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Duas vidas não chegariam para ler todas as obras-primas que a Humanidade já produziu. Por cada romance novo que nos dispomos a ler, um desses marcos da literatura mundial ficará de fora. E o mesmo se poderá dizer de peças de teatro, pinturas, esculturas, bailados, óperas ou até de artes recentes como filmes e fotografias.

Vem isto a propósito de um romance do meu amigo e colega Henrique Rosa Lopes — Como as Iras do Sal Com as Fúrias do Açúcar, 2014, Chiado Editora —, texto de grande fôlego narrativo e notável apuro linguístico. Em caminhadas mais ou menos esforçadas ao longo do paredão de Oeiras, com o Bugio a pontuar a foz do Tejo, caçoando de todo o tipo de bugios, a personagem de Henrique Rosa Lopes vai desfiando cogitações e memórias, numa frondosa variedade entre o ensaio e a autoficção, entre o eclético e diletante ­­Desassossego pessoano e o realismo mágico à Garcia Márquez. Debicando ao acaso, que a safra literária é rica e abundante, tenhamos um vislumbre desta imaginativa obra:

— «…um careca muito bem penteado de frases fala com o silêncio» (pág. 417);

— «E se eu fizesse do Bugio um moinho? Um moinho com uma moinha de luz como têm todos os faróis! Sempre sonhei viver num moinho, não por ser em terra um farol de pão, mas…» (pág. 401);

— «Às primeiras tintas da alvorada, a bordo do meu passeio maríntimo (sim, assim mesmo, maríntimo, um dos inúmeros criativos neologismos), com agilidade de acrobata, namoro o mar, namoro o Bugio, um e outro, mesa farta para a minha imaginação» (pág. 390);

— «Eu sou o parentesco carnal da chuva tropical destes dois corpos iguais que costuraram a minha boca com braços e pernas a retrós preto e branco. Eu sou o resultado desse primeiro encontro de repente. Eu sou esse homem-de-dois-mundos. Nenhuma outra língua achou tantos versos mestiços que me caem certos no lado nunca frio, que é o meu coração.» (pág. 146);

­— «Acenei à gaivota. Ela limitou-se a desviar o olhar sem dizer nada. Estúpida. Por que razão os olhos dela não traçaram os meus gestos como um porto seguro? É um bocado embaraçoso estar assim no meu quarto a olhar o voo de uma gaivota sem falar. Do outro lado da rua, vejo que é alarmante a eloquência do embate desesperadamente branco da cabeça pontiaguda do bicho nas quatro paredes azuis.» (pág. 102).

Toda a arte exprime a cultura do seu tempo. É essa a grande missão do artista — testemunhar o mundo que lhe é coevo e ficcioná-lo com talento, criatividade e inovação. É assim de Lascaux aos murais de Almada das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos, de Virgílio a Ana Luísa Amaral, de Imhotep a Álvaro Siza Vieira, de Georges Méliès a Manoel de Oliveira, de Niépce a Eduardo Gageiro.

Henrique Rosa Lopes, assim como inúmeros outros escritores contemporâneos mais ou menos conhecidos e reconhecidos, vem demonstrar-nos que deixar de ler o que se escreve hoje, deixa-nos desactualizados e limitados na compreensão deste mundo tão diverso e excessivo.

 

Francisco Martins da Silva

 

Escrevo segundo o anterior acordo ortográfico.

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