Deve ser para os apanhados

EXCLUSIVO

ASSINE JÁ
Há várias coisas que me preocupam nesta geração de crianças. Já todos sabemos como não conseguem largar o telemóvel, como são expostas a tanto conteúdo inseguro nas redes sociais e, para piorar, o avanço da inteligência artificial parece trazer-lhes inúmeros perigos. Inclusive para as suas vidas.

 

Mas para a mãe que processou uma escola em Braga, pode existir um perigo ainda maior e que tem sido ignorado há várias gerações. Já existia no tempo dos meus avós, no tempo dos meus pais também se praticava e eu lembro-me de como sofri deste mal sem ninguém dizer nada. Finalmente chegou o tempo de acabar com o abominável jogo da apanhada.

Após o seu filho ter partido uma perna a jogar apanhada no recreio da escola, esta mãe processou a escola e pediu uma indemnização. O tribunal recusou o pedido e o caso vai agora para o Supremo Tribunal. O juiz teve o desplante de afirmar que «correr, brincar, tropeçar e cair fazem parte da infância.»

Claro que faz parte, mas é preciso acabar com isso. Sempre que um pai ou uma mãe deixa o seu filho na escola, nunca sabe se este vai voltar inteiro. É uma angústia saber que a criança tem instintos para brincadeiras que envolvem o risco de cair. E apesar de estudar várias disciplinas, parece que nenhuma lhes ensina que o chão aleija.

No processo estava a acusação de que o jogo da apanhada é «imprevisível e perigoso». Queremos então criar um mundo para as crianças em que tudo é previsível? Não será isso ainda mais perigoso? Que tipo de sociedade teríamos no futuro em que tudo é fácil de prever? Não teríamos bons filmes, bons livros, não haveria inovação e o bruxo Mamadou ficaria sem trabalho.

O mais importante não é pedir uma indemnização cada vez que se cai. Assim teremos um país de Mourinhos. O que é importante é cair mais vezes, para que as crianças aprendam a cair e a levantar-se.

Temo pelo futuro em que já não deixam as crianças brincar livremente. Primeiro vieram tirar as pistolas de plástico e eu não disse nada. Depois vieram tirar os desenhos animados violentos e eu não disse nada. Mas agora tenho de falar pela apanhada porque, caso contrário, o único jogo que resta é fazer tudo às escondidas. E desse já o nosso país está cansado.

(0)
Comentários
.

0 Comentários

Deixe um comentário

Últimas

Artigos Relacionados

“Hospital do Oeste, nascer, apanhar o comboio e esperar”

Artigo 166.º do Orçamento do Estado 2026. Aquele momento mágico em que se decide que a saúde em Portugal vai finalmente ganhar realidade, em versão touring mix, distribuída por concelhos como quem entrega folhetos na feira.

foto barroso

E nas Lajes? Acordo ou ocupação?

A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, e o sequestro de Maduro, depois da invasão da Ucrânia pela Rússia e do genocídio do povo palestiniano em Gaza por Israel, confirma a impossibilidade de fazer valer o Direito Internacional. Ultrapassado o primeiro quartel do século XXI, voltámos à ordem estabelecida no primeiro quartel do século XIX, com o mundo dividido em zonas de influência e sujeito ao expansionismo territorial.

Francisco Martins da Silva1