Ninguém diria que no interior de uma vivenda num bairro residencial no concelho de Óbidos se construiriam e guardariam engenhos explosivos. Nem que os dois residentes eram membros da organização terrorista basca ETA. E muito menos que os suspeitos tivessem escolhido uma casa que tinha como vizinhos dois agentes da PSP. A descoberta deixou toda a gente espantada. E quantidade de explosivos que foi descoberta – tonelada e meia – segundo revela o Ministério do Interior espanhol, é a maior apreensão da última década relacionada com a ETA fora de Espanha. O assombroso achado numa vivenda do Casal da Avarela, próximo do Bairro da Senhora da Luz, abriu caminho a outras investigações no sentido de confirmar manobras da organização em solo nacional para criar uma base através da qual pudessem ser desencadeados ataques no país vizinho. A GNR de Óbidos foi alertada na passada quinta-feira para algo de estranho na casa: há três dias que as luzes estavam acesas e as portas abertas. A denúncia efectuada por um vizinho acabou levar os militares da GNR ao local, tendo-se deparado com os explosivos na garagem, distribuídos por bidões, malas e latas. Fez-se então o cruzamento de informação. Na noite da segunda-feira anterior, dois indivíduos que falavam espanhol foram parados numa operação de controlo de trânsito realizada ali próximo, na estrada municipal 1408. Não acataram a ordem e fugiram. Os militares da GNR perseguiram-nos mas não os conseguiram apanhar. A Citroen Berlingo, de cor branca, acabaria por ser encontrada uns quilómetros mais à frente num terreno baldio atascada na lama. Mas dos suspeitos, nem rasto. No interior da viatura, roubada em Castelo Branco há um ano e meio, havia pás, picaretas, roupa e dois detonadores eléctricos. Suspeita-se que estes indivíduos tenham contactado de imediato outros companheiros que os recolherem no local, tendo desaparecido. Ter-se-ão então deslocado à vivenda, para recolher outro material, fugindo à pressa. Daí terem ficado as portas abertas e luzes acesas. O vizinho relatou que a casa era habitada por dois indivíduos que falavam espanhol e que se deslocavam numa Citroen Berlingo. A GNR relacionou o caso e entrou logo em acção a Polícia Judiciária. Quinta-feira à noite já havia um corropio no bairro. A polícia científica da PJ e a Brigada de Inactivação de Explosivos da GNR começaram a trabalhar para apurar o que se encontrava no interior da vivenda. Sexta-feira de manhã foram impostos perímetros de segurança. Ninguém circulava na Rua do Gesso, onde fica a vivenda, e nas artérias adjacentes o trânsito era controlado. À tarde foi cortada a estrada municipal que atravessa o Casal da Avarela e que liga Óbidos a Caldas da Rainha. Algumas habitações mais próximas da vivenda foram evacuadas. Por esta altura já o local estava cheio de jornalistas, não só portugueses como da imprensa e televisão espanholas. A primeira estimativa indicava a existência de meia tonelada de explosivos. Em Lisboa, um comunicado conjunto dos ministérios da Administração Interna e da Justiça apontaram depois para cerca de 800 quilos de explosivos encontrados, mas o Ministério do Interior de Espanha indicou tonelada e meia, explicando que a diferença nos números apresentados pelos dois países se devem ao facto de as autoridades portuguesas apenas terem contabilizado “o material que estava misturado e pronto a utilizar”, quando Espanha “teve em conta todo o material que serve para fabricar explosivo”. Segundo Ministério do Interior espanhol, o material detectado na garagem da casa foram 1330 quilos de nitrato de amónio, 75 quilos de nitrato de potássio, 40 litros de ácido sulfúrico e outras quantidades de pentrita (um dos mais poderosos explosivos conhecidos), pó de alumínio e nitrometano, um ingrediente utilizado pela organização separatista basca para a produção do explosivo amonitol. Foram também encontrados quatro detonadores, várias ferramentas para a fabricação de bombas, dois computadores portáteis, quatro telemóveis, diversos mapas de Portugal e Espanha com inscrições, e mapas de Coimbra, Madrid, Cádiz e de San Fernando sem anotações, e diversas ferramentas (brocas, serra eléctrica, entre outras). Moradores boquiabertos Jorge Fragoso, morador no bairro há dez anos, confessou que “nunca vi nada que despertasse a atenção nem me apercebi de movimentações estranhas e fora do normal. É um bairro pacato. Os moradores ficaram todos surpreendidos”. Maria João desabafou que “sempre senti esta zona segura e isto cria uma certa insegurança. Ninguém suspeitava desta situação”. Armando Mateus, antigo frequentador da vivenda, relatou que “não me alarmo, mas não gosto. É capaz de perturbar a pacatez, e há a dúvida se não haverá mais casas ocupadas nesta zona”. Já João Gomes comentou que “não sei se me sinto mais seguro ou mais aflito”. O mediatismo da localidade quebrou por completo a pacatez. Mas em Salir de Matos, no concelho das Caldas da Rainha, aconteceu também algum alvoroço, porque tinha sido difundida a informação de que a casa ficaria nesta freguesia caldense, levando vários jornalistas à aldeia. O equívoco foi rapidamente desfeito. Em Óbidos, prosseguiam as investigações, coordenadas pela Unidade Nacional Contra-Terrorismo da Polícia Judiciária. A cooperação ibérica com vista a aprofundar conhecimentos sobre as actividades dos ‘etarras’ em Portugal estava a fornecer informações importantes ao Governo espanhol, que não se coibiu de divulgar mais pormenores da apreensão do que as próprias autoridades portuguesas. Entretanto, parte dos engenhos encontrados começaram a ser detonados numa pedreira a menos de 500 metros da vivenda do Casal da Avarela. Foram onze os rebentamentos realizados a uma profundidade de cerca de 80 metros, entre as nove e as onze da noite de sexta-feira, e na manhã de sábado. O material menos perigoso ia ser destruído nos dias seguintes. Os estremecimentos provocados pelas explosões foram sentidos a cinco quilómetros de distância e houve várias chamadas telefónicas para as forças de segurança a interrogar o que se passava. Os rebentamentos foram rodeados de fortes medidas de segurança, tendo os moradores nas redondezas ficado privados algumas horas de permanecerem nas suas casas. Foi utilizado um robô para manipular os engenhos, transportados em cinco viaturas, três da GNR e duas descaracterizadas. “Tem de haver um cuidado muito grande, porque há a probabilidade do material estar armadilhado e o trabalho tem de ser feito à distância”, justificou fonte da GNR. Base da ETA A escolha de Óbidos para a instalação dos elementos da ETA não foi por acaso. O rápido acesso a Espanha e a dificuldade em manobras em solo espanhol e francês, terão pesado na estratégia. A vivenda pertence a um casal que mora em Inglaterra. O arrendamento da casa foi feito a um espanhol e teve como intermediária uma empresa imobiliária das Caldas da Rainha. Os dois espanhóis suspeitos ocupariam a casa desde Dezembro. Ambos estão referenciados. Sobre Andoni Zengotitabengoa Fernández, de 30 anos, e Oier Gómez Mielgo, de 26 anos, já recaíam vários mandatos de captura. Ao primeiro para cumprir uma condenação de 13 anos e três meses de prisão por actos terroristas, atentados contra agentes de autoridades e posse de produtos incendiários. Ao segundo por três crimes de terrorismo e envolvimento em acções de violência. O recibo de uma compra de dois euros realizada num supermercado em Óbidos no dia 17 de Janeiro foi encontrado na viatura que tinha sido abandonada pelos espanhóis. A pista suficiente para se conseguir chegar às imagens da videovigilância e comprovar a identidade de um dos suspeitos. A casa localizada em Óbidos seria provavelmente a base logística para fabricar explosivos para a ETA e não seria a única residência em Portugal de elementos da organização basca. É a discussão que se segue à descoberta. Mais. Não se pode colocar de parte a utilização de cidadãos portugueses no apoio às actividades do grupo terrorista. Mas supõe-se que as acções previstas não afectariam Portugal, mas sim Espanha, para não prejudicar as operações preparatórias em solo nacional. O ministro do interior espanhol Alfredo Rubalcaba indicou que o mapa encontrado na casa de Óbidos indicava que os membros da ETA pensavam levar a cabo um ataque na província espanhola de Cádis. A vivenda foi descoberta poucas semanas depois da operação que levou à captura em Portugal, em Torre de Moncorvo, de dois alegados membros da ETA, em relação aos quais pendem actualmente mandados de detenção europeus. A ETA reivindica a independência do País Basco e nos seus mais de 40 anos de actividade já assassinou mais de 800 pessoas. O Presidente da República, Cavaco Silva, comentou a descoberta dos explosivos, declarando confiar que o Governo está a “acompanhar com todo o cuidado” o caso. Francisco Gomes (texto) Carlos Barroso (fotos)
Vivenda em Óbidos servia para terroristas da ETA fabricarem explosivos
10 de Fevereiro, 2010
Ninguém diria que no interior de uma vivenda num bairro residencial no concelho de Óbidos se construiriam e guardariam engenhos explosivos. Nem que os dois residentes eram membros da organização terrorista basca ETA. E muito menos que os suspeitos tivessem escolhido uma casa que tinha como vizinhos dois agentes da PSP. A descoberta deixou toda […]
Vivenda em Óbidos servia para terroristas da ETA fabricarem explosivos
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