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Mudar de casa

Isabel Vasco Costa

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Camila mudou de casa há cerca de duas semanas. Nada de extraordinário, exceto pela aventura que isso representa quando ambos, ela e o marido, são já pessoas bem entradas na chamada terceira idade. Mas, o que de verdade impressiona, são as ilações que a minha amiga fez a propósito desse facto.

Tudo aconteceu de modo inesperado: o casal sempre desejara possuir casa própria, mas as poupanças conseguidas nunca chegavam para acompanhar a inflação até que a crise o favoreceu: os preços dos andares baixaram e …”finalmente casados, com casa” dizia ela rindo nos seus 44 anos de matrimónio feliz.

“Sabes? Tudo isto me parece um sonho. Tem-me feito pensar na minha última mudança … para a verdadeira felicidade, pois espero conseguir, mais uma vez, aquilo que não mereço. Será verdadeiramente um presente.”

Achei a ideia interessante e pedi-lhe mais explicações.

“Olha, antes de mais é preciso saber se queremos de verdade ser felizes para sempre e se estamos dispostos a pagar um alto preço, tal como na compra de um apartamento. O céu só se alcança com a santidade. E a santidade exige trabalho árduo e luta persistente. Também é preciso sorte e prudência, pois podemos deparar com pessoas que nos enganam. Até pessoas amigas nos podem enganar (para serem simpática), dizendo, por exemplo, que o inferno não existe e que, portanto, é preciso gozar esta vida terrena. Confessar-se? Para quê? Se Deus é tão bom! Agora que comprámos o andar, noto como Deus seria injusto se, depois de nos convidar a segui-lo, também na Cruz, premiasse todos do mesmo modo. Quantas vezes nos sentimos cansados de tantas economias (férias na cidade, refeições em casa, roupa barata…)! Afinal, valeu a pena.

Acredito que o céu vale ainda mais e que os grandes santos, sendo a Virgem Maria a primeira, terão uma fantástica mansão no paraíso. Pensamos também que nos convinha uma casa mais pequena, mas mais confortável devido à nossa idade: os filhos já não vivem connosco, temos menor resistência às mudanças de temperatura e cansamo-nos ao subir escadas. Assim, tivemos de nos desfazer de muitas coisas que antes nos pareciam imprescindíveis. Deduzi que se passará o mesmo quando a época terminal chegar: teremos de aceitar perder a visão, ou o andar, ou a memória, ou o ouvido, o tato, a energia…No entanto, tivemos o cuidado de guardar objetos que estão relacionados com a história da família.

Compete-nos a responsabilidade de os conservar em bom estado, assim como de manter viva a memória dos antepassados que os usaram. Sentimo-nos como os corredores que passam o testemunho uns aos outros, sem o deixar cair, pois perderiam a corrida devido à demora de voltar atrás para o recolher. Imagino que, no céu, poderei reconhecer as pessoas que, desde criança, me passaram o testemunho da Fé: os meus pais e avós, as empregadas, as professoras, o meu primeiro diretor espiritual… que me ajudaram a “comprar o apartamento do céu”, tal como os pais e um banco me emprestaram algum dinheiro em certas épocas difíceis da vida.

Comparo a doença final com a época em que ainda possuímos as duas casas: as contas são a dobrar (água, gás, eletricidade, deslocações…) o cansaço aumenta e temos de adaptar-nos à ideia (e à realidade) de trocar o nosso “pequeno mundo” por um outro desconhecido: onde está o açúcar, os lençóis? Onde fica o talho, a padaria? Qual o melhor caminho para a baixa? Depois, verificamos que existem mais comércio e transportes na nova zona e que nos armários há lugar de sobra para tudo ficar em ordem. Tal como acontecerá no céu. Melhora ainda, a capacidade de receber: a sala é maior, a decoração está mais cuidada e os objetos bonitos já podem estar expostos sem correrem o risco de serem vandalizados pelos filhos. Com a mudança, o coração como que cresce, torna-se mais hospitaleiro. Na casa nova só há amor”

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