Segundo um antigo relato de minha mãe, este homem alto, espadaúdo, delicado nos gestos e educado na fala – que nunca levantara a voz para ninguém e jamais erguera a mão para algum dos quatro filhos, fazia com que tudo seguisse em conformidade, no ritmo de sua voz, poderosa e bem acentuada – não perdia uma oportunidade para conviver com os amigos.
De vez em quando, o domingo era passado fora de casa, em tertúlias, nas Caldas da Rainha, em Óbidos, na Nazaré, ou em outra localidade próxima. Porém, em certas ocasiões, na primavera ou no verão, o local escolhido para o convívio era o Braço da Barrosa, na Lagoa de Óbidos.
Era uma época diferente (entre os anos de 1930 e 1956), as amizades eram solidificadas com honestidade, e a palavra possuía um peso incomensurável. Porém, havia um problema.
Os meus queridos leitores que viveram o período indicado devem recordar-se do perigo que eram as confraternizações em locais públicos. A Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), protetora feroz do Estado Novo (1933-1974), acreditava que qualquer folgança popular era motivo para uma revolução contra o Governo. E, como Caldas da Rainha sempre foi uma terra de bufos, era muito delicado falar sobre política com quem não se confiava.
Rui Mateus e o seu grupo de amigos, quando optavam por uma ida à Lagoa de Óbidos faziam-no por dois motivos: Poderem falar à vontade acerca dos assuntos mais pertinentes relacionados com a política de então, e passar bons momentos, em salutar e revigorante pescaria.
O Braço da Barrosa exercia algum fascínio ao grupo de Rui Mateus. A lenda espraiava que o seu nome era derivado de uma enorme quinta ali existente, e que, a sua adjacência integrava as dádivas iniciais da Rainha D. Leonor de Lencastre (1458-1525) ao venerando Hospital Termal de Caldas da Rainha. Aquele era um local de enorme formosura e placidez, onde era possível deleitar-se com uma visão paradisíaca – praticamente uma reserva natural – repleta de fauna e flora muito diferenciadas.
Quando, naquele tempo, a rapaziada passava o dia em folgazã e festiva harmonia, a pescaria corria melhor, pois, não raro era o instante em que as linhas se retesavam, tendo na outra ponta do caniço um vistoso robalo.
O final do dia – depois de muita galhofa, e muito peixe no balaio de vime de cada um (ou no enorme passaguá de Rui Mateus) – era passado a admirar a desmesurada e matizada irmandade de aves, das mais variadas espécies: Maçaricos-reais, ostraceiros, garças-reais, garajaus, patos-reais, garças-brancas-pequenas, flamingos, gaivinhas-de-bico-preto e garças boieiras, tudo numa consonância difícil de reconhecer atualmente, porque a abundância de espécies já não é o que era.
Aquelas pescarias, aprazíveis e descontraídas aproximaram pessoas, uniram famílias, emolduraram uma época. A Lagoa de Óbidos – a última das três imensas lagoas num raio de cinquenta quilómetros, reconhecidas desde o período neolítico (2000 -2500 a. C) – ficou na minha alma através do amor do meu avô por ela. O sentimento dele por aquele local era idêntico ao de Ramalho Ortigão (1836-1915), levado à estampa no volume I das Farpas: “à Lagoa de Óbidos não falta senão uma cintura de jardins, e de habitações de luxo, para ser tão bela como alguns lagos célebres do norte de Itália”.



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