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Morreu o Rui Hipólito

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“Apesar da nortada, sol e bandeira verde”, era este o teor do SMS da Rosa que recebi quinta-feira depois de almoço. Nem tive tempo de responder porque, às 15.09, ela telefonou e, enquanto eu lhe explicava que não podia ir à praia, ela informou-me “o Rui morreu”. Não precisou de dizer o Rui Hipólito, todos os seus amigos que […]

“Apesar da nortada, sol e bandeira verde”, era este o teor do SMS da Rosa que recebi quinta-feira depois de almoço. Nem tive tempo de responder porque, às 15.09, ela telefonou e, enquanto eu lhe explicava que não podia ir à praia, ela informou-me “o Rui morreu”. Não precisou de dizer o Rui Hipólito, todos os seus amigos que ouviram aquela frase naquele dia sabiam a quem se referia. Há cerca de dois anos que sofria de uma neoplasia disseminada por vários órgãos e, por isso, inoperável. Segundo os médicos sobreviveu este tempo devido a uma boa reacção da doença à quimioterapia, segundo os amigos que o conheciam sobreviveu graças sobretudo a um enorme gosto de viver, a uma inquietação existencial e uma enorme curiosidade por tudo quanto o rodeava. O Rui não queria morrer sem ler as notícias de amanhã, sem saber a última novidade caldense, sem ver o novo filme do Tarantino, sem conhecer as novas contratações do Sporting que iriam permitir finalmente que o seu clube fosse campeão! Também penso que foi essa força interior, esse apego a todos os pequenos momentos da vida que permitiram que ele sobrevivesse cerca de dois anos, mas era um jogo com o resultado falseado à partida. O funeral do Rui realizou-se na passada sexta-feira, às 16 horas, no Cemitério Velho. Como em todos os dias da sua vida esteve acompanhado de muitos amigos, de todas as idades, profissões e classes. O Rui era muito popular, conhecia e era amigo de toda a gente, mesmo daqueles que temiam as suas observações mordazes e cáusticas . como um homem do futebol que, quando vinha às Caldas depois de uma derrota, hesitava em ir à Praça onde sabia que o Rui lhe recordaria ironicamente o resultado. As tertúlias na Praça ou no Central, que mesmo doente continuou a frequentar, não serão nunca mais as mesmas. Optimista, *bon vivant*, sempre desprendido dos problemas (apenas o Sporting o deixava verdadeiramente amargurado), observador e comentador impiedoso da sociedade que o rodeava, amigo dos seus amigos, mais facilmente empenhado em projectos colectivos do que em ambições pessoais, o Rui sempre representou o que de sui generis e único existe (existiu?) na vivência caldense. Tinha cinquenta e cinco anos . Somos amigos desde a nossa infância, apesar de ele ser um pouco mais novo, porque eu e o seu irmão Tó Zé fomos sempre colegas. Cruzámo-nos depois no andebol e no futebol, onde nenhum de nós atingiu o merecido estrelato, e encontrámo-nos em Lisboa onde não fomos talvez alunos exemplares mas sempre noctívagos aplicados. Regressámos às Caldas, ele esteve no início do Cine Clube Caldense e depois ambos fizémos parte do grupo fundador da Cooperativa Margem e da Rádio do mesmo nome. O Rui esteve sempre no pequeno grupo que reanimou os encontros do ERO, era o “tesoureiro oficial” das diversas reuniões que se sucederam nos últimos anos. O seu entusiasmo e dedicação a estes projectos era inexcedível, a sua disponibilidade era total e sem calculismos, podia-se sempre contar com o Rui. Refilava a Arlinda, claro, e certamente com razão, porque ele dedicava sempre demasiado tempo e esforço a estas causas que nenhuma vantagem pessoal lhe traziam. Quem os conheceu sabe que a Arlinda era a força que fazia com que a vida pessoal e familiar do Rui funcionasse de forma organizada e ele sabia-o (embora se fosse sempre rebelando contra a sua “tirania”, como todos os bons maridos devem fazer). Os seus filhos são já adultos, o João tem vinte e cinco e a Mafalda vinte e três anos. O Zé Nascimento pediu-me um texto para o Jornal das Caldas. Colei uns pensamentos que me acudiram durante o seu funeral e espero ter evitado uma nota necrológica fúnebre que ele não merecia. Mais depressa o recordarei quando beber uma bica no Central, uma imperial no Camaroeiro ou fizer uma “piscina” na Praça do que na campa do cemitério onde aposto que ninguém o vai convencer a ficar. João Jales EX ALUNOS E.R.O. http://externatoramalhoortigao.blogspot.com ex.alunos.ero@gmail.com

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