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O professor Esperança

Francisco Martins da Silva

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Conheci o professor Manuel Esperança em 1992, quando tive o privilégio de leccionar na extraordinária Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Lisboa, edifício da autoria do insigne arquitecto Hestnes Ferreira. Era um êxtase aquelas paredes em betão branco, as clarabóias, a configuração das salas, o mobiliário integrado, o arrojo da volumetria pós-moderna. Já nessa altura dirigia a escola o Esperança. Coincidência feliz, um professor chamar-se Esperança. Lembro-me do simpático, entusiasta e disponível colega presidente do Conselho Directivo.
Francisco Martins da Silva

Há dias, os jornais noticiaram o processo disciplinar instaurado pelo Ministério da Educação ao director Esperança, por ter excedido os serviços mínimos decretados para uma greve de professores que coincidia com a realização de exames nacionais do ensino secundário e de provas de aferição do 1º ciclo. O director Esperança, achando que a sua obrigação era apenas para com os alunos, que tinham de ter garantidas, fosse lá como fosse, todas as condições para realizarem os exames, decidiu exorbitar as suas competências, ignorar a ordem do Ministério da Educação, violar o Estatuto da Carreira Docente e o direito inalienável à greve, e convocar os professores todos. Isto ocorreu em 21 de Junho de 2017, dia de greve convocada pela Federação Nacional de Professores e pela Federação Nacional da Educação para exigir o descongelamento da carreira docente e um regime especial de aposentação. O professor Esperança foi agora condenado à pena mais leve, a repreensão escrita.

A Federação Nacional de Professores sabe de mais dezasseis directores sujeitos a processos disciplinares pelas mesmas razões. O caso do professor Esperança só foi notícia por este se ter sentido injustiçado ao ponto de pedir a reforma antecipada e a sua escola ser referência no topo dos rankings. Ao cabo de 28 anos a conduzir a Secundária José Gomes Ferreira ao sucesso mediático, o Esperança sai ressentido. É pena, não precisava de bater com a porta, bastava reconhecer que errou e não se falava mais nisso.

Estes casos ilustram o efeito perverso da longa permanência em cargos directivos — a perda da noção das prioridades. Após longos anos dedicados em exclusivo à gestão do estabelecimento de ensino, um director esquece-se de que é professor, esquece-se de que quem faz a escola são os seus colegas, perde a noção de que serve melhor os alunos se puser em primeiro lugar os professores. Sim, são os professores quem faz escola e quem faz a escola. Os alunos passam pela escola. E são, mais uma vez, os professores quem adapta continuamente a escola aos alunos que vão surgindo. Os alunos são a razão de ser dos professores, mas a condição de aluno só se concretiza perante o professor.

Neste tempo de ataque vil e irracional à classe docente, ao ponto de nenhum jovem ambicionar esta imprescindível carreira, os directores deveriam personificar a última esperança dos seus colegas, estando do seu lado, lutando ao seu lado. Dificultar greves como as que se têm feito pelo reconhecimento do tempo de serviço cumprido e pela renovação de corpo docente é pusilânime, reles, traiçoeiro. Impedir que os colegas as façam é inaceitável em democracia.

Porém, o Estado de direito funcionou. Ainda bem.

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