiu-se o objetivo de transformá-la numa urbe desportiva. A vontade de atribuir uma identidade específica ao município, compreende-se agora, esteve sempre presente na mente de Costa. E, note-se, sem grandes resultados.
Hoje, conhecido o falhanço de ambas as iniciativas, o razoável seria afastar de nós a tentação de olhar para a câmara municipal como repositório da nossa identidade comunitária. A noção de que é aos burocratas que cabe a definição daquilo que devemos ser enquanto coletividade não é apenas perigosa: é um fator de desperdício e empobrecimento. Enquanto nos concentrávamos na construção de museus que hoje estão desertos, esquecemos a resolução de problemas reais que afetam milhares de caldenses.
Nenhum projeto autárquico faria tanto pela cidade como um que se coibisse de impor-lhe um modelo de futuro. É tempo de compreendermos isso. Rui Correia e Fernando Tinta Ferreira podem discordar quanto aos fins, mas partilham o mesmo método de ação. Vença quem vencer, a nossa identidade comunitária continuará a ser manipulada pelos burocratas dos paços do concelho. Pode parecer pouco, mas não é. Se pertencer aos estrategos da câmara, a cidade continuará distante do único desígnio que importa adotar: a liberdade de definir-se a si mesma. E isso é algo que nenhum caldense deveria aceitar.
Rafael Borges



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