Risco de viver

Francisco Martins da Silva

EXCLUSIVO

ASSINE JÁ
A par da afirmação óbvia de que ainda se sabe pouco do novo coronavírus, muito cedo passou a ser factor unânime de severo isolamento dos mais velhos a regra dogmática de que se é atreito a infecções fatais depois dos 70 anos de idade.
Francisco Martins da Silva

As estatísticas macabras propaladas diariamente procuram demonstrar que os velhos sucumbem todos à covid-19 quer sejam saudáveis e autónomos quer vegetem em lares. E a morbidez moralista dos noticiários instila na sociedade o impulso vigilante e a autocensura — os maiores de 70 anos têm de ser protegidos deles próprios e dos outros; devem ficar em casa; devem arranjar alguém que lhes deixe as compras no patamar; ver os netos, só a distância, da varanda para o passeio ou, muito mais aconselhável, em videochamada; e devem adiar qualquer consulta médica que não seja acerca da covid-19.

Devem, portanto, aguentar “confinados” que este desvario desinfectante passe. Confinado tem como primeira acepção se precisares de mim, não me incomodes.

O tifo fez três milhões de mortos, desde o final da Primeira Guerra até 1922. Mais ou menos ao mesmo tempo, a gripe espanhola matou outros vinte milhões. A tuberculose matou um bilião, entre 1850 e 1950. De 1896 até 1980, a varíola matou trezentos milhões. O sarampo dizimou seis milhões por ano, até 1963. Mais localizadas, há anualmente três milhões de mortes por paludismo. Em Portugal, a gripe mata todos os anos mais de três mil pessoas.

Os nossos maiores de 70 são sobreviventes e filhos de sobreviventes destas epidemias e das mil e uma vicissitudes da vida. Os nossos maiores de 70 não só dispensam lições de sobrevivência como as podem dar. O seu encolher de ombros e falta de paciência para esta pletora de tudólogos e especialistas em achismo, para tanta “higienização”, para tanta “noção” televisiva, deveria ser visto como sinal tranquilizador de quem já passou por muito mais do que isto e sobreviveu. Deveria ser visto como sinal de que temos a aprender com a sua experiência, em vez de os infantilizar e lhes censurar a urgência de aproveitar o dia.

Para os maiores de 70 é aqui e agora, amanhã logo se vê. Além de que a dignidade e os direitos cívicos não caducam depois dos 70. Quando esta epidemia passar, e antes da próxima, ficará a lembrança da figura triste dos que pensam que ser idoso é mania de que estão livres.

Henrique Barros, epidemiologista, usa a analogia com o VIH, lembrando que a solução não foi deixar de ter relações sexuais, mas passar a tê-las com preservativo. Viver é arriscado, devemos acautelar-nos, mas apenas para não deixar de, enquanto há vida, viver.

(0)
Comentários
.

0 Comentários

Deixe um comentário

Artigos Relacionados

Fechar a estrada antes que o rio decidisse por nós

Este texto é um reconhecimento. Escrevo-o porque sei que os factos aconteceram desta forma. Porque conheço quem tomou a decisão. Porque sei como foi ponderada, discutida, insistida. E porque nem sempre quem evita a tragédia é quem aparece a explicá-la.

foto barroso

Jovem casal abriu negócio de barbeiro, cabeleireiro e esteticista

Foi no final de setembro do ano passado que César Justino, de 23 anos e Maria Araújo, de 22 anos, abriram o cabeleireiro 16 Cut na Rua da Praça de Touros, em Caldas da Rainha. O estúdio, que era previamente loja de uma florista, serve agora o jovem casal e inclui serviço de barbeiro, cabeleireiro e esteticista.

16 cut1

Concurso de cozinha na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste

O Chefe do Ano, o maior e mais prestigiado concurso de cozinha para profissionais em Portugal, revelou os 18 concorrentes apurados para as etapas regionais da sua 37.ª edição, após uma fase de candidaturas que reuniu mais de 200 profissionais.
As três eliminatórias regionais decorrerão em abril. A primeira, referente à região Centro, será realizada no dia 14 de abril, na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste, nas Caldas da Rainha. A segunda, da região Sul & Ilhas, acontecerá a 22 de abril, na Escola de Hotelaria e Turismo de Portimão.

concurso