Direção do Caldas não aceitou saída de José Vala e manteve confiança no treinador

EXCLUSIVO

ASSINE JÁ
A direção do Caldas Sport Clube não aceitou a saída de José Vala após o jogo da Taça com o Braga. O técnico alvinegro tinha-se disponibilizado para abandonar o clube, desgastado com a polémica da mudança do desafio de Caldas da Rainha para Torres Vedras, mas em comunicado, o Caldas elogiou o treinador e disse que é com ele com quem pretende contar.

 

Tinha comunicado à equipa técnica que este seria o meu último jogo e é essa a minha intenção”, transmitiu José Vala no final do encontro, em que o Caldas foi derrotado por três bolas a zero pela equipa da Primeira Liga.

“O Mister José Vala está há 10 anos neste clube. São dez anos de dedicação, de trabalho diário, de compromisso silencioso e uma ligação profunda aos valores que nos definem.  Num momento particularmente duro, que mexeu emocionalmente com todos, colocou o lugar à disposição, num gesto de frontalidade, responsabilidade e respeito pelo Caldas. É precisamente esse caráter que reforça a nossa convicção”, manifestou o clube.

O Caldas reafirmou publicamente a “total confiança” em José Vala. “Acreditamos no seu trabalho, na sua liderança e na sua capacidade de unir o grupo. Após o momento mais atribulado da época e perante o carrossel de emoções que vivemos esta semana, é altura de não duvidar, de unir esforços e de rumar às quatro finais que nos restam. Juntos. Com todos. Liderados pelo mister José Vala, que é, sem dúvida, a pessoa certa para nos guiar. Pelo conhecimento profundo do clube, pelo compromisso demonstrado ao longo de uma década e pela forma como sente este emblema como poucos”, transmitiu a direção.

Indignação com comunicado sobre o estado do relvado do Campo da Mata

O comunicado da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) na véspera do jogo entre o Caldas e o Braga apanhou todos de surpresa. “Chuva intensa deixou relvado do Campo da Mata impraticável”, era o título.

“A precipitação que se fez sentir em todo o país, nos últimos dias, e nomeadamente na zona das Caldas da Rainha, levou a uma deterioração do relvado do Campo da Mata. O terreno de jogo tornou-se impraticável para receber o jogo da Taça de Portugal entre o Caldas e o Braga”, anunciava.

A FPF indicou que “foram realizadas várias diligências em conjunto com a Câmara Municipal das Caldas da Rainha, a empresa de gestão de relvados RED, o Caldas e o Braga”.

E a explicação foi que “após uma vistoria técnica realizada pela FPF e pela RED, tal como resulta do disposto no n.º 24 do artigo 26.º do regulamento da prova, foi concluído que o terreno não reúne condições de segurança para a realização da partida”.

“A direção da FPF está totalmente solidária com o sentimento de desilusão demonstrado pela direção do Caldas e pelo presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. Todos na FPF conhecem e valorizam a mística do Campo da Mata e da sua comunidade, que iria claramente elevar o espírito da Taça de Portugal, como já aconteceu anteriormente. No entanto, nenhuma das entidades envolvidas pode deixar de ter em consideração o risco para a integridade física dos jogadores”, manifestou a FPF.

“A FPF considerou todas as alternativas possíveis e manteve um diálogo próximo com todas as entidades envolvidas. Apesar de todos os esforços desenvolvidos pelos presidente do Caldas e o presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, impera a necessidade de preservar a integridade física dos jogadores e assegurar o regular desenrolar da competição. A hipótese de adiamento da partida foi também analisada, mas, considerando o calendário competitivo densamente preenchido e a proximidade da próxima eliminatória da Taça de Portugal, tal solução revelou-se impraticável”, revelou.

Ficou então decidido que a partida da quinta eliminatória da Taça de Portugal seria disputada no Campo Manuel Marques, em Torres Vedras, com transmissão na Sport TV.

“Um dia negro para o futebol nacional”

“Começaram a tirar-nos o tapete, a matar-nos gradualmente e um dia que se previa de grande festa, a verdadeira festa popular da Taça de Portugal no já mítico Campo da Mata, passou a ser um dia negro para o futebol nacional”, manifestou

Rodrigo Amaro, presidente do Caldas.

O dirigente revelou que “houve uma vistoria surpresa (ao contrário do procedimento normal das regulares vistorias que a relva tem por época, que são quatro), feita pela RED e acompanhada pelo responsável da FPF, João Morais, concluindo que o relvado não estaria em condições”.

“A partir desse momento comecei a sofrer pressões de vários sentidos com o objetivo de me vergar, aceitando que o jogo não fosse realizado no Campo da Mata. Telefonemas, mensagens, videochamadas, tudo com um único propósito, mudar o local do jogo. Algo que combati com todas as minhas forças, para nós só existia uma solução, o jogo ser no Campo da Mata, fosse no dia 23 ou numa outra data, o que não foi aceite por questões regulamentares, as exceções só tiveram efeito para proteger um lado e prejudicar o outro”, relatou.

A véspera do jogo foi “um dia longo que começou ao final da manhã e prolongou-se até noite dentro, com o comunicado da FPF a interditar o Campo da Mata, assumindo uma decisão unilateral de mudança do local e hora do jogo em menos de 24 horas (não querendo arriscar que a decisão do estado do relvado coubesse ao árbitro do jogo, como diz o regulamento)”. “O que aconteceu foi claramente um ato de má fé e premeditado por alguém”, sustentou Rodrigo Amaro.

Segundo o presidente, “tudo fizemos desde a primeira hora (dia do sorteio) para sermos parte da solução, agimos sempre de boa fé e conseguirmos fazer uma grande festa no Campo da Mata, desde alteração da data do jogo, à intervenção sugerida pela RED – empresa consultora da FPF e Braga (a 15 dias do jogo), os restantes pedidos do Braga, FPF e PSP, tudo foi acautelado pelo Caldas em estreito apoio com a autarquia e fornecedores/prestadores”.

“Espetaram-nos um ferro. Perdeu o futebol, perdeu o Caldas, perderam as Caldas, perderam todos aqueles clubes amadores deste pais fora e que fazem verdadeiros milagres para continuar a sua atividade época após época”, lamentou.

Rodrigo Amaro declarou que “faço uma vénia à forma como o staff, equipa técnica e jogadores encontraram forças para encarar um jogo, apesar de todo o sentimento de frustração e raiva que sentiam por dentro, pelo que aconteceu”. “Estendo essa vénia aos sócios e adeptos que apesar deste golpe, se mobilizaram para fazer uma viagem de 45 km para apoiar a nossa equipa em massa e em grande espírito de respeito pelos jogadores, pelos valores do clube e pela competição”, acrescentou.

“Agradecer também a forma como a autarquia acompanhou o processo e se solidarizou com a nossa causa, na pessoa do presidente da câmara. Da mesma forma que agradecemos toda a solidariedade recebida por parte de clubes, agentes desportivos, pessoas do mundo do desporto e futebol, mas não podemos deixar de assinalar o silêncio da parte da Associação de Futebol de Leiria que não manifestou publicamente o apoio e solidariedade ao Caldas, clube com mais de 100 anos e fundador da associação”, vincou Rodrigo Amaro.

A decisão do Caldas ir a jogo “foi ponderada, todos os cenários estiveram em cima da mesa, mas após medirmos bem as consequências, do bom nome do clube, a sua integridade e valores, mais as reproporções negativas que o clube iria sofrer nos próximos anos, fez de que a melhor decisão seria comparecer ao jogo”.

“Lamento profundamente a decisão da FPF, que impede a realização deste jogo no Campo da Mata, apesar de todo o esforço desenvolvido”, declarou o presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, que disse terem sido “realizados investimentos, mobilizados recursos e assumido um compromisso claro com a criação das condições necessárias para que este jogo pudesse acontecer na nossa casa”.

“Esta decisão é difícil de aceitar para mim e para todos os caldenses. O Campo da Mata não é apenas um campo de futebol: é um símbolo da nossa história, da nossa identidade e da ligação profunda entre a cidade e o Caldas. Quero deixar uma palavra de total solidariedade ao Caldas, aos seus dirigentes, atletas, sócios e adeptos. A cidade fez tudo o que estava ao seu alcance”, transmitiu Vitor Marques.

Um comunicado do plantel de futebol sénior do Caldas relata um “sentimento de profunda tristeza, revolta e incompreensão”. “Muitos de nós estamos há vários anos no clube e os jogos da Taça de Portugal são encarados de forma especial. Estão a tirar-nos a alma, porque a mística do Campo da Mata é muito mais do que um relvado. Sentimos, também, que os vários relvados onde já jogámos ao longo das últimas épocas também não se encontravam nas melhores condições, e nunca sentimos a proteção que está a ser realizada neste momento”, lê-se nesse comunicado.

Eliminação da Taça de Portugal

O Sporting Clube de Braga garantiu o apuramento dos quartos de final da Taça de Portugal, ao vencer o Caldas por três bolas sem resposta, num jogo marcado pela contestação da mudança de localização à última hora.

O encontro começou com um momento de enorme simbolismo, com os jogadores do Caldas a permanecerem imóveis durante um minuto como forma de protesto contra a decisão da FPF de alterar a localização do jogo do Campo da Mata para Torres Vedras.

Os jogadores do Braga respeitaram este protesto e também não pressionaram a equipa caldense.

Na primeira parte o Caldas foi claramente superior e criou melhores ocasiões de golos, com João Rodrigues e Gonçalo Barreiras a colocarem o guardião Tiago Sá à prova.

O intervalo chegou com um nulo, mas tudo mudou na segunda parte, quando o Braga entrou com outra intensidade e marcou três golos em apenas 10 minutos.

Fran Navarro abriu o marcador de cabeça, após assistência de Moscardo, aos 50 minutos. Logo depois, aos 53 minutos, Paulo Oliveira ampliou a vantagem, na sequência de um pontapé de canto. Aos 60 minutos, Mário Dorgeles fechou as contas com um excelente remate cruzado sem hipótese para o guardião Duarte Almeida.

Apesar de jogar fora de casa por imposição da FPF, a equipa de José Vala mostrou uma organização tática invejável a primeira metade do jogo.

José Vala acusa invasão do campo para vistoria sem autorização

No final do jogo, José Vala mostrou-se muito insatisfeito com todo o processo que levou a sua equipa jogar em Torres Vedras.
“A frustração e esse turbilhão de emoções estão diretamente relacionados com uma coisa muito simples: o Caldas hoje jogou num campo que está pior que o que nós temos ali na Mata. Convido-vos a todos para irem ver o Campo da Mata”, referiu na conferência de imprensa a seguir ao jogo.

“Isso é que é esquisito. Não sei se há responsáveis, mas houve alguém que invadiu o campo para fazer uma vistoria sem autorização de ninguém. Fizeram um vídeo falso que é feito a apontar para um sítio que tem dois metros quadrados. O campo do Caldas está 90 por cento melhor do que este”, adiantou.

“Tem duas zonas em que é colocada areia, mas aqui é o campo todo. Houve alguém que decidiu isto e essa pessoa tem de ser responsabilizada. Acabámos todos por perder. O Caldas, se calhar, acabaria por perder, mas perdeu aquilo que é mais importante no futebol”, lamentou.

De qualquer forma, acha que o que aconteceu acabou por dar uma outra motivação ao Caldas. “Foi uma motivação enorme para os jogadores, logo que chegamos aqui. Hoje não jogávamos só por um clube, jogávamos por uma cidade, pela verdade no futebol português. Estávamos a representar a parte mais bonita do futebol”, disse.

Em relação, ao jogo comentou que “foi uma boa primeira parte da nossa parte, com uma boa organização defensiva e conseguimos por o Braga encolhido”.

Na sua opinião, as melhores oportunidades na primeira parte foram do Caldas. “Não posso falar em quebra porque os dois primeiros golos foram de bola parada no início da segunda parte. Depois fomos tentando desfrutar do jogo, as substituições foram para a entrada de jogadores da equipa B que entendi que mereciam entrar aqui neste palco”, concluiu.

 

Estádio Manuel Marques (Torres Vedras)

Árbitro: Sérgio Guelho

Árbitros assistentes: João Bessa Silva e Renato Carvalho

Quarto árbitro: Hugo Silva

VAR: João Malheiro Pinto

AVAR: Márcio Azevedo

Caldas Sport Clube: Duarte Almeida; Yordy Marcelo (Dani Fernandes 69m), Duarte Maneta, Zé Ricardo, Nuno Januário, Pipo, Diogo Clemente (capitão) (Matheus Magalhães 65m), Gonçalo Barreiras, Eduardo Monteiro, Luís Farinha (Matheus Palmério 65m) e João Rodrigues.

Suplentes não utilizados:Wilson Soares, Rui Correia, Tiago Catarino, Ricardo Alexandre, Ewandro Santos e Gonçalo Chaves.

Treinador: José Vala

Cartão amarelo: Diogo Clemente (49m)

Sporting Clube de Braga: Tiago Sá, Gustav Lagerbielke (Victor Gómez 42m), Paulo Oliveira, Bright Arrey-Mbi, Mário Dorgeles, Gabriel Moscardo, Florian Grillitsch (Gabri Martínez), Leonardo Lelo, Rodrigo Zalazar (Yanis da Rocha 42m), Fran Navarro e Ricardo Horta (capitão) (Pau Victor 85m).

Suplentes não utilizados: João Carvalho, Victor Gómez, Gorby Baptiste, Diego Rodrigues, Vítor Carvalho e João Moutinho.

Treinador: Carlos Vicens

Golos: Fran Navarro (50m), Paulo Oliveira (53m) e Mario Dorgeles (60m)

(0)
Comentários
.

0 Comentários

Deixe um comentário

Últimas

Artigos Relacionados

Procurado na Bélgica por perseguição detido no Bombarral

Um homem de 50 anos foi detido no concelho do Bombarral, no passado dia 8, por recair sobre ele um mandado de detenção europeu, emitido pelas autoridades judiciárias da Bélgica, relacionado com a prática do crime de perseguição.

procurado

Condutor apanhado com droga dedicava-se ao tráfico

Um jovem de 22 anos foi detido no concelho do Cadaval na posse de droga que serviria para o tráfico, na sequência de uma ação de fiscalização rodoviária realizada pela GNR no dia 7 de janeiro.

trafico

“Hospital do Oeste, nascer, apanhar o comboio e esperar”

Artigo 166.º do Orçamento do Estado 2026. Aquele momento mágico em que se decide que a saúde em Portugal vai finalmente ganhar realidade, em versão touring mix, distribuída por concelhos como quem entrega folhetos na feira.

foto barroso