Sou já de um tempo um tanto antigo. Um tempo em que a principal via de acesso à cidade das Caldas da Rainha era o comboio, que circulava na velha Linha do Oeste e em que à passagem dos comboios, vendedeiras apregoavam aos passageiros passantes, num pregão, que, se a memória me não falha, assim se gritava: – olha as cavacas finas das Caldas! Ou: – olha os beijinhos das Caldas! E naqueles brevíssimos minutos sacos de cavacas ou de beijinhos (nome dado a um outro bolo semelhante às cavacas, mas mais pequenino) entravam pelas janelas dos comboios, a troco de uns tantos níqueis e cobres. Esse tempo já lá vai e só me deixa saudades por duas razões fortes: A primeira porque é sempre bom, para quem na idade vai entrando, recordar a meninice e a juventude; um tempo em que há lugar para todas as esperanças e ilusões, para além do vigor físico, que, hoje, já se foi. A segunda porque nesse tempo a Linha do Oeste não estava moribunda e a nossa velha estação de caminho de ferro era uma montra da cidade, florida (os ferroviários das várias estações do País faziam gala em as tornar autênticos jardins de bom gosto), bem cuidada e nela até restaurante havia. Hoje a estação de CP das Caldas é, para os homens da minha idade, amantes e defensores do bom transporte público e, sobretudo, do que se move sobre carris, quase um lugar só povoado por fantasmas, em que as boas recordações contrastam com uma realidade decadente e feia, que envergonha a nossa democracia, que tão mal tem tratado a velha Linha do Oeste. Aproxima-se um carregado ciclo eleitoral e as “cavacas grossas”, que os partidos do centrão às Caldas têm dado, muito provavelmente, vão transfigurar-se, outra vez em “finas”, numa conhecida e repetida (à náusea) demagogia de promessas vãs. A Linha do Oeste virá de novo para a agenda política, daquele par de gémeos, quase siameses (PS E PSD), que no Governo, por regra, negam o que na oposição ou em campanha prometeram dar. D esta vez a promessa é a da modernização da Linha, ainda que para as calendas quase gregas (a proposta de modernização da Linha do Oeste prometida a troco da não construção do aeroporto na Ota, por parte do Governo e aceite, com “pompa e circunstância”, por todos os autarcas oestinos, incluindo o nosso autarca-mor caldense, é quase insultuosa, por tão dilatada no tempo e tão curta). Isto enquanto este mesmo Governo (mesmo em tempo de crise) anuncia e não arreda pé de obras faraónicas como o TGV ou mais auto-estradas, para quase todas as latitudes e azimutes. Mas, há gente, como eu, que é coerente e não usa só o ciclo eleitoral como se espectáculo de ilusionismo fosse e lhes tentará fazer cobrar, com a ajuda dos cidadãos oestinos e caldenses, em particular, a falta de vergonha. Aqui nesta “pátria” das cavacas e da cerâmica, que, com os políticos do centrão, se quer condenar a ser só museu, temos, praticamente, como quase único facto positivo, a registar, a colocação no calendário, das efemérides caldenses, o16 de Março “a Revolta das Caldas”, que assim, para a Câmara, já não é vergonha da revolução (isto depois de anos e anos de luta contra o esquecimento autárquico, lembrado por alguns, incluindo o presente escriba). Às segundas linhas do “Toma” está-se fazendo o “manguito”, depois de um concurso público incompetente e, consequentemente, anulado. O betão, não obstante a crise, segue o seu curso, a par com património imobiliário, em ruínas e sem soluções. Para “eleitor ver” pintam-se passadeiras (para peões) e constroem-se passeios, para mostrar alguma obra, mas os grandes problemas das Caldas permanecem adiados e assim ameaçam continuar se os eleitores se distraírem e se esquecerem dum passado triste, numa cidade que perde beleza e se descaracteriza, na razão directa, crescente, dos anos que esta governação autárquica soma e estes dois irmãos gémeos o País, alternadamente, vêm governando.
Olha as cavacas finas das Caldas!
25 de Março, 2009
Sou já de um tempo um tanto antigo. Um tempo em que a principal via de acesso à cidade das Caldas da Rainha era o comboio, que circulava na velha Linha do Oeste e em que à passagem dos comboios, vendedeiras apregoavam aos passageiros passantes, num pregão, que, se a memória me não falha, assim […]
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