Engenheiro agrónomo de profissão, Jorge Serrazina começou a correr em 2003 (com 47 anos), e leva um currículo de excelência. Participou em provas de montanha porque era o que mais gostava pelo contacto com a natureza, embora também tivesse feito mais de 20 maratonas de estrada, por vários países.
O atleta que já correu a Transpyrenea, uma prova de 866 quilómetros, num percurso feito que ligou o Mediterrâneo ao Atlântico através dos Pirineus, considera os trilhos (vulgarmente conhecida como trails) uma das variantes do atletismo que permite maior liberdade. Quer do terreno que se pisa, quer do ambiente, quer mesmo das dificuldades.
Jorge Serrazina diz que há muitas alternativas na natureza bastante interessantes em toda a região Oeste.
No entanto alega que a “natureza vai sempre fazendo o seu papel e os percursos se não forem limpos vão fechando por isso tem que ser utlizados para se manter”.
É o próprio atleta de Óbidos que cria novos caminhos e passa muito tempo a limpá-los. “O grande problema não é marcar os trilhos, a dificuldade é mantê-los porque a natureza encarrega-se de os fechar”, explicou.
Defende que haja um “padrinho adotivo” que se encarregue manter os caminhos e trilhos abertos com uma manutenção continua”. Segundo este corredor a preservação e manutenção dos caminhos enquadra-se na valorização e promoção do território como destino turístico de natureza de excelência.
No período de isolamento e também no pós-confinamento, o atleta de Óbidos diz que nunca viu tanta “gente a fazer percursos na natureza de bicicleta, a pé e a correr nomeadamente à volta da barragem de Óbidos”. “Numa altura muito conturbada, as pessoas sentem uma enorme necessidade de estar em espaços mais protegidos, prevalecendo atividades complementares associadas à natureza”, disse o atleta.
Jorge Serrazina considera que o contato com a natureza é uma forma de recuperar a “forma física e mental, graças aos surpreendentes benefícios da caminhada ao ar livre”. “As regressar de uma caminhada ou corrida, sente-se mais descontraído, mais enérgico”, apontou. “Também é uma forma de conhecer locais espetaculares que de outra forma era impossível. Quem entra nesta onda começa a gostar”, adiantou.
Há vários percursos nesta região pedestres e de BTT, por trilhos e caminhos, permitem um contato permanente com a natureza. São acessíveis a todas as pessoas que gostem de caminhar, contemplar a natureza e conhecer melhor o Oeste e a sua diversidade paisagística. Cada percurso é único nas suas características e pode ser percorrido tanto a pé como de bicicleta todo-o-terreno – BTT e alguns em bicicleta normal ou elétrica.
Quanto aos passadiços, o atleta de Óbidos diz que “têm o seu papel para atrair turismo e um certo tipo de visitantes, mas para mim, a natureza no estado puro é fabuloso”, manifestou.
“TOA VIRTUAL” já com 112 participações
O corredor de grandes, distâncias disse que está a decorrer até 31 de agosto, um evento intitulado “Toa (Trilhos Óbidos e Arnoia) Virtual” adaptado aos tempos de pandemia que iniciou em 31 de maio, após o desconfinamento, e que convida as pessoas a fazerem um trilho à volta da barragem de Óbidos, de 17 quilómetros de extensão”.
“É um desafio virtual que criei à volta da barragem de Óbidos, um percurso muito interessante, que vai até ao paredão da barragem com um desnível acumulado positivo de cerca de 700 metros de subidas. Passa pelas ribeirinhas, todas que desaguam para a barragem, zonas muito bonitas e fechadas em termos de floresta que ninguém imagina que existem aqui tão perto das Caldas. Neste momento, as ribeiras estão secas, mas na primavera aquilo é fabuloso”, explicou.
O Ponto de partida e chegada é no Convento de S. Miguel das Gaeiras, junto ao portão. Foram colocadas setas “TOA” e setas amarelas e pequenas fitas refletoras azuis que ajudam os participantes na orientação que ao inscreverem-se no desafio recenem o percurso numa aplicação para o GPS.
Estão registadas no site da prova 275 pessoas, do norte e sul do país, e também do estrangeiro. Já fizerem o percurso 112 pessoas. O melhor tempo até este momento, é do atleta caldense Guilherme Lourenço com o tempo de uma hora e vinte cinco minutos.
“Dos mais de 270 registados no Toa Virtual, 112 já validaram o seu tempo. Para validarem a sua participação, têm que tirar fotos (selfies) nos 5 pontos identificados ao longo do percurso, e enviar 2 para toavirtual@sapo.pt. Quando a prova terminar, no final do mês, vai haver uma classificação final e uma lembrança que é uma medalha feita em barro.
Jorge Serrazina já fez o percurso da Toa Virtual 33 vezes e até o dia 31 de agosto pretende fazê-lo mais sete vezes para chegar às 40 voltas.
“Este percurso, iniciou em maio e todas as semanas tenho de lá passar com a tesoura na mão, para cortar as silvas”, referiu.
Percursos na natureza na Praia do Salgado
Foi na casa de férias de Jorge Serrazina na praia do Salgado, que se localiza na freguesia de Famalicão, concelho de Nazaré, que o JORNAL DAS CALDAS entrevistou o atleta. Com uma vista deslumbrante para o Oceano Atlântico, o corredor de grandes distâncias falou dos percursos espetaculares que há na zona daquela praia. É aqui que também já criou novos trilhos e caminhos, que faz com um grupo de amigos. “Como tenho a casa, organizo umas brincadeiras para amigos, e temos aqui um trilho que chamamos 100 metros verticais até ao alto, com uma vista espetacular para a praia”, contou. A recompensa é depois um jantar de convívio no terraço da sua casa.
Para este atleta a zona à volta da praia do Salgado tem “trilhos excecionais sempre com o mar à vista daqui a São Martinho do Porto e à Nazaré”. “É um local ótimo no verão, pelas paisagens e toda a envolvência, não únicos”, apontou.
Junto da sua casa, há um trail de 100 metros verticais
“Há muitos grupos que vêm para aqui fazer o seu treino, porque da praia do Salgado a São Martinho do Porto temos muito trilhos, aproveitando os caminhos dos pescadores, há caminhos que podem ser feitos aumentado a dificuldade ou mais suaves pela encosta”, contou.
“Até à Nazaré também há caminhos muito bonitos passando pelos moinhos e pela Igreja de São Gião que está à espera de ser recuperada. Dá para fazer aqui uma volta de cerca de 20 quilómetros, subindo e descendo, sem passar pelo mesmo sítio”, adiantou, o atleta.
Entre a Foz do Arelho e Salir do Porto, há trilhos muito bonitos nas arribas. Uma das entradas é na Foz do Arelho, junto ao miradouro, onde o caminho por arribas dá para chegar a Salir do Porto. “O problema é que a maior parte do percurso, neste momento está fechado. São trilhos utilizados pela prova CUT – Caldas Ultra Trail, mas por causa da pandemia foi cancelada este ano, e não se abriram caminhos. Lamento porque são arribas muito bonitas e um percurso com uma paisagem espetacular do mar”, referiu. No entanto, o atleta disse que dá para fazer algumas arribas e espera que a prova Caldas Ultra Trail se realize em julho de 2021, com energias e ânimos redobrados, para que haja a oportunidade de voltar a abrir aqueles caminhos.
Jorge Serrazina destacou, também os “Trilhos da Lagoa de Óbidos”. Por exemplo, o percurso dos Patos Reais, é um trajeto linear, com cerca de quatro quilómetros e que decorre nas margens desta Lagoa. Este percurso, desdobra-se através de caminhos naturais e tem início marcado ou no parque de merendas ou no miradouro. Os observatórios do percurso, permitem que os seus visitantes vislumbrem junto à Lagoa de Óbidos milhares de aves aquáticas e algumas de rapina, que ali vivem. Para além disso, os pedestres podem ainda observar a pesca de bivalves e enguias que se faz naquela zona, há vários anos e ainda contemplar o Braço da Barrosa.Para conhecer melhor o património de Óbidos, existem ainda outros dois trilhos: um com cerca de um quilómetro, a que se dá o nome de Percurso do Ninho da Cegonha, e outro de extensão semelhante, intitulado como Parque Cinegético de Óbidos.
O corredor de grandes distâncias, tinha várias provas agendadas para o estrangeiro, que foram canceladas e agendadas para o ano que vem. Por exemplo a Marathon des Sables (maratona das areias) foi adiada para abril de 2021 Marrocos. Tinha também agendado uma prova nos Alpes, que também foi adiada. Jorge Serrazina gostava de voltar aos Pirinéus.
Jorge Serrazina apela à “exploração dos trilhos no meio da natureza, porque é saudável e coloca as pessoas a mexer”. “Durante o confinamento, arranjei uma pista de trail circular atrás da minha casa em Salgueirinha, de três quilómetros, onde um grupo vai todas as quintas-feiras fazer o treino”, contou.
Quim Sampaio, amigo de Jorge Serrazina de Vila Praia de Âncora, veio passar férias a esta região na sua Autocaravana. “Conheço o Jorge e sua irmã há anos e ele convidou-me para fazer o TOA VIRTUAL e vou fazê-lo para a semana”, contou, ao JORNAL DAS CALDAS.
Pioneiro da corrida de Trail
Quim Sampaio, nasceu em 1946, é um dos pioneiros da corrida de Trail em Portugal.
Começou a correr em provas de trail no ano de 1995, quando esta modalidade da corrida foi lançada em Portugal, pelo Terras de Aventura e na atualidade continua um ativo atleta de ultra trail. Hoje, e apesar dos seus já 73 anos, corre provas de montanha com mais de 100 km. “Posso dizer que sou em Portugal, neste momento, o atleta mais velho a fazer ulta trails de 100 ou mais quilómetros”, disse, acrescentando que “os trilhos nos dão saúde e vida”.
“Tendo os trilhos, estou no céu”, sublinhou, desatacando o respeito que tem pela natureza.
Contou que houve uma altura muito má na sua vida, tive com problemas sérios e a sua cura foi levantar-me às “três ou quatro da manhã e ir para a Serra de Arga treinar”.
Convida as pessoas a “irem para a natureza, e escolham os trilhos mais adequados e façam exercício ao livre, não há nada melhor”, salientou, Quim Sampaio.









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