Um caldense em Angola entre 1968 e 1971 Salvador dos Santos Faria tem 61 anos, é natural e residente na aldeia do Nadadouro, nas Caldas da Rainha. Fez a quarta-classe e antes de ingressar na vida militar trabalhava em serventias de construção civil e aos 16 anos tornou-se operário na fábrica Alberto Horta & Irmãos, nas Caldas da Rainha. Tinha 19 anos quando foi chamado para a tropa. Na altura já era casado e tinha um bebé de 18 meses. Alistado a 21 Julho de 1967, foi incorporado a 5 de Fevereiro de 1968. Fez a recruta no Centro de Instrução de Condutores Auto – CICA2, na Figueira da Foz. Ao fim de mês e meio foi incorporado no Regimento de Artilharia Pesada nº3 (RAP3), na Figueira da Foz, para adaptação de condução, até ser colocado no Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa (RAAF) de Queluz. Integrado na Companhia 2425, esteve em Angola entre 1968 e 1971. Embarcou a 25 de Julho de 1968 no “Niassa”. “Com os meus camaradas levávamos na memória que íamos fazer a vez dos 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea nº.1 de Queluz que eram para ir para Angola e que morreram no incêndio da Serra de Sintra em 1966. Em Angola estava uma lápide de evocação desses homens”, recorda. Consigo iam, entre outros, o soldado Rodrigues, que era motorista, da Moita, Marinha Grande, também o cabo Trinco, que era mecânico, de Vale da Pinta, Santarém, o condutor João Rebelo, da Moita de Alvorninha, Caldas da Rainha. O comandante do pelotão era o furriel Nuno e acima dele estava o alferes Gil, a quem chamavam “Patilhas e Ventoinha”, por causa das patilhas grandes que tinha, e em homenagem aos Parodiantes de Lisboa e às suas personagens mais conhecidas que fizeram furor na rádio. O mais alto graduado da unidade que foi com o grupo era o capitão Carrapatoso, que esteve seis meses em Luanda, até ser promovido a major e ser destacado para 2º comandante de um batalhão em Cabinda. Desembarcaram em Luanda a 2 de Agosto de 1967. Nada de tiros ainda. Não se sentia o ambiente de guerra. Foram num comboio com vagões de transportar gado para o Grafanil, a 10 km de Luanda, que era onde se concentrava tropa toda quando chegava ao território e depois dali é que eram distribuídos para as unidades ou acampamentos. “Praticamente não sabíamos quem era o nosso inimigo, mas mais tarde aprendemos. A missão era manter a ordem”, aponta. Voltaram logo para Luanda onde ficaram seis meses na Bateria Artilharia Anti-Aérea. Nos primeiros tempos era tudo calmo. O único incidente foi uma semana depois de terem chegado a Luanda e aconteceu num treino. “Estávamos a receber instrução com tiro real junto dos Comandos e o 1º cabo Jorge, de Santa Iria da Azóia, que era da minha companhia, foi atingido por uma bala. Ficou ferido na virilha quando num exercício de simulação de ataque adversário atrasou-se a saltar do carro e o disparo de G3 acertou-lhe. Teve de ter operado”, relata Salvador Faria. “Seis meses depois de estarmos em Angola é que começou a guerra para nós, porque até então os patrulhamentos que fazíamos decorriam sem problemas. Até à altura em que o capitão Carrapatoso saiu e foi substituído pelo capitão Nelson Matos, que vinha da Marinha e que para se armar em bom disse que havia gente a mais e começou a oferecer pessoal para fazer colunas e viajar centenas de quilómetros no meio do mato, onde estava o inimigo”, comenta. O caldense conduzia um Unimog 404 a gasolina, onde estava adaptado o rádio-transmissor grande e uma metralhadora ligeira. Também conduzia Berliers, jipões e jipes. Andava normalmente na cabeça da coluna. Ou era em primeiro ou em último lugar. Ia de Luanda para Nova Lisboa (actual Huambo) ou levar munições para o Luso (actual Luena), no Leste de Angola. “Foi aí que passámos a levar porrada e estive duas vezes debaixo de fogo, mas nunca fiquei ferido. Eu era condutor de auto-pesados, uma tarefa em que me expunha bastante, já que era um alvo apetecível”, conta. Em finais de Março de 1969, o capitão Nelson Matos experimentou ir pela primeira vez com o grupo para o mato. “Fomos buscar um grupo de pretos que eram das nossas tropas e que estavam destacados por cima da Fazenda Margarido, a norte de Luanda. Na ida, a certa altura houve só um tirito numa fazenda e o capitão atirou-se do carro abaixo, partiu um pé e um helicóptero foi lá buscá-lo. Nunca mais voltaria a viajar connosco”, descreve. Mas o ‘azar’ do capitão até acabou por ser uma sorte, já que no regresso não foi apanhado pela emboscada que o grupo sofreu. Quem ficou a comandar a coluna foi o alferes Gil. Já passavam seis horas de viagem no regresso, quando Salvador Faria apanhhou o maior susto de todos enquanto esteve em Angola. “Era de dia e estávamos no meio da picada. Primeiro houve um tiro de pistola. Entretanto, um imondeiro – árvore grande típica angolana – cai em cima do carro que eu vinha a conduzir. A minha G3 ficou logo com o cano todo virado e o volante da viatura ficou danificado. Foi uma queda provocada. Vimos depois que a árvore tinha sido cortada com fio detonante que os ‘turras’ tinham. De repente começámos a ser atacados. Os disparos vinham da mata, sem vermos nada. Cheguei a recear pela vida. Estivemos meia hora debaixo de fogo. Ripostámos, sem saber se acertávamos ou não. Em cima de uma Berlier estava uma metralhadora ligeira de 4 canos. De 5 em 5 balas saía uma munição incendiária. Incendiámos o capim todo e os turras tiveram de dar à sola. Não sei se ficou lá algum, porque não fizemos a recuperação”, narra. “Do nosso lado ninguém ficou ferido, a não ser um cabo-verdiano que tinha o posto de 1º cabo e que era o apontador da metralhadora ligeira que levava no meu carro. A arma disparava 1200 tiros por minuto, mas tinha de se mudar o cano de vez em quando, porque ficava quente. No meio do fogo inimigo, ele viu-se atrapalhado e como queria ser rápido a disparar para nos livrar todos da situação aflitiva por que estávamos a passar, nem usou a luva e mudou o cano que estava em brasa. Ficou com os ossos da palma da mão à vista mas continuou a atirar. Acabou por ir para o hospital em Luanda, recebeu um louvor e veio passar um mês à metrópole com viagem e hotel pagos”, refere Salvador Faria. “Quanto ao resultado da emboscada, safámo-nos e deixámos tudo a arder. Ainda ficámos uma noite inteira na picada porque os carros ficaram atascados. Teve um pelotão de Engenharia que estava em Fazenda Maria Fernanda iria desembaraçar-nos e rebocar-nos com máquinas de lagarta”, lembra. O resto do regresso foi calmo. Quando o caldense chegou a Luanda foi-se logo deitar, mas de manhã era já chamado para ir para o Úcua, perto do rio Dange, fazer colunas na Mata do Piri. No Úcua, em Novembro de 1970, o soldado Rebelo, um açoriano da sua companhia, estava no posto de controlo, na picada do Bom Jesus, onde não passava nenhuma viatura sem ser registada. Era uma zona problemática. Salvador Faria recua uma vez mais no tempo: “Estava um dia de calor e ele despiu o dólmen e deixou-o pendurado junto um poço. Sentou-se nos degraus da capela que ali havia e onde estava sombra. Sem que nada o fizesse prever, começa uma saraivada de balas para atingir o dólmen. O inimigo pensava que era um militar que ali estava, porque a farda estava esticada e dava a sensação de ser uma pessoa. Eu e os meus camaradas estávamos a almoçar no refeitório do quartel que era ali perto e fomos logo a correr quando ouvimos os tiros. Outro camarada que estava num torreão mandou uma rajada para varrer aquela zona. Quando lá chegámos não vimos ninguém. Deve ter sido meia dúzia de ‘gatos’ para desestabilizar. O certo é que quando fomos ver, o dólmen do soldado Rebelo estava furado com dois tiros. Se ele o tivesse vestido era morte certa”. O Rebelo acabaria por morrer poucos meses depois, em Fevereiro de 1971. Afogou-se quando andava a apanhar percebes. Para o caldense, cada dia que passava parecia um ano. Tinha saudades da esposa e do filho. Nos restantes sete meses da sua comissão ingressou várias colunas de transportes entre Nova Lisboa e o Grafanil, mas foi calmo. Nem tudo era ambiente de guerra. Havia uma boa relação com a população e havia famílias com quem almoçavam várias vezes. Galinha com farinha de mandioca e óleo de palma era a especialidade. “Mas também roubámos galinhas aos pretos para assá-las. Tínhamos de nos desenrascar sem ser com a ração de combate”, confessa. Também chegou a ir ver todos os jogos de um torneio de futebol com os Asas de Luanda, os Ferroviários de Moçambique, o Benfica, o Sporting e o Setúbal. Entrou à borla no Estádio dos Coqueiros, em Luanda, com um primo seu que era rádio-montador. Jogaram figuras como o Eusébio, o Torres e o Travassos. O O torneio foi ganho pelo Asas de Luanda. Chegou finalmente a ordem para voltar para a metrópole. Foi a bordo do “Vera Cruz”, a 6 de Setembro de 1971. O regresso foi uma alegria. À sua espera estavam a esposa e o filho. “Já tinha quatro anos, era grande e falava. Estavam sempre a meter-lhe medo que o pai estava em Angola e era preto. Ainda levou tempo a adaptar-se”, diz Salvador Faria. O soldado admite que aprendeu muita coisa na guerra, como a união e a entreajuda. “Senti orgulho pelo sentido de Pátria. Tenho colegas meus que fugiram para a França e Alemanha só para não irem para a guerra. Voltaram depois do 25 de Abril para não serem acusados de desertores”, declara. Quando regressou de Angola, voltou ao seu trabalho na fábrica Alberto Horta & Irmãos, permanecendo três anos, para mudar-se depois para a empresa de transportes Auto-Penafiel, onde foi motorista ao longo de 33 anos, até reformar-se, há dois anos. Francisco Gomes
Memórias da Guerra
19 de Agosto, 2009
Um caldense em Angola entre 1968 e 1971 Salvador dos Santos Faria tem 61 anos, é natural e residente na aldeia do Nadadouro, nas Caldas da Rainha. Fez a quarta-classe e antes de ingressar na vida militar trabalhava em serventias de construção civil e aos 16 anos tornou-se operário na fábrica Alberto Horta & Irmãos, […]
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