A língua portuguesa, e apostaria que o mesmo acontece com todas as linguagens em vigência por este mundo fora, está recheada de expressões idiomáticas muito interessantes, umas com significados evidentes e outras com mensagens ocultas. Usamo-las com frequência e as origens de cada uma delas tanto podem ser recentes, como geradas nalgum quadro de cómicos ou num lapsus de linguagem de alguém merecedor de respeito. Também podem ter aparecido muito tempo atrás, séculos ou milénios mesmo, pois que algumas já se encontram em textos latinos dos primeiros séculos da nossa era. Uma das frases pré-fabricadas que entra no capítulo das mais interessantes é a que utilizei para título deste escrito, e que pode envolver uma certa dose de crítica destrutiva. Nem sempre, pois quando vemos uma criança de tenra idade comportar-se, ao jeito de personagem de teatro, com posturas, andares, gestos, de pessoa adulta, o que forma parte da evolução do infante, é provável que alguém comente, com um sorriso aberto na face, que o menino/a já quer ser gente. A intenção já não é tão benevolente quando se qualifica a transparência da ambição da pessoa avaliada. É evidente que a vontade e esforço de superação de um indivíduo é uma atitude a louvar, e que esta é uma atitude que, no seu cômputo geral, pode trazer mais benefícios à sociedade do que prejuízos. Sendo a sociedade algo muito complexo, onde coabitam patamares muito diferentes, o desejo de ser gente, de se tornar famoso, endeusado, está ao alcance de muitos, uns em que o seu horizonte de ambições se admite ficar limitado ao que conhece bem, e outros que desejam saltar para o vazio, provar que poderá ser capaz de singrar com êxito por mares nunca antes navegados, pelo menos por ele. Admitindo a hipótese de que aquele que critica está de má fé, ou não tem a capacidade necessária para julgar o seu alvo, podemos concordar com que se pode cair com facilidade num processo de denegrir sem fundamento. Todavia, em termos gerais, quando a percepção que um número razoável de observadores comentadores for coincidente é razão suficiente para que, pelo menos, se admita a possibilidade de estarem certos. Precisamente entre adultos quando se diz de alguém que quer ser gente é com causticidade que se faz tal afirmação, seja porque não agradam os meios e artimanhas que o visado utiliza para se encimar, ou porque não se lhe reconhecem capacidades pessoais para que ele possa atingir, por valor intrínseco, o patamar que deseja. É uma reacção surda e instintiva da colectividade perante a existência de figuras que atingiram postos de comando e decisão que não satisfazem a maioria. A progressão na mediocridade, e mesmo na incompetência manifesta neste avanço nos organigramas, foi estudada com profundidade já em meados do séc. XX pelo Professor Laurence Johston Peter. Publicou as suas conclusões em 1969 O Princípio de Peter. Obra que o fez famoso e passou a ser referência obrigatória quando se comentam as progressões nas carreiras Nos casos particulares que o autor estudou e comentou são dois os campos criticados, a Administração Pública e as empresas, privadas ou estatais, onde a progressão da carreira é feita por uma avaliação de mérito. Todavia o professor esqueceu, certamente que por deformação profissional ou cegueira propositada, que em ambos campos, e especialmente no primeiro, o carreirismo é facilitado por um grupo de elementos que, tendo todos eles uma ambição comum, mesmo com alvos concretos diferentes entre si, se apoiam mutuamente para, coma força que o grupo dá, ir tomando o poder quando antes melhor. Aqui o mérito real tem pouco peso. É agenciar os apoios necessários que, aquele que quer ser gente, procurará com todas as suas forças. Para a manipulação do cenário contratará o número de contra-regras necessário para lhe preparar o caminho, vigiando atentamente que não apareça um ambicioso, tal como ele é, que pretenda substitui-lo. Alberto Virella
Querer ser gente
Últimas
Artigos Relacionados
Fechar a estrada antes que o rio decidisse por nós
Este texto é um reconhecimento. Escrevo-o porque sei que os factos aconteceram desta forma. Porque conheço quem tomou a decisão. Porque sei como foi ponderada, discutida, insistida. E porque nem sempre quem evita a tragédia é quem aparece a explicá-la.
Jovem casal abriu negócio de barbeiro, cabeleireiro e esteticista
Foi no final de setembro do ano passado que César Justino, de 23 anos e Maria Araújo, de 22 anos, abriram o cabeleireiro 16 Cut na Rua da Praça de Touros, em Caldas da Rainha. O estúdio, que era previamente loja de uma florista, serve agora o jovem casal e inclui serviço de barbeiro, cabeleireiro e esteticista.
Concurso de cozinha na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste
O Chefe do Ano, o maior e mais prestigiado concurso de cozinha para profissionais em Portugal, revelou os 18 concorrentes apurados para as etapas regionais da sua 37.ª edição, após uma fase de candidaturas que reuniu mais de 200 profissionais.
As três eliminatórias regionais decorrerão em abril. A primeira, referente à região Centro, será realizada no dia 14 de abril, na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste, nas Caldas da Rainha. A segunda, da região Sul & Ilhas, acontecerá a 22 de abril, na Escola de Hotelaria e Turismo de Portimão.



0 Comentários