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EDITORIAL

Um burro carregado de livros é um doutor

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Quem é que nunca viu o filme português “A canção de Lisboa”? Se bem se lembram, o “Vasquinho” era um aluno cábula, que frequentava a faculdade de Medicina e vivia às custas das tias que moravam na província enquanto ele se divertia, em Lisboa, e ia gastando o dinheiro das referidas senhoras.

Os filmes portugueses protagonizados por atores como Vasco Santana, Beatriz Costa, António Ribeiro, Ribeirinho e tantos outros, faziam rir, apesar de exporem de uma maneira simples as facetas sociais de um Portugal muito diferente do que conhecemos hoje. Os seus enredos recorriam com frequência ao mal entendido, aos jogos de palavras e aos desencontros que acabavam sempre por ter um final feliz, já que o seu principal objetivo era o entretenimento, havendo, no entanto, uma finalidade moralizadora.

O filme a que temos assistido nos últimos dias sobre o ministro Miguel Relvas tem alguns ingredientes da velha escola do cinema português, ora vejamos: há um protagonista que não fez os seus estudos em tempo próprio, não sabemos se foi por ter tido dificuldades ou por ter precisado de ir trabalhar primeiro, como acontece com muitas pessoas, mas que esteve muito ocupado com cargos políticos e a ser presidente de qualquer coisa … Como o tempo foi passando e o rapaz não tinha um canudo que comprovasse ao mundo que já era doutor, lembrou-se de bater à porta de uma Universidade em que alguns responsáveis ficaram impressionados com o seu currículo e decidiram transformar os diferentes cargos que ocupou em créditos para fazer as diferentes cadeiras…

A abordagem deste tema não é novidade, há uns tempos assistimos a outro filme em que um primeiro ministro fez uma cadeira (disciplina) por fax… e, apesar da crítica, dos mal entendidos, dos jogos de palavras, o final, se não foi feliz, também não foi o esperado pelos espetadores: ninguém se demitiu, a licenciatura não foi cancelada e não foi por isso que deixou de ser primeiro ministro.

Num país em que os títulos académicos são sobrevalorizados e ter um canudo é mais importante do que o saber, não admira que haja quem peça para ter um título de Dr. ou Eng.º até num cartão bancário. Só num país como o nosso se obtém um título académico por vaidade. O expoente máximo destas situações é a atribuição de doutoramentos “honoris causa” a certas pessoas, o que ninguém compreende.

Bem diz o povo, na sua infinita sabedoria: “Um burro carregado de livros é um doutor”, mas como os provérbios são intemporais, mais valia dizer que “um burro carregado de cargos é um doutor”!

Tendo em conta o gosto nacional por estes filmes, outros virão. Estejam atentos, pode estrear um destes filmes perto de si!

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