Em 1976 a população de Ferrel manifestou-se contra a instalação da central nuclear ( foto: José Nascimento)
Evocada luta contra central nuclear em Ferrel
21 de Março, 2012
Fez 36 anos na passada quinta-feira que o povo de Ferrel, em Peniche, se manifestou e parou os trabalhos para a construção da central nuclear projetada para o território da então aldeia. A fim de marcar essa data decorreu um dia antes uma sessão na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar de Peniche, […]
Evocada luta contra central nuclear em Ferrel
Fez 36 anos na passada quinta-feira que o povo de Ferrel, em Peniche, se manifestou e parou os trabalhos para a construção da central nuclear projetada para o território da então aldeia. A fim de marcar essa data decorreu um dia antes uma sessão na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar de Peniche, com a presença de quatro intervenientes nos acontecimentos de Ferrel – os presidentes da Câmara Municipal de Peniche, António José Correia, e da Junta de Freguesia de Ferrel, Silvino João, o ambientalista e especialista na área da Energias em Portugal, António Eloy, o diretor da Gazeta das Caldas, José Luís de Almeida Silva, que organizou em 1978 o Festival Pela Vida e Contra o Nuclear. Desta comemoração fez parte o International Uranium Film Festival, que acontece pelo segundo ano consecutivo no Brasil, sendo esta uma extensão do festival de filmes sobre energia nuclear em Portugal. Na iniciativa puderam ser vistos os filmes “Urânio em Nisa Não!”, que relata a forma como, em 2008, a população nisense se mobilizou para dizer não à exploração da jazida de urânio, o documentário norte-americano “Yellowcake”, sobre o impacto das várias fases da produção de energia nuclear nos EUA, no meio ambiente e na vida das populações, e “Pedra Podre”, que retrata as centrais nucleares do Brasil. Foi a 15 de março de 1976 que, em resposta ao badalar incessante dos sinos da sua igreja, os habitantes de Ferrel saíram à rua, interromperam os trabalhos da instalação da central nuclear, na zona do Moinho Velho, fecharam as valas abertas e avisaram que se houvesse reinício ali voltariam para destruir o que fosse feito. Quando as obras apareceram, ninguém sabia o que era, apesar dos pedidos de explicações. Depois de se conhecer o que estava a ser construído, a população manifestou-se. António José Correia, atual presidente da Câmara Municipal de Peniche, na altura era um jovem trabalhador estudante e diretor de um jornal local – “O Arado” – e para além de participar na marcha, efetuou também a cobertura jornalística. “Foi a primeira manifestação ambientalista com muita genuinidade. As pessoas apareceram de trator, de burro, de bicicleta, de moto e de carro. A dado momento ouviu-se a expressão ‘força, força, é partir essa m…já’, que reproduzi no jornal, mas foi extremamente pacífica e ninguém partiu nada”, relatou. “As nossas fotografias foram utilizadas pelo jornal “O Século” e houve uma frequência de vários jornais, como o “Expresso”, e foi um grande pretexto para outras manifestações e debates”, disse o autarca, apontando que “a luta valeu a pena. Era uma causa justa e pôde-se ver a força da participação cívica”. “O nosso potencial são as energias limpas. A energia eólica e das ondas são alternativas não poluentes e que estão em estado tecnológico avançado”, frisou António José Correia, que destacou que “se tivesse sido construída a central, Peniche não era o que é hoje, e podíamos esquecer o turismo ligado às ondas e o potencial hortícola”, opinião partilhada por António Eloy. “Nuclear não, obrigado”, foi uma expressão usada na altura. A marcha foi considerada fundamental. Uma população essencialmente rural tomou em mãos uma luta, no anonimato e sem grandes apoios exteriores. Silvino João recordou que a partir desta manifestação houve outras, vincando, orgulhosamente que “os terrenos onde era para implementar a central nuclear, hoje são uma boa zona para a agricultura”. Em março de 1976, num debate público realizado na Casa da Cultura, nas Caldas da Rainha, a central foi igualmente rejeitada pelos participantes no encontro. Em abril, Walter Rosa, ministro da Indústria do I Governo Constitucional, anunciava que a Junta de Energia Nuclear ia lançar uma campanha informativa “para que se saiba que uma central nuclear tem condições de segurança e não há riscos”. O ministro defendia que as probabilidades de acidente eram “extremamente remotas” e que as condições de segurança das centrais nucleares eram “extraordinárias”. “Ver a televisão traz um aumento de radiação numa sala idêntico àquele que tem uma central nuclear na sua vizinhança. E todavia não tem medo da televisão, pois não?”, comentava ´Walter Rosa à revista Raiz & Utopia. Em fevereiro de 1977, o movimento Viver é Preciso lançava um apelo nacional intitulado “Somos Todos Moradores de Ferrel” contra a então política pró-nuclear do Governo Constitucional do PS, onde pontificava um importante lóbi nuclear. Nesse manifesto podia ler-se: “Preparemo-nos. A contraofensiva das multinacionais nucleares está para deflagrar. É preciso que por toda a parte, nas escolas, nos hospitais, nos bairros e nas fábricas, nas faculdades e nas associações científicas, surjam comissões de solidariedade com a luta do povo de Ferrel. A região de Peniche tem já a sua CALCAN – Comissão de Apoio à Luta Contra a Ameaça Nuclear). Mas é bom que por todo o país a ameaça nuclear encontre uma frente unida de partidários da Vida”. “Quando os pescadores e camponeses de uma pequena aldeia marítima do litoral de Peniche tocam os sinos a rebate para dizer “não!” à central nuclear que lhes querem impingir, graças a eles, Portugal pode ser o primeiro país do mundo a pronunciar-se contra o holocausto nuclear no seu território”, era exortado. Em junho foi lançado um manifesto sobre política energética, por um debate nacional sobre a opção nuclear, subscrito por 110 cientistas e técnicos ligados ao problema nuclear, e em janeiro de 1978, nas Caldas da Rainha e em Ferrel, seria realizado o Festival “Pela Vida e Contra o Nuclear”, que reuniu cerca de três mil pessoas em debates, espetáculos e outras atividades, nos quais participaram nomes como Zeca Afonso, Vitorino, Pedro Barroso, Fausto e Sérgio Godinho. Relatos da época dão conta de que o então secretário de estado do Ambiente, Gomes Guerreiro, convidado para o Festival, tendo chegado a confirmar a sua presença, foi “coagido a estar ausente”. No entanto, enviou uma comunicação de apoio. “Lembrar-se-ão aqueles que estiveram presentes nas Caldas da Rainha a mobilização a que se assistiu e as falhas surgidas, essencialmente no tocante a infraestruturas para pernoitar, dado o boicote levado a cabo quer pela autarquia de direita quer por coletividades de “esquerda”, mas ninguém arredou pé e realizou-se uma caminhada alegre em direção ao local onde se previa a construção da central, onde os manifestantes encontraram uma força da GNR. Não houve incidentes e simbolicamente foram plantados alguns quilos de batatas oferecidos pelos camponeses de Ferrel”, é relatado no livro “Antes, Durante e Depois de Chernobyl – O nuclear no mundo e em Portugal”, publicado pela Associação Portuguesa de Ecologistas – Amigos da Terra (APEAT). “Dois gravíssimos acontecimentos vieram posteriormente dar razão àqueles que estiveram nas Caldas e em Ferrel: o primeiro ocorreu nos Estados Unidos, mais concretamente na central nuclear de Three Mile Island em 28 de março de 1979. O segundo na União Soviética, na central nuclear de Chernobyl, no passado dia 25 de Abril de 1986. Pelo caminho ficaram inúmeros “pequenos acidentes ou falhas em centrais ou noutro tipo de instalações nucleares de todo o mundo”, é descrito. O projeto nuclear acabaria por ser abandonado. “Ferrel contra o nuclear”, é o título do vídeo colocado no Youtube pelo caldense José Nascimento, que inclui fotos da época e que mostram o protesto da população. Francisco Gomes
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