Entre a Tempestade e a Gratidão

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As últimas semanas trouxeram-nos chuva em modo agressivo, vento sem delicadeza e tempestades com pouco sentido de humor. O território foi posto à prova. Estradas cortadas, árvores no chão, muros a ceder, casas alagadas, pessoas assustadas e rotinas interrompidas. Para muitos, foram dias difíceis. Para alguns, dias verdadeiramente angustiantes.

 

Antes de mais, uma palavra simples, mas necessária: solidariedade. A todos os que sofreram prejuízos, perdas, medos e noites mal dormidas, fica um abraço coletivo. Porque quando a água entra pela porta dentro, não há discursos que cheguem. Só compreensão, ajuda e presença.

E foi precisamente aí que se viu o melhor de nós.

Na noite mais complicada, a cidade acordou transitável porque os bombeiros se organizaram, estiveram toda a noite na rua a sinalizar, cortar árvores, desobstruir vias e garantir segurança. Trocaram o conforto do quartel pelo vento forte, pela chuva cerrada e pelo risco. Isso é intervenção. Isso é serviço público. Isso é solidariedade real.

Junte-se a isto o trabalho incansável dos presidentes de junta, das equipas no terreno, dos voluntários e da população anónima, que ajudou a limpar ruas, empurrar carros, abrir caminhos e apoiar vizinhos, largando o conforto do sofá para ajudar. Foram eles que mantiveram a cidade e o concelho minimamente transitáveis quando tudo parecia querer parar. Limparam ruas, desentupiram valetas, retiraram árvores, empurraram carros, abriram caminhos, deram abrigo e conforto.

Enquanto alguns faziam comunicados, outros faziam mesmo coisas.

Mas, como sempre, entre a lama e os agradecimentos, há uma pergunta que insiste em não se calar: era inevitável?

Porque se interditaram espaços desportivos, cancelaram-se atividades, fecharam-se recintos, por que razão não se pediu à empresa da iluminação de Natal que retirasse estruturas? Por que não se removeram os chapéus da Rua da Liberdade? Por que não se preveniram tantas outras estruturas temporárias espalhadas pela cidade?

É sempre mais fácil encerrar o que é simples do que prevenir o que pode dar trabalho.

Porque o vento soprou forte, a chuva caiu, sim. Mas não foi pela primeira vez. As valetas continuam entupidas, as linhas de água continuam esquecidas, os escoamentos continuam subdimensionados, as sarjetas continuam decorativas e o planeamento continua em modo adiado. A cada inverno, repetimos o mesmo ritual: espanto, indignação, promessa, esquecimento. E no ano seguinte, voltamos a encher baldes.

Passada uma semana, os caminhos estão desimpedidos, sim. Mas continuam muitas escolas e espaços públicos com árvores partidas, ramos instáveis e estruturas soltas. Será pedir muito querer que ninguém se aleije? Que nenhuma criança, nenhum idoso, nenhum cidadão distraído leve com um tronco, um ferro pendurado ou um cabo elétrico mal preso?

Já para não falar nos muitos postos de eletricidade e comunicações que continuam pendurados por todo o lado, como decoração urbana pós-tempestade.

E depois há a sinalização. Colocar uma grade não é sinónimo de segurança. É preciso sinalizar antes, criar desvios, garantir passagens seguras para peões e viaturas, mesmo que de forma provisória. Segurança não é só uma palavra bonita nos discursos. Dá trabalho. Exige planeamento. Exige método.

Planeamento não dá likes. Limpeza preventiva não rende inaugurações. Manutenção não corta fitas. Mas evita tragédias pequenas que, somadas, se tornam grandes problemas.

A resposta no terreno voltou a depender mais da capacidade de improviso do que da capacidade de antecipação. E isso diz muito. Diz que temos gente extraordinária a compensar sistemas frágeis. Diz que temos solidariedade a suprir falhas de planeamento. Diz que temos comunidades fortes a segurar estruturas fracas.

E isso é bonito. Mas não é justo.

Não é justo para os bombeiros, que enfrentam riscos constantes.

Não é justo para os presidentes de junta, que resolvem o que não lhes compete.

Não é justo para os moradores, que limpam lama ano após ano.

Não é justo para uma cidade que merece mais do que soluções de emergência.

Talvez esteja na altura de trocarmos a política do remendo pela política da prevenção. Menos discursos depois da cheia, mais trabalho antes da tempestade. Menos comunicados, mais limpeza, mais planeamento. Menos reação, mais antecipação.

Porque solidariedade é essencial. Mas planeamento também salva casas, ruas, carros e nervos.

Aos que ajudaram: obrigado.

Aos que sofreram: estamos juntos.

A quem decide: façam melhor, antes que volte a chover.

Até para a semana.

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