“Gostava que o meu sucessor fosse tão sério como eu” Fernando Costa defende que o seu sucessor tem de ser uma pessoa séria, mesmo que seja de outro partido. Numa entrevista ao JORNAL das CALDAS, o presidente da Câmara que há 24 anos está no poder, considera que este é o mandato mais difícil por ser o último e por o país estar a atravessar um momento complicado. O autarca pretende que as forças de segurança divulguem os assaltos e furtos que ocorrem no concelho, para que as pessoas estejam mais preparadas e não sejam surpreendidas. Fernando Costa falou ainda do aumento da água, da crise financeira e daquilo que as pessoas pensam de si enquanto presidente de Câmara. Carlos Barroso JORNAL das CALDAS: Os Serviços Municipalizados vão aumentar a água no próximo ano? Fernando Costa: A água já não é aumentada há cinco anos e vamos fazer um ligeiro aumento na água, em cerca de um por cento ao ano, porque os custos subiram cerca de 20 por cento, sobretudo em energia eléctrica. Por isso temos de aumentar em cerca de cinco por cento. Aprovámos um preço mais moderado na Câmara para agregados familiares que tenham sete pessoas e que não tenham um rendimento superior a 1500 euros por mês. As isenções que damos a umas pessoas têm de ser pagas pelos outros. Se começarmos a inventar e a fazer muitos benefícios a uns, estamos a prejudicar outros. J. C.: E o saneamento no Município. É melhor continuar o alargamento ou optar-se por fossas sépticas? F. C. : As fossas sépticas também são saneamento. Deve haver saneamento com tratamento com ETARs, segundo as regras da Comunidade Europeia, para aglomerados de 500 pessoas. Nós temos saneamento para muito perto de 80 por cento do concelho e para povoações com cem e até cinquenta habitantes. Neste momento não vamos alargar muito a rede de saneamento, porque onde não há, é porque são zonas de população muito dispersa, como é o caso de Alvorninha, e aí vão funcionar as fossas sépticas, que é um sistema bom e barato. J. C.: É bom para as pessoas. E para a Câmara? F. C. : É bom e barato para as pessoas e para a Câmara, mas sobretudo para as pessoas. Quem tem fossa séptica gasta dez por cento ao ano em relação às outras pessoas. Não podemos estar a estender a rede a cem por cento, porque por causa de vinte por cento obrigávamos as outras pessoas a ter que suportar a subida de preço para o dobro. J. C.: Foi um bom negócio para a Câmara aderir à Águas do Oeste? F. C.: Tinha de ser, a partir do momento em que os Municípios acharam, e contra a minha opinião, transformar aquilo que era um investimento intermunicipal em supramunicipal. Uma coisa era criar uma empresa só com os municípios e outra foi criar uma empresa com 49 por cento dos municípios e 51 por cento das Águas de Portugal. Penso que decorrido este tempo não há volta a dar ao assunto. J. C.: Mas o preço da água vai aumentar por causa desta aderência? F. C.: Claro. Nós não precisávamos da água em alta. Estamos a comprar perto de dois milhões de metros cúbicos a um preço bastante elevado, na casa dos 66 cêntimos. É um preço muito alto e muito caro. Não precisávamos desta água, mas aderimos para termos uma garantia, no caso de uma emergência de faltar a água municipal, de podermos recorrer à água que vem das Águas do Oeste. J. C.: E é um bom negócio para a Câmara o contrato com a EDP? F. C.: Tem sido um negócio complicado, porque as perspectivas de receitas que a EDP dava não se concretizaram. Hoje possivelmente se a exploração fosse por um privado, se entregássemos a outra empresa poderíamos estar melhor. A Câmara das Caldas está a receber uma receita mínima por ano da EDP e por outro lado a EDP ainda não está a cumprir as obrigações que constavam do contrato. “A Câmara já foi assaltada em dezenas de milhar de euros” J. C.: Como é que vê o concelho em termos de segurança? O que lhe dizem as pessoas e os comerciantes? F. C.: Sinto preocupação. É evidente que existe uma maior insegurança em todo o país. O crime está organizado. Assaltos organizados, tanto a estabelecimentos como a residências. Começam a ser preocupantes os níveis de segurança no país. Este sentimento é muito mau para o turismo. É muito mau para a estabilidade psicológica das pessoas. Toda a gente começa a ter receio de um dia para o outro ser assaltada. J. C.: A Câmara tem sido assaltada? F. C.: Também temos tido diversos assaltos com dezenas de milhar de euros. J. C.: As forças de segurança, nomeadamente a PSP, optam por não divulgar os assaltos por causa das estatísticas. Dizem também que desta forma o sentimento de segurança é maior. O presidente da Câmara considera que se deveria divulgar ou continuar a omitir os assaltos? F. C.: Eu acho que deveriam de divulgar todos os assaltos. É preferível as pessoas estarem alertadas do que serem surpreendidas. É melhor pôr trancas à porta antes de casa roubada. J. C.: Como é que vê a saúde nas Caldas, quer no termalismo, quer nas urgências básicas e de emergência? F. C. : Nós estamos num momento de grave crise económica. O Estado tem muito menos receitas. O Estado não se pode endividar mais. Percebe-se que tenha de cortar em todo lado e tem de cortar onde faz menos mossa. Vejo isto com preocupação e percebo a razão destes cortes. Portugal e os portugueses viveram nos últimos 30 anos muito acima das possibilidades. Vivemos à custa de empréstimos e agora temos de pagar. Temos de friamente pensar que não pudemos fazer o tipo de vida que fazíamos, porque não há dinheiro para isso. J. C.: Fala-se que não há dinheiro para um novo Hospital nas Caldas ou para a ampliação do actual. Acha que deveriam ser feitas algumas obras? F. C.: Não havendo obras de fundo ou soluções, pelo menos deveriam melhorar a relação custo/benefício. Que se melhorem os serviços hospitalares, nem que sejam obras de carácter transitório ou provisório. “Recebo pessoas nas Caldas que dizem que a cidade é limpa” J. C.: Considera a cidade das Caldas uma cidade suja? F. C.: Muita gente queixava-se da falta de piscinas quando elas não existiam. Há pessoas que se queixavam de luz pública. Há certo tipo de pessoas que tem por natureza, por índole, queixarem-se de alguma coisa. Neste momento queixam-se da limpeza. As Caldas é mais limpa do que muitas cidades. Recebo pessoas nas Caldas que dizem que a cidade é limpa. Mas eu digo que é possível que seja mais limpa. Eu acho que a limpeza é razoável, mas para melhorar extraordinariamente a limpeza das Caldas, as pessoas tinham de passar a pagar muito mais. Nas minhas contas uma família nas Caldas paga menos mil euros por ano em impostos do que paga aqui num outro concelho ao lado. Se tivermos em conta a água, a recolha de lixo, os transportes urbanos, o preço dos parques de estacionamento, o IMI menos 25 por cento, o IRS menos 3 a 4 por cento. Se nós recebêssemos esse dinheiro, nós tínhamos 15 milhões de euros por ano e fazíamos muito mais coisas. J. C.: Não vai abdicar de cobrar menos impostos e com isso não contratar mais funcionários, mas tendo em conta o estado da cidade, não acha que pelo menos deveria de ser feita uma campanha de sensibilização para a limpeza da cidade? F. C.: Se me disser que há contentores que cheiram mal, é verdade. Mas isso acontece porque as pessoas põem o lixo directamente no contentor sem sacos. Eu julgo que se podia gastar menos dinheiro na limpeza se houvesse mais civismo por parte das pessoas. “Recebi centenas de mensagens a concordar com as minhas intervenções na televisão” J. C.: O que lhe dizem depois de o verem na televisão? F. C.: Recebi centenas de chamadas de todo o país e mensagens no Facebook a dizer que estavam de acordo com as minhas intervenções na televisão. Nós estamos a caminhar cada vez mais o rumo da Grécia. Ou há uma grande restrição das despesas do Estado e das Câmaras e das empresas públicas ou vai haver mais necessidade de mais ajudas. Sempre que vem uma ajuda externa, vai haver mais restrições às pessoas. Se todas as Câmaras, empresas e pessoas tivessem a mesma gestão rigorosa da Câmara das Caldas, Portugal não precisava destas medidas e restrições. Portugal está gravemente endividado e com graves prejuízos para as gerações futuras. A Câmara das Caldas não contribuiu para isso. Julgo que quem contribuiu para o endividamento do país deveria ser chamado à responsabilidade criminal. É lamentável que o país esteja numa grave crise e os responsáveis não são chamados à justiça. Na Islândia chamaram o Primeiro-Ministro e os bancos a tribunal. J. C.: Este é o seu último mandato como presidente de Câmara após 24 anos e não há nenhuma obra com o seu nome. Acha que a cidade lhe deveria fazer algum tipo de tributo? F. C.: Se não há obra com o meu nome é porque nunca quis. Já várias vezes este assunto foi abordado e nunca quis. Há uma cidade no país que todas as obras da Câmara têm o nome do presidente da Câmara. Eu não tenho o culto da personalidade. Não vou atribuir o meu nome a nenhuma obra. J. C.: E depois de ser presidente? F. C. : Depois se quiserem, eu já cá não estou para mandar nessa decisão, ficará com quem cá estiver. Percebo que na história de uma cidade se faça uma referência a uma obra a quem foi presidente de Câmara e que tenha tido mérito. “Prefiro uma pessoa séria e honesta de outro partido qualquer do que uma pessoa menos séria do PSD” J. C.: As eleições são daqui a dois anos. Qual será o perfil o seu sucessor? F. C.: Eu gostava que o meu sucessor fosse tão sério como eu. Fosse tão rigoroso a gerir o dinheiro da Câmara como eu para que a Câmara das Caldas nunca tivesse dívidas. É preciso ser rigoroso e sério. São duas grandes qualidades. De outra forma eu teria feito muitos negócios e contratos a lesar a Câmara em prejuízo de outras pessoas. Eu nunca fiz um negócio em que a Câmara saísse prejudicada. Todas as decisões financeiras da Câmara, passo-as a pente fino para que a Câmara não saia prejudicada. Porque quem sai prejudicada é o cidadão quem vai pagar essa gestão ruinosa. J. C.: E localmente vê alguém com esse perfil, seja do PSD, PS, CDS, PCP, Bloco? F. C.: A escolha é das pessoas. Mas digo-lhe que prefiro uma pessoa séria e honesta de outro partido qualquer do que uma pessoa menos séria do PSD. O governo da Câmara diz respeito a toda a população do concelho. Nada pior do que uma Câmara desonesta ou uma Câmara com falta de rigor ou corrupta. Mais do que o partido, valem as qualidades das pessoas. Quando as pessoas não forem sérias, a Câmara desliza para o endividamento. J. C.: Porque é que chega atrasado? F. C. : Muitas vezes chego atrasado porque tenho muito que fazer. Se tivesse apenas três ou quatro actos na minha vida, chegava sempre a horas. J. C.: Mas no aniversário dos bombeiros houve um atraso que não foi explicado… F. C.: Eu senti-me mal e eu sou o culpado. Eu não tenho motorista e não consigo cumprir um certo tipo de coisas e foi-me impossível chegar a tempo. Nota-se sempre o atraso do presidente da Câmara, mas chego muitas vezes a horas. J. C.: Mas tem noção que chega muitas vezes atrasado? F. C.: Normalmente chego um pouco depois, porque quando chego a horas há muita gente que fica envergonhada de eu chegar antes. “Nunca menti nem volto a mentir. Isto é outra graça” J. C.: Porque é que diz que se não fosse mentiroso não era presidente da Câmara? F. C. : Isso foi uma graça. Quando o Zé do Laço, do Boavista, me ouviu dizer que em 1954 eu tinha marcado um golo contra o Boavista, ele chamou-me mentiroso, porque não tinha sido eu a marcar o golo do Caldas, porque tinha sido o Leandro. Toda a gente percebeu que eu estava a brincar e eu disse-lhe que se não fosse mentiroso também não era presidente da Câmara. Foi uma graça, porque toda a gente percebe. Porém, há muita gente entende que é verdade, porque julga que todos os políticos são mentirosos. J. C.: E é ou não? F. C.: É um bocado verdade que muitos fazem promessas e não as cumprem. Se todos os políticos que fazem promessas não as cumprem, a conclusão é que são mentirosos. Se há políticos que falam verdade sou eu. Poucas promessas fiz que não tenha cumprido. No que me diz respeito, eu nunca menti nem volto a mentir. Isto é outra graça.
Fernando Costa em entrevista
13 de Outubro, 2011
“Gostava que o meu sucessor fosse tão sério como eu” Fernando Costa defende que o seu sucessor tem de ser uma pessoa séria, mesmo que seja de outro partido. Numa entrevista ao JORNAL das CALDAS, o presidente da Câmara que há 24 anos está no poder, considera que este é o mandato mais difícil por […]
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