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O piano no Centro Cultural e de Congressos

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Nos séculos passados, o piano, mais do que um instrumento musical decorativo onde os gatos se passeavam em cima do teclado, era admirado e tocado, estava sempre presente nas casas de cultura, ateliers de pintura, museus ou apenas numa casa onde proporcionava agradáveis serões. Aluno ou autodidacta, pianista era quem por ali passava e percutia […]

Nos séculos passados, o piano, mais do que um instrumento musical decorativo onde os gatos se passeavam em cima do teclado, era admirado e tocado, estava sempre presente nas casas de cultura, ateliers de pintura, museus ou apenas numa casa onde proporcionava agradáveis serões. Aluno ou autodidacta, pianista era quem por ali passava e percutia as cordas vibrantes do piano arrancando bonitas e cativantes melodias, educando o gosto, criando ambiente nos salões e embelezando as recordações da vida pela associação entre os momentos musicais e os eventos culturais ou artísticos. Olhar uma pintura, ler poesia ou prosa, conversar, recitar, cantar ou simplesmente ler um jornal, são actos que adquirem outro significado com um som de fundo de piano. O piano estava simplesmente ali, como referência e objecto de fruição cultural, oval de toda a criação musical. Muitos pianistas foram com o tempo esquecidos naturalmente, ao passo que outros se afirmaram para a posteridade pela forma e alma que emprestavam às suas peças musicais originais, em estilos próprios, com influência suficiente para modelar a história da música. O público era assim ora educado ora cativado e, a partir de dado momento, começou a frequentar-se o museu só para ouvir o pianista, até que começaram os concertos específicos em que as pinturas nas paredes desempenhavam agora um papel secundário. As diferentes formas de arte não são herméticas, indissociáveis, animam-se mutuamente. Actualmente, é frequente e triste verificar que os pianos são erradicados dos cafés e outros espaços culturais privados, só porque ocupam espaço destinado aos clientes ou utentes. Faz falta ver pessoas nas ruas e cafés da cidade num convívio musical descontraído, divertido, generoso e espontâneo. A música é um passatempo ideal mas exige um ritmo e tempo próprios nem sempre compatível com a civilização cronófaga em que vivemos. Por vezes há um desdém saudável pelas regras que faz avançar o mundo para além dos limites estreitos da rotina, essa doença preferida da humanidade. Parece que adoramos ficar presos no tráfego em vez de ir de bicicleta ou de mota (mesmo quando a gasolina aumenta para preços incomportáveis) gostamos de relicários e vacas sagradas quando o povo morre à fome, elefantes brancos e tabus e muitos preconceitos. Construímos catedrais de cultura para adorar os deuses da música, distantes, inacessíveis e geniais. Por vezes as palmas surgem como etiqueta de boa educação mas sem adesão interior. Como nos sentiríamos felizes se soubéssemos que a nossa cabeleireira toca piano ou a dona da padaria é uma excelente soprano. Temos a genialidade e coragem de unir dois séculos e duas épocas, a da era espacial e a da época de Chopin, num respeito pela história como motor da cultura de um povo. Unir o piano a um edifício moderno, no auge da melhor tecnologia, é, sobretudo, um acto de coragem nos tempos da imitação fácil, copy paste, play back, karaoke num estilo de vida em que só há tempo para ouvir música enquanto se conduz o automóvel. Mas será um passo sem consequências se dissociarmos o piano de uma concepção de cultura viva, feita das pessoas para as pessoas, pessoas com emoções, pessoas que vivem neste mundo concreto e com quem nos cruzamos diariamente na rua, pessoas sem currículo e que têm direito a cinco minutos de fama até porque pagam os seus impostos uma vida inteira. Um centro cultural tem de existir no tecido social, tem de ser uma referência que nos liberte dos condicionalismos apertados da arquitectura e urbanismo, um apelo e um refúgio num mundo assustador e medonho feito de agressão e constrangimento constantes. Todos os dias nos confrontamos com notícias de subida do preço do petróleo, taxas de juro, preço dos alimentos, limitações ao crédito, a obsessão pelo crescimento. Num mundo cada vez mais materialista nada pior do que fechar um piano à chave! Há que olhar para o centro cultural e congressos como um espaço de evasão à rotina quotidiana, um oásis que devolve ao cidadão a sua dignidade perdida num mundo há muito massificado, feito de betão e automóvel, poluição química e muito ruído. Talvez comecem novamente a aparecer as cores nacionais, bandeiras e serpentinas. Mas deixem o piano falar. Um piano inactivo deteriora-se bastante depressa. Quanto mais for tocado menos probabilidade tem de desafinar. Por isso deixem os músicos pianistas da terra nele tocar. Decerto que não é pior do que o ruído que a cidade já tem ou das palmas, da sinfonia de telemóveis ou da tosse provocada pela humidade da localidade. A pureza do som de um piano está aí para nos demonstrar que a verdadeira arte abdica de quaisquer artificialismos, é imune às imitações baratas, à cultura de futebol de quem se empanturra de comida no sofá só para ver outros a jogar. A verdadeira arte só o é se suscitar emoções e esta é impermeável a tecnologias electrónicas ou influências estrangeiras e modernismos importados ou modas passageiras. Um piano é eterno, mas não pode ser uma relíquia sagrada e intocável! A emoção vive na alma de todos mas só alguns conseguem transmiti-la de forma musical tal como outros terão outras formas de inteligência, cognitiva, visual, etc. Por isso é preocupante verificar que há um piano fechado na cidade das artes e da cultura, como se nele fosse possível colocar mais do que duas mãos ou as inteligências de toda uma cidade, quando sabemos que Mozart retirava apenas com uma mão as melodias dos seus concertos. Existe um piano candidato a relíquia sagrada, fechado hermeticamente às mãos de quem nele pode tocar com alma e coração, fechado aos fazedores quotidianos da cultura, ao músico passante cuja arte musical nasce do suor e inspiração, ao “Sol (que) doira sem literatura ” no dizer de Fernando Pessoa. Num país onde os níveis de corrupção são indescritíveis para quê fechar um piano à chave? Deixem os pianistas da cidade mostrarem o que valem e se for caso disso a praça da fruta está mesmo ali ao lado para lhe atirarem ovos e tomates. Ninguém vai usar um martelo para bater nas teclas. Além disso o tempo das revoltas sociais eruptivas não está no horizonte. Haverá, depois de tudo isto, vontade de adorar, venerar ou simplesmente vontade de conviver com o piano e de o tocar, enquanto formos vivos? Entre o pianista! Bravo! Carlos Alberto Gonçalves da Silva

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