Escaparate
A minha aproximação à vila vai muito além da admiração pela sua arquitetura ou história. Toca-me fundo na alma o modo como o obidense se coloca perante a vida. Considero esse “saber estar” como um sinal evolutivo da humanidade, o que demonstra que nem tudo está perdido, pelo menos nesse pequeno recanto deste tão castigado planeta.
Como não podia deixar de ser, participei ativamente – como simples observador – dos eventos da Semana Santa, ocorrida entre os dias 2 e 9 de abril.
No quesito religioso mantive o respeito e o silêncio, tão importantes para a ocasião. Aqueles que me conhecem bem, sabem que sou espírita há 40 anos, tendo uma relação ecuménica muito cortês para com todas as crenças, logo, não poderia exibir outro tipo de posicionamento.
A definição histórica da Páscoa assenta na origem do Judaísmo, sendo arrebatada pelos cristãos. Para os judeus é o louvor da libertação dos hebreus (após longos 400 anos de cativeiro no Egito), para os devotos católicos é o respeito à sublimação da ressurreição de Jesus após o sofrimento da crucificação.
Porém, poderia, também, encaminhar esta modesta explicação, explanando acerca de um outro ponto de vista, se visitasse as reminiscências de certas devoções nas antigas tribos politeístas, mas não o farei neste curto espaço de crónica, pois teria de avançar pelas reminiscências associadas a Eostre, a Deusa da Fertilidade. Limitar-me-ei, portanto, a uma elucidação mais casual.
Para nós, espíritas, a Páscoa sugere duas profundas experiências de Deus, a de amar e a de sentir-se amado, baseadas na repercussão das últimas palavras de Jesus.
Provocando, assim, o desenvolvimento do seu simbolismo, o que leva a nossa Doutrina – codificada por Allan Kardec (1804-1869), no correr do século XIX – a ornar a natureza, a índole e a excelência da mensagem de Jesus, certificando, então, que o espírito é eterno, logo, a vida não acaba.
Ele, quando se despediu dos 12 Apóstolos, durante o evento da Ceia (que é uma tradição hebraica), segundo relata a história, proferiu o seguinte: “Despeço-me de todos, pois em breve regressarei ao plano espiritual.
Voltarei ao Pai. Vão experimentar a dor da perda, porém, o acometimento da morte será, somente, um portal para que eu continue a agasalhar a todos e a cuidar da propagação do Cristianismo”.
Cristo vive. O nosso sentido ecuménico é forte demais nesse momento, o que nos leva a sentir um profundo amor pelos que possuem fé, e a demonstram em atos de bondade e de perdão.
O nosso Deus é benévolo, caridoso e sabe indultar. Inclusivamente, jamais malharemos o Judas, pois Jesus pediu-nos para perdoar e amar uns aos outros.
No campo cultural, a Semana Santa de Óbidos teve uma excelente expressividade, uma amostra, embora ainda imberbe, do que se pode realizar de grandioso num breve futuro.
Deixo aqui uma sugestão: como a vila possui um pendor artístico-cultural muito elevado, seria de enorme riqueza associá-la à investigação, acerca das recriações musicais da época de Jesus – que se realizam em diversos países – aquilo que Ele pode ter ouvido nas sinagogas e demais templos do século I (músicas babilónico-judaicas e hebraicas), trazendo à claridade das próximas comemorações uma trilha sonora mais realista, bem próxima daquilo que se ouvia durante a vida terrena do Espírito mais perfeito que Deus enviou ao nosso planeta.
Naquele período, os instrumentos eram poucos, porém belos e inculcados de mestria: o pífaro (de madeira, com apenas um orifício, pelo qual se controlava a altura do som emitido), o saltério, a trombeta, o shofar, a harpa, o tamboril (um membranofone), o nébel (uma espécie de alaúde), o adufe, a gaita-de-foles, a cítara, os címbalos e a voz. Todos citados na Bíblia.
Se a organização da Semana Santa conseguisse esse feito, alçaria essa celebração, e a vila de Óbidos, ao patamar da mais importante tradição, e região, religiosa cristã do nosso tempo em Portugal.




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