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Problemáticas do turismo residencial

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Sou apenas mais um recém-licenciado entre tantos outros, “prisioneiro” em um País isento de oportunidades de vida futura. Licenciei-me em Turismo na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar em Peniche e de momento não sei o que a vida me reserva, face a decadência que o país enfrenta eu, como milhares de compatriotas portugueses, esperemos que melhores dias cheguem, contudo a situação não se revela promissora e receio que o pior ainda esteja para vir. Infelizmente a lógica elitista que perdura em Portugal é um reflexo daquilo que nós somos, contradizendo o que é na essência uma política de sustentabilidade.

Contudo, pretendo alertar os caríssimos leitores que a razão pela qual eu estou a escrever não se deve a temas centrais e de cariz mais contextualizado relacionados com as problemáticas do país, pois para esse feito já bastam as situações ocorrentes no quotidiano de cada um de nós, mas sim de uma temática, eu diria melhor a um negócio que ainda assim consegue ter um peso relevante no PIB nacional apresentando uma fatia de 9% segundo as estatísticas apresentadas este ano, estando a referir-me ao Turismo.

Felizmente para nós valha-nos o sol, mar e marisco pois senão, não sei o que seria deste setor em Portugal, pois infelizmente se têm cometido muitos disparates ao longo dos anos que no meu parecer não beneficiam em nada o desenvolvimento e crescimento sustentável do país, como é o exemplo de uma variante apelidada de “Turismo Residencial” e “Resorts Integrados”, que segundo a minha opinião e de outras pessoas envolvidas na área está a ser um dos catalisadores da ruína do Turismo em Portugal, principalmente na Região Oeste.

Falando concretamente, o que é o Turismo Residencial? Bom, não é nada mais, nada menos do que a aquisição de segunda residência em Portugal seja por “séniores” ou “não séniores”. Este contexto surgiu no ano de 2007 no âmbito do Plano Estratégico Nacional do Turismo, mas será correto apelidá-lo de turismo? Se pensarmos bem não será apenas uma questão de estratégia de marketing para apelar aos mercados estrangeiros incentivando à compra de segunda residência? Perante esta transparência de conceitos apenas posso afirmar que na essência correta se trata apenas de negócio imobiliário e é disto que o turismo se trata? Não me parece que assim o seja.

Afirmavam algumas correntes de pensamento que o futuro estava na segunda residência (casas luxuosas), então de um momento para o outro propagou-se de tal forma, que observando hoje é evidente o excessivo investimento imobiliário no que toca à segunda habitação com níveis de luxo “fictícios”. Ter-se-á de questionar devidamente se Portugal terá capacidade para sustentar este tipo de oferta, que se caracteriza por um standard bastante luxuoso. Simplesmente não, pois de acordo com os comportamentos atuais e graus de exigência nomeadamente do mercado Britânico e Nórdico, os nossos graus de qualidade não se enquadram na exigência destes mercados, sendo comprovado com a excessiva oferta na zona Oeste, onde muitos empreendimentos se encontram abandonados, estando muitos deles localizados fora das áreas urbanas, em locais isolados, aguardando pois a expansão dessas mesmas áreas urbanas de forma a estas os absorverem.

Falando especificamente dos mercados emergentes, sendo esses o exemplo do Leste (Rússia) e do Asiático, há que entender, que este género de público, não tem interesse em adquirir segunda habitação num país longínquo, já que muitas das vezes as estadas não excedem um mês por ano, o que me leva a interrogar se na ótica destas pessoas constituirá alguma vantagem? Evidente que não, pois se necessitam de mais habitações adquirem-nas no seu país de origem. O que realmente desejam é um tipo de alojamento e serviços altamente personalizados de um luxo extremo (Hotéis topo de gama) e não de segunda habitação.

No entanto o que é deveras impressionante é que este ciclo vicioso não termina, pois recentemente o Ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas, veio reforçar a importância de vender as residências, consolidando como uma das intenções, a captação de capitais e investimentos estrangeiros. Naturalmente, que se pretende mitigar os prejuízos cometidos, mas infelizmente o Turismo Residencial estava condenado a tornar-se num fiasco devido a um planeamento económico insustentável, mas também devido uma análise de mercado medíocre sem rigor algum, pois para tal requere-se constante monitorização/observação.

O que me leva por fim a interrogar, dada a atual conjetura económica que o país atravessa é se, será admissível e benéfico persistir na aposta num mercado que tem dado provas de insucesso, no qual a procura não é suficiente para satisfazer a oferta existente e a prova disso mesmo é a insistência cega em apostar fortemente durante dois anos na promoção do Turismo Residencial, com um valor completamente absurdo de 828 mil euros.

Em suma, o Turismo Residencial foi uma grande “chapada” na economia portuguesa e no desenvolvimento regional, não só devido aos milhões investidos, como muitas empresas se viram forçadas a fechar as portas e muitos dos construtores ainda não foram devidamente indemnizados.

Filipe Oliveira

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