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Histórias da Lagoa de Óbidos

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José Casimiro carregava no rosto uma sucessão de rugas, testemunhas do passar do tempo e consequência dos muitos dias passados ao sol da lagoa. Toda a sua vida tinha sido mariscador, oficio que aprendera com seu pai e seu avô. Era uma vida difícil, rude, dura, economicamente não muito gratificante, mas José Casimiro não a […]

José Casimiro carregava no rosto uma sucessão de rugas, testemunhas do passar do tempo e consequência dos muitos dias passados ao sol da lagoa. Toda a sua vida tinha sido mariscador, oficio que aprendera com seu pai e seu avô. Era uma vida difícil, rude, dura, economicamente não muito gratificante, mas José Casimiro não a trocava por outra. Da lagoa de Óbidos aprendera os valores da amizade, o respeito pelos mais velhos, a confiança e admiração pela natureza. Seus filhos talvez por serem já de outro tempo, já não quiseram esta vida, tendo rumado a Lisboa. Ao longo das décadas, José Casimiro já tinha assistido a muitas mudanças na morfologia da lagoa. Muitas vezes tinha sido testemunha de mudanças do lugar de contacto entre a lagoa e o mar. Em situações excepcionais já tinha contribuído com o seu trabalho braçal, para a manutenção da abertura da lagoa. A lagoa como todos os organismos vivos, tem problemas e mudanças de humor. Todavia os seus habitantes tinham sempre contribuído com a sua experiencia e conhecimento de causa, para a manutenção da mesma. Mas de há uns anos para cá, muito tinha mudado. A lagoa tinha vindo a sofrer pressões, decorrentes do crescimento populacional, do desordenamento urbano, bem como da poluição das diferentes actividades económicas, conjugadas por um problemático e teimoso processo de assoreamento, os quais em última analise podem por em causa o equilíbrio ecológico do ecossistema lagunar. A medida que os problemas se iam agudizando José Casimiro ouvia falar de estudos e mais estudos. Curiosamente os ditos peritos (engenheiros e doutores) do INAG, do LNEC, nunca quiseram ouvir aqueles que melhor conheciam a Lagoa – os mariscadores. Apesar dos estudos, das promessas, das tasks-forces os problemas persistiam, agravados pela utilização da lagoa como arma de arremesso político, por parte de alguns. Em 2006 tinha se constituído uma comissão de acompanhamento da lagoa de Óbidos, a qual manifestou a necessidade urgente, da realização de uma operação de dragagem de 1,5 milhões de metros cúbicos de areias. No entretanto, a comissão apontava a realização de intervenções pontuais para o desassoreamento, antes da intervenção alargada. José Casimiro chegou a pensar que desta vez o problema se iria resolver. Mas não. Faltava realizar antes das tão necessárias dragagens, um estudo de impacto ambiental. Estranhamente ou não, passados mais de dois anos o referido estudo ainda não tinha sido adjudicado. 2009 Era ano de eleições legislativas e autárquicas. José Casimiro sabia que a lagoa lá ia mais uma vez, ser alvo de discussão e de promessas pelas mais variadas forças políticas. José Casimiro era um optimista. Acreditava que qualquer pessoa que conhecesse a beleza da Lagoa de Óbidos, não podia deixar de lutar pela sua sobrevivência ecológica. Talvez o que falte é os governantes deixarem os gabinetes do Terreiro do Paço e virem ao encontro da lagoa de Óbidos. António Cipriano da Silva antonio.cipriano@sapo.pt

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